A corrida pelo mordomo mecânico saiu da ficção e expõe, mais uma vez, quem promete o futuro e quem o fabrica.
O mordomo robô, por décadas confinado à ficção científica de personagens como Bender, de Futurama, e Ava, de Ex Machina, começa enfim a entrar no mercado real.
Empresas de robótica já abriram pré-vendas de modelos voltados a tarefas domésticas, transformando em possibilidade comercial aquilo que até ontem parecia apenas fantasia.
Segundo dados compilados pelo banco Morgan Stanley e citados pela revista New Scientist, mais de 40 novos modelos de robôs humanoides foram apresentados por empresas de todo o mundo apenas em 2025, e 60% deles surgiram na China.
A 1X anunciou seu robô NEO com entregas previstas para este ano, num movimento tratado como marco para o setor. Pela primeira vez, um assistente doméstico humanoide pode ser comprado por valores que começam na faixa de alguns milhares de dólares.
O entusiasmo no Vale do Silício é evidente, com figuras como Sam Altman, CEO da OpenAI, prevendo um futuro em que robôs circularão com naturalidade pelas ruas. Mas, no momento, a produção em escala e a compressão de custos parecem ser um terreno em que a China leva vantagem.
A Unitree oferece seu modelo básico R1 por pouco mais de 4 mil libras. Já o NEO, da 1X, custa 20 mil dólares à vista ou 499 dólares por mês em assinatura.
A aposta na forma humana tem uma lógica direta: o mundo foi construído para corpos humanos. Degraus, maçanetas, pias e interruptores obedecem à nossa escala, o que faz da morfologia humanoide uma solução teoricamente capaz de operar em casas e prédios sem reformas caras.
Essa lógica já começa a ser testada também fora do ambiente doméstico. A Figure 02, um modelo anterior da Figure, foi experimentada em uma fábrica da BMW para executar tarefas de reposição.
Ainda assim, a sedução do formato humano está longe de ser consenso entre especialistas. Jonathan Aitken, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, afirmou à fonte original que não considera necessário que esses sistemas sejam humanoides e resumiu sua posição de forma direta: “Eles precisam ser humanoides? Para mim, a resposta é ‘Não, acho que não’”.
Para Aitken, o design pode ser vistoso e chamar atenção, mas isso não significa que seja a opção mais prática, confiável ou custo-efetiva. Em muitos casos, a eficiência pode estar justamente em abandonar a obsessão com a aparência humana.
Joanna Bryson, da Hertie School, em Berlim, vai na mesma direção e trata essa preferência como algo estranho. “É realmente muito bizarro, toda essa ideia de que você quer algo humanoide”, afirmou.
Se a tarefa for apenas aspirar o chão, robôs aspiradores programáveis já cumprem essa função há anos. Se a necessidade for pegar e guardar objetos, uma base móvel com um braço robótico pode ser mais útil do que um androide bípede completo, como mostra o Memo, da empresa californiana Sunday, que combina parte superior humana com base sobre rodas.
O custo ajuda a explicar por que o robô humanoide ainda está longe de se popularizar. Os atuadores, componentes que convertem energia elétrica em movimento preciso nas juntas, estão entre os itens mais caros e podem custar entre 500 e 1000 dólares cada.
Modelos mais simples, com menos estruturas complexas que imitam pés ou mãos, tendem a ser mais baratos e mais viáveis. Subramanian Ramamoorthy, da Universidade de Edimburgo, resumiu essa alternativa com uma imagem eloquente: “Pegue um aspirador de pó e imagine se ele tiver um braço. Esse tipo de robô é muito mais provável de entrar em nossas casas”.
Para quem pensa em comprar um desses equipamentos, Aitken recomenda avaliar com frieza o que de fato se espera da máquina. Segundo ele, a utilidade real depende de dois fatores centrais: capacidade física e inteligência do sistema.
No plano físico, a carga útil ainda é uma limitação importante. O NEO consegue carregar cerca de 25 quilos em movimento, algo próximo ao peso de uma mala média, enquanto muitos outros modelos mal conseguem deslocar alguns pratos.
A autonomia da bateria também impõe um teto duro às promessas de marketing. O NEO opera por cerca de quatro horas com uma carga rápida, o que permite tarefas leves, como caminhar devagar entre cômodos e organizar objetos simples, mas qualquer atividade mais exigente drena energia com rapidez.
Aitken descreve esse gargalo de forma bastante concreta. “Assim que começo a pedir para ele buscar e carregar coisas, a duração da bateria cai para 20 ou 30 minutos”, explicou.
Se no corpo as limitações são evidentes, na inteligência está o campo em que os avanços recentes parecem mais promissores. Robôs já podem ser treinados por demonstração, quando um operador humano guia seus braços numa tarefa e o sistema aprende a repeti-la.
A integração com grandes modelos de linguagem, como o GPT, amplia a capacidade de interpretar comandos verbais mais complexos. Uma ordem como “Pegue a xícara de café que está na mesa e traga para mim” já pode ser compreendida e executada por sistemas mais avançados.
Mas entender a frase não é o mesmo que dominar o mundo físico. Identificar uma xícara, calcular a força exata para segurá-la sem quebrá-la, evitar um cabo no caminho e atravessar um tapete irregular continuam sendo desafios de enorme complexidade.
É aí que aparece a barreira do chamado senso comum físico, ainda ausente em grande parte dessas máquinas. Sem essa capacidade, o robô impressiona em demonstrações, mas tropeça justamente na banalidade caótica da vida doméstica.
Além dos limites técnicos, há questões sociais e éticas que não podem ser tratadas como detalhe. Joanna Bryson alerta para o risco de atribuir agência excessiva ou humanidade a dispositivos que, no fim das contas, continuam sendo eletrodomésticos sofisticados.
A convivência com máquinas de aparência humana pode embaralhar fronteiras emocionais e dessensibilizar relações humanas reais. Também pode estimular expectativas afetivas inadequadas em relação a sistemas que apenas simulam compreensão e presença.
A privacidade é outro ponto inevitável nessa discussão. Um robô doméstico equipado com câmeras, microfones e sensores, mapeando continuamente o ambiente e os hábitos dos moradores, cria um potencial de vigilância sem precedentes dentro da casa.
Por isso, a segurança dos dados coletados e processados por esses aparelhos será uma disputa tão decisiva quanto a corrida por desempenho e preço. O problema não é apenas o que o robô faz, mas quem vê, armazena e controla o que ele registra.
O surgimento comercial dos humanoides, portanto, vai muito além de uma curiosidade tecnológica. Ele revela uma nova etapa da corrida industrial global, na qual a China demonstra capacidade notável de prototipagem, fabricação e oferta concreta de produtos.
Enquanto visionários do Vale do Silício anunciam a revolução em tom messiânico, laboratórios e fábricas chinesas parecem entregar os equipamentos tangíveis. O padrão lembra o que já ocorreu em setores como veículos elétricos e painéis solares, nos quais o discurso ocidental perdeu terreno para a execução industrial chinesa.
Para o consumidor, o mordomo robô plenamente funcional ainda está a anos de distância. Os modelos atuais são, em grande medida, provas de conceito caras, mais próximas de vitrines tecnológicas do que de assistentes domésticos realmente autônomos.
Mesmo assim, sua presença no mercado aponta uma direção inequívoca. A automação que transformou fábricas agora avança sobre os lares, e essa nova fronteira será moldada por uma disputa geopolítica em que o Sul Global, liderado pela China, desafia a hegemonia narrativa e produtiva do Ocidente.
O futuro da domótica talvez não seja exatamente humanoide. Mas será, sem dúvida, definido por essa competição.