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O cerco que fortaleceu Teerã

Ao tentar esmagar o Irã, o Ocidente ajudou a consolidar um novo eixo de poder fora de seu controle. A história volta a encenar velhos confrontos em cenários novos, e agora o centro da disputa está entre os desertos e montanhas do Oriente Médio. O Irã ocupa nesse tabuleiro um lugar que lembra, em parte, […]

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Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil/Arquivo

Ao tentar esmagar o Irã, o Ocidente ajudou a consolidar um novo eixo de poder fora de seu controle.

A história volta a encenar velhos confrontos em cenários novos, e agora o centro da disputa está entre os desertos e montanhas do Oriente Médio.

O Irã ocupa nesse tabuleiro um lugar que lembra, em parte, o papel do Vietnã em outra era: o de um Estado que desafia uma potência imperial sob pressão permanente.

Mas a semelhança para aí, porque Teerã não resiste em isolamento e sim no interior de uma rede alternativa de poder que já altera a geografia política do mundo.

Segundo análises publicadas no Brasil 247, a parceria tecnológica e estratégica entre Teerã, Pequim e Moscou deixou de ser hipótese e se tornou realidade operacional. Esse é o ponto decisivo que distingue o conflito atual das guerras do século passado.

A China aparece, nesse contexto, não como coadjuvante, mas como fonte de vantagem diplomática e econômica de primeira ordem, como destacou editorial do próprio Cafezinho. Isso muda o equilíbrio do confronto e amplia a margem de sobrevivência iraniana diante das sanções e do cerco ocidental.

O avanço tecnológico do Irã, sobretudo nas áreas cibernética e de drones, segue subestimado pela narrativa dominante no Ocidente. A revista Exame alertou para o potencial de aumento de ataques hackers globais, inclusive contra o Brasil, mas concentrou-se no risco colateral e deixou de lado a causa central: a capacidade de um Estado soberano de desenvolver poder assimétrico sob bloqueio.

É justamente aí que se revela uma das omissões mais graves da grande mídia. A cobertura hegemônica insiste em retratar o Irã como pária e vetor automático de desordem, sem jamais reconhecer a lógica política de sua resistência.

Condena-se o sintoma enquanto se absolve a doença. Quando o presidente Lula, em declaração reproduzida pela Gazeta do Povo, atribuiu aos “tiros” dados por Donald Trump no Irã consequências globais como a alta do diesel e o fortalecimento de atores como a Rússia, ele tocou no núcleo do problema.

A referência de Lula aponta para o rompimento unilateral do acordo nuclear e para a política de sanções brutais que se seguiu. Em vez de isolar definitivamente Teerã, essa estratégia empurrou o país para alianças mais profundas com outras potências e ajudou a consolidar novos eixos de poder.

A guerra em torno do Irã, portanto, não é apenas militar. Ela é também moral, diplomática e simbólica, e nesse terreno Teerã acumula capital político, justa ou injustamente, ao se apresentar como alvo de um cerco marcado por duplo padrão.

O Ocidente cobra do Irã uma disciplina que não exige de outros atores nucleares da região. Esse desequilíbrio fornece à República Islâmica uma narrativa poderosa de resistência à hipocrisia internacional e ao imperialismo, especialmente diante de um Sul Global cada vez mais desconfiado da ordem liderada pelos Estados Unidos.

Enquanto análises como as publicadas no Brasil 247 observam o papel conjunto de Rússia e China como contrapeso estratégico, a mídia tradicional prefere tratar essa articulação como simples anomalia perigosa. Com isso, evita encarar o essencial: não se trata de desvio passageiro, mas de sintoma concreto do desgaste da unipolaridade.

O chamado “Vietnã Persa” aprendeu, ao contrário do original, a transformar isolamento em conexão. Hoje, o país não enfrenta seu adversário sozinho, mas inserido numa coalizão revisionista que questiona a própria arquitetura do poder mundial.

Seu espaço geográfico pode ser cercado, mas suas conexões digitais, comerciais e tecnológicas escapam com mais facilidade ao bloqueio. Rotas alternativas de comércio, intercâmbio técnico e cooperação estratégica reduziram a vulnerabilidade que o cerco pretendia ampliar.

A parceria com Moscou vai além do fornecimento de armamentos. Ela envolve troca de inteligência, aprendizado em guerra híbrida e aprofundamento de capacidades operacionais, como apontam análises especializadas mencionadas no próprio rascunho.

Com Pequim, os vínculos são ainda mais estruturais. Eles abrangem investimentos em infraestrutura, apoio econômico e integração a iniciativas como o Cinturão e Rota, oferecendo ao Irã uma válvula de escape para contornar o estrangulamento financeiro das sanções.

O resultado é um ator muito mais resiliente do que imaginam Washington e Bruxelas. A tentativa de sufocar a República Islâmica acabou estimulando a formação de um Estado com capacidades militares indígenas relevantes e alianças sólidas com duas potências nucleares.

O império, desta vez, não encontra apenas a determinação de um povo disposto a resistir. Encontra uma geometria de poder em reorganização, mais distribuída, mais tecnológica e menos vulnerável ao velho monopólio ocidental da força e das finanças.

Essa é a ironia central do processo. A política de máxima pressão, vendida como instrumento de contenção, funcionou também como acelerador de autonomia estratégica para o país que se queria dobrar.

A lição é antiga, mas continua atual. Toda força bruta, militar ou econômica, produz seus próprios anticorpos, e no mundo multipolar em formação esses anticorpos estão mais coordenados, mais sofisticados e mais conscientes de seu papel histórico.

O Irã não é apenas um problema regional, como deseja a caricatura dominante. Ele se tornou um teste decisivo para medir até onde o Ocidente ainda consegue impor sozinho as regras do jogo e até onde o resto do mundo já começou a escrever outras.

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