Diante do choque externo, o governo Lula age para impedir que a guerra dite sozinho o preço da economia brasileira.
O preço do diesel no Brasil subiu mais de 20% desde que as bombas começaram a cair sobre o Irã.
O salto, calculado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, transforma em reais um abalo geopolítico que parece distante, mas chega com força ao cotidiano do país.
Os números mostram que a crise internacional de energia já desembarcou nos postos e passou a pressionar transporte, abastecimento e inflação.
O valor médio do diesel, que era de R$ 6,03 no fim de fevereiro, chegou a R$ 7,26 nesta semana. A gasolina comum também subiu 5,9% no mesmo período, segundo o levantamento semanal da agência reguladora.
Trata-se da terceira alta consecutiva nos postos de combustível. O movimento reflete diretamente a turbulência nos mercados internacionais de energia e expõe a vulnerabilidade brasileira a choques externos.
O centro da crise está no Estreito de Hormuz, passagem estratégica do Golfo Pérsico por onde escoa cerca de um quinto de todo o petróleo e gás natural consumidos no mundo. As ameaças de interrupção do tráfego e os ataques a infraestruturas energéticas, desdobramentos diretos do conflito, ampliaram a incerteza sobre o fornecimento global.
Essa tensão apareceu com nitidez no preço do barril de petróleo Brent, referência internacional, que já tocou US$ 119 em duas ocasiões desde o início das hostilidades. Ao noticiar os dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a Folha de S.Paulo resumiu o quadro de forma objetiva ao afirmar que a disparada de preços no país reflete a crise global do setor de energia desencadeada pelo conflito no Oriente Médio.
O Brasil não está fora dessa engrenagem porque importa parte do diesel que consome. Quando o mercado internacional entra em combustão, o impacto chega rapidamente à economia doméstica, sobretudo em um insumo decisivo para o transporte de cargas.
Foi justamente nesse setor que a pressão se tornou mais visível nos últimos dias. A alta abrupta reacendeu o fantasma de 2018 e estimulou um movimento grevista entre caminhoneiros na semana passada, mas o desfecho foi outro.
Em assembleia realizada na quinta-feira, as lideranças da categoria decidiram não paralisar as atividades e manter o diálogo com o governo federal. A decisão evitou um colapso logístico imediato, embora não tenha eliminado a gravidade do problema.
Relatos de desabastecimento pontual de diesel em alguns estados acenderam alerta nas autoridades. A resposta do Palácio do Planalto foi acionar uma série de instrumentos para amortecer internamente os efeitos da tempestade global.
Nesta sexta-feira, o governo Lula divulgou a tabela de preços que orientará o programa de subvenção ao diesel. O subsídio, voltado a produtores e importadores, faz parte de um pacote mais amplo que inclui a zeragem de PIS e Cofins sobre o óleo diesel e a criação de um imposto de exportação de petróleo.
A lógica da estratégia é erguer uma barreira entre a volatilidade internacional e os preços domésticos. Segundo analistas do Goldman Sachs citados pelo InfoMoney, se a Petrobras optar por receber o subsídio governamental, ficará impedida de reajustar os preços do diesel durante a vigência do programa.
O Ministério da Fazenda também avançou em outra frente para ampliar a oferta no mercado interno. A pasta propôs aos estados a isenção do ICMS sobre a importação de diesel até 31 de maio, com a União assumindo 50% do custo fiscal para os entes federativos, conforme apurado pela reportagem.
A operação teria custo estimado de R$ 3 bilhões para a União e outros R$ 3 bilhões para os estados, considerando dois meses de vigência. A proposta enfrenta resistências técnicas das administrações estaduais, responsáveis pela gestão do ICMS, mas as negociações seguem abertas.
Enquanto a discussão tributária prossegue, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis intensificou o monitoramento de estoques e importações para evitar rupturas no abastecimento. A agência também notificou a Petrobras para ofertar imediatamente volumes de combustíveis de leilões futuros que haviam sido cancelados, numa tentativa de reforçar a disponibilidade no presente.
Essa atuação em várias frentes, tributária, regulatória, fiscal e política, revela uma postura ativa do governo Lula diante de um choque externo de grandes proporções. É um contraste evidente com a lógica de exposição quase automática ao mercado internacional que marcou períodos anteriores, especialmente no governo de Jair Bolsonaro.
Naquele momento, a política de paridade internacional de preços da Petrobras transferia com rapidez e intensidade as altas do petróleo global para as bombas brasileiras. Faltava um colchão de proteção social e produtiva capaz de amortecer a pancada sobre caminhoneiros, empresas, agricultores e consumidores.
A crise atual, portanto, testa outro modelo de resposta. Em vez de assistir passivamente à escalada dos preços, o Estado tenta funcionar como amortecedor entre a geopolítica internacional e a economia real do país.
Isso não significa que o problema esteja resolvido ou que os riscos tenham desaparecido. O sucesso da estratégia dependerá da duração do conflito no Oriente Médio e da capacidade de implementar as medidas com velocidade e coordenação.
O risco de desabastecimento, mencionado por entidades do setor ao InfoMoney, continua no radar enquanto as causas externas permanecerem ativas. As associações também criticam o fato de que os subsídios ao diesel A, a versão que sai das refinarias, nem sempre chegam integralmente ao diesel B vendido nos postos.
O desafio, portanto, é delicado e envolve três frentes ao mesmo tempo: conter preços, garantir abastecimento e preservar a saúde fiscal. Ao mobilizar esse arsenal de políticas, o governo Lula sinaliza que não aceitará que uma guerra em outro continente determine sozinha o custo de transportar a produção brasileira.
Num país continental e dependente do modal rodoviário, o diesel não é apenas um combustível. Ele é uma peça central da soberania econômica, do escoamento de grãos, da circulação de insumos e da estabilidade dos preços, e por isso a batalha travada agora deixou de ser apenas energética para se tornar uma disputa decisiva sobre quem protege, de fato, a economia nacional.