Antes de voltar à Lua, o capital já tenta loteá-la em relatórios, promessas e ficções vendidas como realidade.
Há cinquenta e quatro anos, a humanidade deixou sua última pegada na poeira lunar.
Desde então, apenas robôs visitaram o satélite, alguns com sucesso e outros espatifando-se contra a superfície.
Agora, a agência espacial dos Estados Unidos planeja retornar com humanos em 2028, por meio do programa Artemis, com a meta de estabelecer uma presença permanente onde hoje há apenas vazio.
Enquanto engenheiros e cientistas enfrentam os desafios técnicos dessa empreitada, outro tipo de profissional já começou a medir o terreno por critérios bem diferentes.
A consultoria e auditoria PwC publicou em janeiro sua segunda Avaliação do Mercado Lunar, tratando a Lua como um ativo financeiro em potencial. Segundo análise do periódico New Scientist, o estudo adota uma abordagem baseada em cenários para projetar oportunidades de mercado em atividades na superfície lunar entre 2026 e 2050.
O relatório concentra-se em cinco pilares considerados fundamentais: mobilidade, comunicação, habitação, energia e água. Cada um deles é examinado em termos de necessidade de investimento e de possíveis fluxos de receita.
Os números projetados são astronômicos, mas em dólares. A PwC estima que as receitas cumulativas totais das atividades na superfície lunar nesse período possam variar entre 93,9 e 127,3 bilhões de dólares.
Esse montante supera o Produto Interno Bruto da grande maioria das nações hoje existentes na Terra. O dado, por si só, dá a medida da ambição embutida na nova corrida espacial.
Mas uma leitura mais atenta revela que o entusiasmo já sofreu correção. A primeira edição do mesmo estudo, publicada em 2021, projetava 170 bilhões de dólares em receitas cumulativas até 2040, portanto um valor maior em um horizonte mais curto.
A revisão para baixo em apenas cinco anos levanta uma pergunta inevitável sobre o que esfriou as expectativas da chamada economia selênite. O próprio relatório admite que o panorama de receitas depende, antes de tudo, da intensidade das missões de exploração, tripuladas ou não.
Em outras palavras, tudo continua subordinado à decisão de governos, sobretudo Estados Unidos e China, de manter investimentos pesados em programas que são, em essência, projetos de prestígio geopolítico e científico. A monetização da Lua, antes mesmo de uma presença consistente em sua superfície, expõe a contradição central da nova corrida espacial.
Ela é apresentada ao público como um salto civilizatório para a humanidade. Ao mesmo tempo, é calculada pelos mercados como um portfólio de investimentos de risco extremo, pronto para ser precificado antes mesmo de existir.
Essa lógica não aparece isolada. Ela faz parte de um ambiente mais amplo em que projeção, marketing e interesse privado se misturam com frequência crescente ao discurso da objetividade.
Um episódio paralelo, também destacado pelo New Scientist, ajuda a dimensionar o problema em outro campo. O periódico Paediatrics & Child Health publicou em fevereiro duas correções massivas, aplicando um aviso a 138 artigos publicados ao longo de 25 anos.
Os textos, que pareciam relatos de casos clínicos reais, eram na verdade ficcionais e haviam sido criados como ferramentas de ensino. Como registraram os jornalistas do Retraction Watch, site especializado em retratações científicas, a revelação foi direta: um periódico médico diz que os relatos de caso que publicou por 25 anos são, na verdade, ficção.
O caso não é apenas embaraçoso para a credibilidade editorial. Alguns desses relatos fictícios haviam sido incorporados a diretrizes clínicas, e outros chegaram a inspirar médicos a iniciar programas de pesquisa.
O dano, portanto, não ficou no plano abstrato. A falta de transparência mostrou como a fronteira entre material didático, evidência científica e prática médica pode ser perigosamente borrada.
A mesma edição do New Scientist trouxe ainda um exemplo mais banal, mas igualmente revelador, de ciência filtrada por interesses comerciais. Uma assessoria de imprensa distribuiu um comunicado antes do Dia Mundial do Sono de 2026 alertando que até uma desidratação leve pode contribuir para o desconforto noturno.
O texto se apresentava como alerta de saúde pública. Na prática, havia sido enviado em nome de uma empresa que fabrica e vende tabletes de eletrólitos solúveis.
A mensagem implícita era simples e velha conhecida do mercado. Para dormir melhor, compre o produto certo.
Esse tipo de operação é comum e ajuda a entender o ambiente informacional em que vivemos. Mesmo descobertas ou recomendações aparentemente neutras chegam ao público frequentemente moldadas por interesses de venda, posicionamento de marca ou disputa por atenção.
Postas lado a lado, essas notícias formam um retrato coerente do presente. Relatórios que tentam colocar preço em corpos celestes, artigos médicos que se revelam ficção e conselhos de saúde embalados por marketing apontam para o mesmo problema: a objetividade virou um bem escasso.
No caso da Lua, a corrida é real, mas as projeções de mercado ainda pertencem ao terreno da futurologia financeira. Elas dizem menos sobre a realidade tecnológica atual do que sobre a ansiedade do capital em descobrir novas fronteiras de acumulação.
A China, com um programa espacial robusto e metódico, avança sem grande alarde sobre monetização imediata. Seu foco permanece em objetivos estratégicos de longo prazo e em capacitação tecnológica autônoma.
Os Estados Unidos, por sua vez, combinam a narrativa do pioneirismo com contratos bilionários e a promessa de um novo faroeste espacial. A agência espacial do país e empresas como a SpaceX misturam ambição científica, competição geopolítica e negócios privados em escala inédita.
O Brasil observa essa disputa à distância. Apesar de competências notáveis em áreas como sensoriamento remoto e engenharia aeroespacial, inclusive em instituições como o ITA, o país segue com um programa espacial historicamente subfinanciado.
A verdadeira economia lunar, se um dia existir, não será construída por planilhas de consultoria. Ela dependerá de foguetes, robôs, estações de pesquisa, infraestrutura concreta e, acima de tudo, de uma colossal vontade política.
Até lá, relatórios como o da PwC funcionam mais como termômetros do imaginário capitalista do que como retratos confiáveis do futuro. O próximo eldorado, para esse imaginário, pode estar até a 384 mil quilômetros de distância.
A lição final talvez seja menos espacial do que terrestre. Numa era saturada de informação, separar fato de ficção e interesse público de interesse privado tornou-se uma habilidade vital, seja para avaliar um caso clínico, seja para entender quem já tenta transformar a Lua em ativo antes mesmo de voltar a pisar nela.