Refugiados palestinos, deslocados originalmente em 1948, enfrentam um novo ciclo de expulsão diante da escalada militar israelense no sul do Libano.
Manal Matar nasceu no campo de refugiados de Rashidieh, no sul do Libano. Seus avós chegaram ali em 1948, após fugirem da cidade palestina de Akka durante a Nakba, acreditando que seu retorno seria questão de dias.
Na madrugada de 2 de março, com a intensificação dos bombardeios israelenses, sua família foi forçada a fugir novamente. “A guerra era aterrorizante, e ficamos mais de um dia na estrada”, relatou ela ao Al Jazeera. Agora, Manal vive com parentes no campo de Beddawi, no norte do pais.
Seu caso não é isolado. Autoridades do campo de Beddawi confirmam a chegada de mais de 250 familias palestinas, deslocadas de Beirute e do sul do Libano. Israel retomou operações militares em larga escala no pais após um ataque do Hezbollah, que se declarou uma resposta ao assassinato de um alto comandante iraniano.
Desde então, Tel Aviv emitiu ordens de evacuação para mais de 14% do territorio libanês. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, declarou publicamente que os deslocados “não voltarão para casa” enquanto o norte de Israel não estiver seguro. A afirmação explicita uma politica de deslocamento forçado.
As áreas atingidas incluem campos de refugiados palestinos históricos, como Rashidieh e Shatila, que abrigam descendentes daqueles expulsos em 1948 e 1967. No Libano, cerca de 200 mil refugiados palestinos vivem sob severas restrições legais, sem acesso pleno ao mercado de trabalho.
“Estou vivendo o que meus pais viveram em 1948. Esta é uma nova Nakba, e ela se repete a cada dez anos”, disse Yasser Abou Hawash, que fugiu de Tiro, ao Al Jazeera. Seu relato ecoa a análise de acadêmicos como Elia Ayoub, para quem a Nakba é um processo contínuo, não um evento histórico isolado.
A trajetoria de Dalal Dawali condensa essa continuidade. Sua familia é originária de al-Khalisa, vila palestina destruída para dar lugar à cidade israelense de Kiryat Shmona. Após os recentes bombardeios em Dahiyeh, ela voltou com seus quatro filhos para o campo de Beddawi. “O mesmo que aconteceu com minha familia está acontecendo comigo”, afirmou.
A crise é agravada pela exclusão institucional. Centros de acolhimento abertos pelo governo libanês estariam recebendo apenas cidadãos nacionais, deixando refugiados palestinos e sírios sem amparo formal. Trabalhadores humanitários relatam que esses grupos precisam buscar soluções por conta própria.
Mais de 800 mil pessoas já foram deslocadas no Libano desde o início de março, em uma operação de intensidade comparável às campanhas de 2006 e 2024. O pais, com cerca de 5 milhões de habitantes e uma economia em colapso, enfrenta uma emergência humanitária além de sua capacidade de resposta.
O cenário ressoa no Brasil, que abriga a maior comunidade árabe fora do mundo árabe. A escalada no Libano afeta familias com laços diretos com o pais, reforçando a relevância de uma politica externa brasileira ativa na defesa do direito internacional. O governo Lula tem mantido uma posição crítica, tendo reconhecido o Estado da Palestina e recallado seu embaixador em Tel Aviv, medidas que ganham novo contexto diante da atual crise.

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