O bloqueio no Golfo transforma uma guerra regional em sentença política para a velha ordem energética do Ocidente.
A Agência Internacional de Energia, um dos pilares do pensamento energético ocidental, emitiu por meio de seu diretor-executivo, Fatih Birol, um diagnóstico que soa como epitáfio ao afirmar à imprensa internacional que a guerra no Irã provocou o mais grave choque energético de todos os tempos e abriu uma ameaça histórica à segurança global.
A declaração não se limita a um alerta conjuntural sobre o preço do barril, porque revela uma ruptura profunda na geopolítica dos hidrocarbonetos.
Segundo Birol, o volume de gás natural interrompido pelos combates no Golfo Pérsico já é duas vezes maior do que a perda sofrida pela Europa com a guerra na Ucrânia em 2022, enquanto a redução de petróleo supera a registrada nas crises da década de 1970 que empurraram o mundo para recessões.
O centro do colapso é o Estreito de Hormuz, corredor por onde passam 20% do petróleo e do gás consumidos no planeta. Sua paralisação, impulsionada pelas ameaças iranianas contra embarcações, estrangulou fluxos vitais de energia e acendeu um choque que vai muito além dos combustíveis.
A crise atinge também fertilizantes, insumos petroquímicos usados na produção de plásticos e até hélio, todos essenciais para cadeias produtivas globais que já vinham fragilizadas. O que está em curso, portanto, não é apenas uma crise de oferta de petróleo, mas um abalo sistêmico sobre a infraestrutura material da economia mundial.
Birol reconhece que governos e mercados ainda subestimam de forma grosseira a gravidade do cenário. "As pessoas entendem que este é um grande desafio, mas não tenho certeza de que a profundidade e as consequências da situação estão sendo bem compreendidas", afirmou o chefe da agência.
Mesmo que haja cessar-fogo e reabertura do estreito, a recuperação de campos de petróleo e gás danificados exigirá seis meses ou até mais. Até lá, a pressão sobre os preços tende a continuar, e o Brent, referência global, já superou 119 dólares, ampliando a inflação e corroendo o poder de compra das populações.
A reação coordenada das potências ocidentais, até aqui, parece mais um paliativo do que uma resposta à altura do desastre. A agência anunciou a liberação de 400 milhões de barris das reservas estratégicas do grupo das sete maiores economias industrializadas, mas o próprio Birol admitiu que isso representa apenas 20% do estoque disponível.
Também estão em curso conversas com Canadá, México, Brasil e Noruega para elevar a produção. Ainda assim, a compensação oferecida por esses países está longe de cobrir a perda concentrada no Oriente Médio.
Birol insiste que a medida decisiva é restabelecer o trânsito por Hormuz. O problema é que esse é justamente o ponto em que a tensão geopolítica alcança seu grau máximo e onde a capacidade iraniana de perturbar a navegação se converteu em trunfo estratégico de primeira ordem.
O impasse expõe, com rara nitidez, os limites do poder naval dos Estados Unidos e de seus aliados na região. A velha promessa de segurança garantida pela supremacia militar ocidental encontra agora um teste concreto, e o resultado é uma vulnerabilidade que o mercado já começou a precificar.
Há ainda um elemento de contradição política no discurso de Birol. Ao mesmo tempo em que faz um mea-culpa tardio sobre a dependência europeia do gás russo e pede que os políticos não recuem das sanções, ele sustenta que o gás da Rússia faria pouco sentido econômico no quadro atual.
A advertência, porém, perde consistência diante dos fatos recentes. Na semana passada, os próprios Estados Unidos suspenderam sanções a petroleiros russos em alto-mar, numa tentativa de aliviar o mercado e conter parte do choque de oferta.
Também não se sustenta integralmente a narrativa de que Moscou teria perdido sua credibilidade como fornecedora. Enquanto a Europa enfrenta custos crescentes e insegurança, a Rússia consolidou rotas de exportação para China, Índia e outras potências do Sul Global, que seguem comprando petróleo e gás com descontos atraentes.
Isso significa que a chamada insegurança energética tem hoje um recorte bastante claro. Em larga medida, trata-se de um problema do Ocidente, que desmontou antigas fontes de suprimento sem construir uma arquitetura estável capaz de substituí-las em cenário de guerra aberta.
Birol prevê que a atual crise poderá produzir efeitos políticos comparáveis aos das convulsões dos anos 1970. Ele lembra três respostas históricas daquele período: a construção de mais de 40% da capacidade nuclear mundial, a forte redução do consumo de combustível dos automóveis e a reorganização das rotas comerciais entre os países.
O paralelo é útil, mas o mundo de agora é mais fragmentado e mais desigual. A reconfiguração em curso será moldada pela ascensão de uma ordem multipolar, na qual a transição energética não avançará de forma homogênea nem obedecerá automaticamente aos interesses das potências atlânticas.
Haverá impulso para energias renováveis e veículos elétricos, mas os ganhos serão distribuídos conforme a soberania material de cada país. O Brasil, com o pré-sal e uma matriz renovável robusta, e a China, com domínio sobre a cadeia de painéis solares e baterias, aparecem entre os que podem sair fortalecidos desse rearranjo.
A previsão de Birol de um retorno ao carvão como substituto do gás revela o grau de desespero embutido na resposta emergencial. Além de representar um retrocesso ambiental, esse movimento tende a beneficiar produtores como Indonésia e Austrália, deslocando novamente o eixo dos ganhos geoeconômicos.
No caso brasileiro, o esperado renascimento da energia nuclear pode reacender discussões estratégicas que há décadas permanecem adiadas. Angra 3 e a retomada de um programa autônomo de enriquecimento de urânio voltam ao horizonte não como fantasia tecnocrática, mas como tema de soberania.
A guerra no Irã, portanto, não deve ser lida apenas como mais um episódio regional de instabilidade. Ela funciona como acelerador de uma transição de poder que já estava em marcha e agora ganha velocidade sob a pressão combinada da guerra, do bloqueio marítimo e da fragilidade das cadeias globais.
A ordem energética organizada em torno do dólar, do petróleo saudita e da proteção naval norte-americana exibe rachaduras cada vez mais difíceis de esconder. O que se vê em Hormuz é a exposição brutal da dependência extrema de um modelo que prometia estabilidade, mas entregou vulnerabilidade.
Para o Sul Global, a lição é objetiva. Segurança energética depende de diversificação, controle sobre recursos estratégicos e parcerias múltiplas, não de alinhamentos automáticos com um centro de poder em declínio.
O Brasil, por sua posição singular, tem razões para observar o caos no Golfo com atenção e lucidez. Em vez de medo, o momento exige cálculo estratégico para navegar numa nova ordem que nasce de forma dolorosa, entre canhões, bloqueios e o colapso das certezas ocidentais.