De Jimmy Carter a Joe Biden, a potência americana acumula décadas de humilhações no Oriente Médio, e a história do Irã explica por quê.
Nas últimas cinco décadas, um país derrotou sistematicamente a política externa americana, constrangeu presidentes e sobreviveu a sanções e guerras por procuração: o Irã. Nenhum outro dossiê na história recente dos Estados Unidos acumula uma sequência tão consistente de fracassos. Entender essa trajetória é compreender os limites estruturais do poder americano em um mundo que se recusa, com crescente determinação, a obedecer aos roteiros escritos em Washington.
Tudo começa antes da Revolução Islâmica, em uma arquitetura geopolítica montada pelos americanos após o enfraquecimento britânico no Oriente Médio. Com a influência de Londres definhando, os Estados Unidos herdaram a responsabilidade de manter a ordem regional. Para isso, inventaram a estratégia dos dois pilares, apoiando simultaneamente a Arábia Saudita sunita e o Irã do Xá xiita como âncoras de sua presença. A lógica era elegante no papel e desastrosa na prática. Washington entregou a Riad e a Teerã o pacote clássico reservado aos aliados convenientes: armas, financiamento e silêncio diante das atrocidades internas. A polícia secreta do Xá, a SAVAK, era notória por seus métodos de tortura, e nenhum presidente americano considerou isso motivo para revisar a parceria.
Quando a Revolução Islâmica irrompeu em 1978, Washington não foi pego de surpresa. Funcionários sabiam que o descontentamento era profundo, alimentado por corrupção, desigualdade e brutalidade repressiva. O governo de Jimmy Carter, no entanto, estava paralisado por divisões internas. O conselheiro de segurança nacional Zbigniew Brzezinski defendia apoio militar ao Xá, enquanto o Departamento de Estado acreditava que o regime já estava irrecuperável. Carter ficou imóvel, e o Xá foi varrido sem que Washington levantasse um dedo decisivo em sua defesa.
O que veio a seguir seria o capítulo mais humilhante da política externa americana em décadas. Em novembro de 1979, estudantes revolucionários tomaram a embaixada dos Estados Unidos em Teerã e mantiveram 66 reféns por 444 dias. A crise consumiu a presidência de Carter. A tentativa de resgate militar, a Operação Eagle Claw, terminou em tragédia no deserto, com oito militares americanos mortos. O Irã havia derrotado o presidente número um. Carter perdeu as eleições de 1980 para Ronald Reagan em derrota esmagadora. Os Acordos de Argel, que encerraram a crise, obrigaram Washington a descongelar ativos iranianos e prometer não interferência, compromisso rapidamente ignorado.
Quando o Iraque de Saddam Hussein invadiu o Irã em 1980, os Estados Unidos decidiram que o ditador bagdali representava o mal menor. Dinheiro, armas e inteligência fluíram para Bagdá. A ironia geopolítica ficou por conta de Israel, que, apesar de sua hostilidade declarada à República Islâmica, também forneceu assistência ao Irã durante o conflito, calculando que o Iraque representava uma ameaça estratégica maior.
O que esse acúmulo de episódios revela não é apenas incompetência situacional, mas um padrão estrutural. Washington tende a enxergar o Oriente Médio como um tabuleiro onde as peças devem mover-se conforme seus interesses, e o Irã, repetidamente, recusou esse papel. A Revolução de 1979 não foi apenas uma mudança de regime; foi a declaração de independência de uma civilização milenar em relação à tutela americana, e essa declaração mantém sua validade até hoje.
Para o leitor brasileiro, a narrativa tem ressonâncias familiares. O Sul Global conhece bem o roteiro do aliado conveniente: aceita-se a parceria enquanto serve, ignora-se a soberania quando incomoda e pune-se com sanções quando o país ousa seguir seu próprio caminho. O Irã simplesmente foi mais longe do que a maioria na resistência a esse roteiro. O preço pago pela população iraniana, sob sanções brutais que afetam medicamentos e a economia cotidiana, é imenso e frequentemente invisível na narrativa ocidental dominante.
Cinco décadas depois da Revolução, o Irã permanece de pé, expandindo sua influência regional e participando ativamente da nova arquitetura multipolar que os BRICS representam. Washington, por sua vez, segue repetindo variações do mesmo erro: achar que mais pressão produzirá a capitulação que nunca veio. A definição de insanidade é repetir o mesmo comportamento esperando resultados diferentes. No caso americano e iraniano, esse ciclo já dura mais de quarenta anos, e o quebra-cabeça permanece tão insolúvel quanto sempre foi.