Entre o barulho do mercado e os dados concretos, a gestão Haddad deixa crescimento, emprego e uma reconstrução fiscal em marcha.
Fernando Haddad deixa o Ministério da Fazenda após quase 1.200 dias de gestão marcados por crescimento econômico robusto e por uma disputa política permanente para reconstruir as finanças públicas devastadas pelo desmonte bolsonarista.
Os indicadores sociais e de atividade revelam um país em movimento, enquanto os números fiscais expressam o custo de reparar anos de negligência e de enfrentar a resistência dos setores privilegiados a contribuir com a conta.
Levantamento com base em dados oficiais, citado pela Folha, mostra que a economia brasileira avançou a um ritmo de 3% ao ano durante sua passagem pela Fazenda.
Esse desempenho contrasta fortemente com o baixo crescimento e com os períodos de recessão que marcaram o pós-2014. Também se distancia do quadro herdado dos governos Temer e Bolsonaro, quando a economia patinou sob compressão fiscal e perda de dinamismo.
O desemprego caiu ao menor patamar da história recente. Ao mesmo tempo, a inflação foi domada e voltou ao centro da meta estabelecida pelo Banco Central.
Esse controle de preços ocorreu mesmo em um ambiente de juros básicos mantidos em níveis historicamente elevados pelo Comitê de Política Monetária. Trata-se de uma política frequentemente criticada por estrangular o crédito, desestimular o investimento produtivo e impor freios adicionais à atividade.
A Bolsa de Valores acumulou alta de aproximadamente 80% no período, e o dólar se afastou dos picos de estresse, operando abaixo de R$ 5,30 antes da recente escalada geopolítica. O quadro macroeconômico, portanto, tornou-se mais sólido e previsível do que o país recebeu em 2022.
No front fiscal, porém, a trajetória foi a de uma reconstrução sob fogo cerrado. A dívida bruta encerrou 2025 em 78,7% do PIB, acima dos 71,58% registrados no início do governo Lula, mas esse dado não pode ser lido de forma isolada nem fora de contexto histórico.
A elevação da dívida resulta de uma sucessão de déficits primários herdados da gestão Paulo Guedes. Foi um período de fiscalismo de fachada, com corte de investimentos e congelamento de salários de um lado, e abertura de torneiras de gasto sem contrapartida de receita de outro.
Haddad assumiu, assim, um rombo em andamento e a obrigação de reverter o austericídio que sufocava a economia. Seu primeiro grande movimento, em janeiro de 2023, foi lançar um pacote para cortar despesas discricionárias e elevar a arrecadação.
Poucos meses depois, o ministro conseguiu aprovar no Congresso o novo arcabouço fiscal. A medida enterrou a irracionalidade do Teto de Gastos e instituiu regras mais realistas, menos recessivas e mais compatíveis com a necessidade de reconstrução do Estado.
A boa relação com o Legislativo naquele momento também foi decisiva para a aprovação da Reforma Tributária. A mudança, de caráter histórico, simplificará o sistema e buscará onerar mais a renda e o patrimônio do que o consumo.
Esse avanço estrutural foi um dos fatores que levaram a agência de risco S&P a melhorar a nota de crédito do Brasil no fim de 2023. Não se tratou apenas de um gesto simbólico, mas de um reconhecimento externo de que o país havia retomado algum grau de racionalidade institucional e econômica.
O segundo ano de gestão, contudo, expôs com mais nitidez as tensões com o mercado financeiro e com setores do Congresso. A revisão de metas fiscais, considerada necessária diante de um cenário global adverso, foi recebida com pessimismo pelos rentistas, sempre mais sensíveis à preservação de ganhos financeiros do que ao desempenho da economia real.
A aprovação de um pacote para ampliar a isenção do Imposto de Renda para assalariados também gerou volatilidade artificial nos ativos. Uma medida de justiça social passou a ser tratada como ameaça, num reflexo previsível de um sistema acostumado a proteger o topo e a empurrar o custo do ajuste para baixo.
A agenda de corte de benefícios fiscais, essencial para equilibrar as contas públicas, encontrou resistência feroz. Depois de meses de embate, Haddad chegou a um acordo para o fim gradual da desoneração da folha e do Perse, programa criado durante a pandemia.
Ainda assim, o Congresso barrou parte de uma medida provisória que cortava créditos tributários para grandes empresas. Na prática, preservou privilégios corporativos justamente no momento em que o governo tentava recompor receitas sem sacrificar emprego, investimento público e políticas sociais.
Em 2025, com a mudança na mesa diretora do Congresso, as divergências se acirraram. A elevação do Imposto sobre Operações Financeiras sobre operações financeiras, apresentada como forma de tributar a especulação, foi derrubada pelos parlamentares.
Coube ao Supremo Tribunal Federal arbitrar o conflito. O resultado foi uma vitória parcial para o Ministério da Fazenda, suficiente para mostrar que a disputa fiscal já não se dava apenas nos números, mas no terreno mais amplo da correlação de forças entre Executivo, Congresso e interesses econômicos organizados.
O segundo semestre trouxe, ainda assim, uma sequência de vitórias legislativas importantes para a consolidação fiscal. Foram aprovados a Lei do Devedor Contumaz, o projeto de corte de benefícios fiscais, a segunda etapa de regulamentação da reforma tributária e, por fim, a reforma do Imposto de Renda, promessa de campanha do presidente Lula.
Pouco antes de deixar o cargo, Haddad fez uma defesa contundente de sua própria gestão. Afirmou ter reduzido em 70% o déficit primário ao comparar o resultado de 2025 com a projeção catastrófica deixada para 2023 pelo ex-ministro Paulo Guedes.
Esse dado é central e costuma ser sistematicamente ignorado pela narrativa dominante do mercado. Em vez de considerar o ponto de partida e o esforço de correção realizado, prefere-se fixar o debate no nível da dívida, como se ela tivesse surgido no vazio e como se crescimento, emprego e arrecadação não fossem parte da equação.
A saída de Haddad para disputar o governo de São Paulo atende a uma estratégia política mais ampla. Seu legado na Fazenda é duplo: recuperar a capacidade de o Estado investir e estimular o crescimento, e iniciar o processo longo, difícil e politicamente custoso de corrigir distorções tributárias que historicamente beneficiam os mais ricos.
Os números indicam que, sob seu comando, o Brasil voltou a crescer, gerar empregos e controlar a inflação. O desafio fiscal continua enorme, mas agora está apoiado em uma economia real em expansão, e não no ajuste recessivo defendido pelo financismo.
A diferença não é pequena. Pela primeira vez em muitos anos, a conta do ajuste começou a ser cobrada também de quem sempre esteve protegido dela.