Em Betim, Lula ligou o preço dos combustíveis ao desmonte da Petrobras e recolocou a soberania energética no centro do debate.
Em Betim, Luiz Inácio Lula da Silva traçou com clareza a fronteira entre uma empresa pública submetida ao mercado e uma estatal orientada pelo interesse nacional.
Ao anunciar novos investimentos na Refinaria Gabriel Passos em meio à tensão global sobre o preço do petróleo, o presidente transformou a visita em um gesto político de retomada da soberania sobre o setor energético.
Segundo a Folha, Lula atribuiu parte central da dificuldade de controlar os preços dos combustíveis à privatização da BR Distribuidora, realizada no governo anterior.
Sem uma distribuidora estatal, a Petrobras perdeu capacidade de influenciar o preço final pago pelo consumidor. O valor definido na refinaria passa a percorrer uma cadeia de intermediação sobre a qual o poder público tem alcance muito menor.
Lula resumiu esse problema de forma direta durante o evento. “Como não temos mais a distribuidora, a Petrobras determina um preço, esse preço sai no jornal, ganha o distribuidor, e o consumidor fica chupando o dedo”, afirmou, conforme relatado na cobertura.
A empresa privatizada, hoje chamada Vibra Energia, detém cerca de 22% do mercado nacional. Para o governo, sua venda desmontou um instrumento histórico de regulação e enfraqueceu a capacidade do Estado de amortecer choques de preços.
O presidente insistiu que lucro não é incompatível com atividade econômica, mas precisa respeitar limites sociais e éticos. Ao citar o botijão de gás, ele apontou um exemplo concreto de como um bem essencial pode ser capturado por margens abusivas ao longo da cadeia.
“Não é possível a Petrobras entregar um botijão de gás de 13 kg por R$ 37, R$ 38, e chegar a R$ 150 ao consumidor. Que o atravessador ganhe um pouco é normal, mas não é possível roubar tanto”, criticou. A fala expõe, em linguagem popular, a crítica a um modelo em que a renda se concentra nos intermediários enquanto a população arca com o peso final.
A crise atual dos combustíveis, agravada pela tensão geopolítica no Oriente Médio, levou o governo federal a adotar medidas emergenciais. Entre elas está a isenção de PIS/Cofins sobre o diesel, ainda que a eficácia da medida esbarre na resistência de alguns governadores em reduzir o ICMS estadual.
Lula também conectou a alta dos preços ao cenário internacional e à ação das grandes potências. Ao mencionar a “intromissão do presidente Trump no Irã”, apontou um fator de desestabilização que, em sua avaliação, produz prejuízos para o Brasil e para o mundo.
A observação tem peso político porque desloca o debate do terreno estritamente doméstico para a vulnerabilidade estrutural das economias periféricas. Países como o Brasil seguem expostos a decisões unilaterais tomadas fora de suas fronteiras, ainda que paguem a conta em inflação, perda de renda e instabilidade.
Mas o discurso em Betim não se limitou à denúncia do problema. Lula apresentou uma direção estratégica para reconstruir capacidade interna e reduzir a dependência de mecanismos privados que hoje comprimem a ação do Estado.
Nesse contexto, o anúncio de R$ 3,8 bilhões em investimentos na Regap entre 2026 e 2030 ganhou dimensão maior do que a de uma simples expansão industrial. Trata-se de um movimento para reforçar o parque de refino nacional e recolocar a Petrobras no centro da política de abastecimento.
Ainda mais simbólico foi o indicativo de que a Petrobras poderá recomprar a refinaria de Mataripe, na Bahia. Vendida ao fundo Mubadala Capital, dos Emirados Árabes, durante a gestão Bolsonaro, a unidade se tornou um dos emblemas da política de desinvestimento do período anterior.
Lula foi explícito ao tratar do tema. “Eles venderam a refinaria da Bahia, nós vamos comprar a refinaria da Bahia. Pode demorar um pouco, mas vamos comprar”, declarou, transformando a eventual reaquisição em compromisso político de reversão do desmonte.
