Trump tenta arrastar a Europa para a guerra no Irã à base de ameaças

Duas semanas depois de lançar, ao lado de Israel, uma guerra ilegal e não provocada contra o Irã, Donald Trump agora se volta contra os próprios aliados. Ele exige que a Europa e a OTAN enviem navios de guerra ao Estreito de Ormuz. A ameaça é de um “futuro muito ruim” para a aliança caso não cooperem.

A chantagem foi articulada em entrevista ao Financial Times. Trump afirmou que os europeus devem mandar caça-minas, equipes de comandos e “o que for necessário” para desobstruir o estreito. Por esta passagem, transita um quinto do petróleo mundial.

É o gesto típico do piromaníaco que, tendo incendiado a casa do vizinho, exige que a vizinhança inteira venha ajudar a apagar o fogo.

O problema é que o incêndio não para de se alastrar. O petróleo já ultrapassou os 106 dólares por barril, uma alta de 45% desde o início do conflito. Cerca de mil petroleiros estão parados, sem conseguir cruzar Ormuz. Ataques iranianos com drones e minas navais continuam atingindo embarcações, apesar das alegações de Trump de que “destruiu 100% da capacidade militar iraniana”.

A ironia suprema da situação é que o Estreito de Ormuz não está propriamente fechado. O chanceler iraniano Abbas Araghchi declarou que a passagem está aberta a todos os países. A exceção são aqueles que estão atacando o Irã e seus aliados.

Em outras palavras, a solução diplomática para reabrir Ormuz é de uma simplicidade desconcertante: basta parar de bombardear o Irã. A Turquia já obteve permissão para passar. A Índia negociou diretamente com Teerã e conseguiu a travessia de dois navios-tanque. Petroleiros iranianos seguem abastecendo a China sem impedimentos.

Mas Trump não quer diplomacia. Ele quer submissão. Na entrevista ao FT, reclamou amargamente do Reino Unido. “O UK pode ser considerado o aliado número um, o mais antigo etc., e quando eu pedi que viessem, não quiseram vir.” Ele acrescentou, com o tom de um chefe mafioso cobrando favores: “Nós ajudamos com a Ucrânia. A Ucrânia fica a milhares de quilômetros de nós. Agora veremos se eles nos ajudam.”

A equiparação é tão desonesta quanto reveladora. A ajuda à Ucrânia, um país invadido, serviu para defender exatamente o princípio que Trump agora viola no Irã. Este princípio é o de que potências não podem agredir nações soberanas por capricho. Trump não está pedindo ajuda para defender alguém. Ele está exigindo que a Europa se torne cúmplice de uma guerra de agressão.

Até agora, a resposta europeia tem sido, na melhor das hipóteses, evasiva. Macron anunciou uma missão “puramente defensiva” de escolta a petroleiros. A UE discutirá a expansão da missão naval Aspides. Mas nenhum país se comprometeu formalmente a enviar navios de guerra ao Golfo. A Espanha, aliás, recusou-se a permitir que aviões americanos usassem bases conjuntas para ataques ligados ao conflito. Em retaliação, recebeu ameaças comerciais de Trump.

É o maior teste diplomático para a Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Não por causa do Irã, mas por causa dos Estados Unidos. A questão não é se a Europa consegue abrir o Estreito de Ormuz, pois o Irã já sinalizou que basta não participar da guerra. A questão é se a Europa terá a coragem de dizer não a um presidente americano que, desesperado diante do caos que ele próprio criou, tenta arrastar o continente para um conflito que não lhe pertence.

O senador democrata Chris Murphy resumiu a situação com precisão cirúrgica: “Eles não tinham plano nenhum para o Estreito de Ormuz.” É isso mesmo. Trump destruiu, não tem plano, e agora quer que o mundo pague a conta.

Vale lembrar que a própria base constitucional desta guerra é questionável. Trump lançou a ofensiva contra o Irã sem aprovação do Congresso americano. Isso contraria a exigência da Constituição de que apenas o Legislativo pode declarar guerra. O que se pede à Europa, portanto, não é apenas que participe de um conflito alheio. Pede-se que endosse uma aventura bélica que nem dentro dos Estados Unidos tem respaldo legal claro.

Se a Europa se ajoelhar, não estará apenas embarcando numa aventura militar irresponsável. Estará enterrando de vez o que restava de uma política externa autônoma. Se resistir, terá dado o primeiro passo rumo a algo que discursa há décadas mas nunca praticou: a verdadeira soberania estratégica.

Tucídides escreveu, na Guerra do Peloponeso, que “o forte faz o que pode e o fraco sofre o que deve”. A Europa, neste momento, precisa decidir se ainda é forte o bastante para não sofrer o que Trump quer lhe impor.

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