A mensagem é clara: a perda de autonomia em refino e distribuição não foi um acidente, mas resultado de uma política deliberada. Ao privilegiar importações, venda de ativos e abertura de mercado sem instrumentos compensatórios, o modelo anterior deixou o país mais vulnerável à volatilidade internacional.
Lula lembrou ainda que, nos governos do Partido dos Trabalhadores, a Petrobras se tornou a empresa mais rentável do país. O argumento central é que rentabilidade e função social não se excluem quando a gestão está subordinada ao interesse nacional e não à lógica de liquidação patrimonial.
Por isso, o discurso em Betim teve o peso de uma aula de economia política aplicada ao cotidiano da população. A Petrobras foi reposicionada não como entrave, mas como peça central para segurança energética, controle inflacionário e desenvolvimento.
Essa visão contrasta frontalmente com a do governo anterior. Onde antes se via um ativo a ser fatiado para gerar caixa imediato e abrir espaço ao capital privado, agora se defende uma empresa integrada, estratégica e capaz de coordenar produção, refino e abastecimento.
Analistas ouvidos por outros veículos têm destacado justamente esse ponto. O controle da distribuição é tão decisivo quanto o da produção, porque sem ele a Petrobras perde poder de fogo para estabilizar o mercado e proteger o consumidor dos repasses mais agressivos.
A atual alta do petróleo escancara essa fragilidade. Mesmo quando a estatal tenta moderar reajustes, a estrutura privada de distribuição e revenda pode ampliar os efeitos externos por meio de margens que escapam ao controle público.
Nesse sentido, a posição de Lula não é apenas retórica nem se resume a uma crítica ao passado. Ela desenha um projeto de reestruturação do setor de combustíveis, com reinvestimento em refino, recuperação de ativos estratégicos e recriação de instrumentos de governança.
A longo prazo, a aposta é reduzir a exposição do Brasil a choques internacionais. Ampliar a capacidade de refino significa processar mais petróleo nacional dentro do país, gerar empregos, fortalecer tecnologia e aumentar a segurança energética.
O caso da BR Distribuidora aparece, assim, como exemplo eloquente dos custos de uma privatização mal planejada. Não se vendeu apenas uma empresa, mas um mecanismo de política pública que ajudava a organizar preços e a amortecer distorções de mercado.
A possível recompra da refinaria baiana aponta para uma disposição do governo de corrigir rotas consideradas equivocadas, mesmo que isso imponha custo político e financeiro. É também o reconhecimento de que certos ativos, uma vez alienados, fazem falta justamente quando o país mais precisa de instrumentos de intervenção.
No fundo, o debate é sobre soberania. Para a atual gestão, soberania energética não é palavra de efeito, mas condição concreta para proteger a economia, conter a inflação e garantir que a riqueza nacional sirva ao desenvolvimento do próprio Brasil.
Quando Lula afirma que o Brasil é dono da Petrobras, ele reafirma esse princípio em termos simples e diretos. A ideia é que recursos naturais e empresas estratégicas não podem operar como estruturas apartadas do interesse público.
O caminho anunciado em Minas Gerais é complexo e certamente enfrentará resistência. Setores privados já instalados e o mercado financeiro tendem a ver com desconfiança qualquer retomada mais firme do papel do Estado no comando do setor.
Ainda assim, para o governo, a crise dos combustíveis deixou uma lição incontornável. Sem instrumentos públicos robustos, o país fica mais exposto à especulação, aos choques externos e à incapacidade de proteger a população de aumentos que começam fora do Brasil, mas terminam no bolso do trabalhador.
A visita a Betim, portanto, foi mais do que um anúncio de investimentos. Foi a reafirmação de um projeto em que a principal riqueza energética do país volta a ser tratada como alavanca de soberania, e não como mercadoria disponível para desmonte.