Com o diesel em alta e a vulnerabilidade exposta, Lula recoloca a Petrobras no centro da soberania energética.
Os preços dos combustíveis avançaram nos postos pela terceira semana seguida, pressionando o bolso dos caminhoneiros e encarecendo toda a cadeia produtiva.
Segundo levantamento semanal da Agência Nacional do Petróleo, o litro do diesel subiu 6,76% e alcançou a média nacional de R$ 7,26.
A gasolina comum também aumentou, passando de R$ 6,46 para R$ 6,65, em um cenário internacional ainda volátil e sob alerta para o abastecimento.
A guerra no Oriente Médio, com perspectiva de prolongamento, adiciona pressão externa sobre o mercado de energia. Diante desse quadro, a Agência Nacional do Petróleo intensificou o monitoramento dos estoques e notificou a Petrobras para ofertar volumes de combustíveis de leilões futuros que haviam sido cancelados.
Em meio à escalada dos preços, Luiz Inácio Lula da Silva foi direto ao ponto durante evento na Refinaria Gabriel Passos, em Minas Gerais. O presidente defendeu publicamente que a Petrobras mantenha um estoque regulador estratégico de combustíveis para momentos de crise e manifestou decepção pelo fato de a estatal não contar hoje com essa reserva.
Lula também anunciou uma inflexão política de grande alcance ao tratar da reversão do desmonte patrimonial dos últimos anos. “Eles venderam a refinaria da Bahia, nós vamos comprar a refinaria da Bahia”, afirmou o presidente, em referência à Refinaria Landulpho Alves, leiloada no governo anterior.
A declaração está longe de ser apenas retórica. No evento em Betim, a Petrobras anunciou R$ 9 bilhões em investimentos, mas o recado mais profundo foi o de uma mudança de rumo na política petrolífera brasileira.
A fala de Lula recoloca no centro do debate um princípio elementar da geopolítica energética: a segurança de suprimento. Um país continental como o Brasil, com uma frota majoritariamente movida a diesel, não pode permanecer exposto à volatilidade internacional sem um colchão de proteção.
A ausência de estoques reguladores deixa a economia brasileira vulnerável a qualquer turbulência no estreito de Ormuz ou a decisões unilaterais da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados. Trata-se de uma herança pesada de uma gestão que tratou a Petrobras como se fosse apenas uma empresa de comércio, esvaziando sua função estratégica para o desenvolvimento soberano.
A possível recompra da Refinaria Landulpho Alves simboliza, por isso, mais do que uma operação empresarial. Ela representa a tentativa de recompor os rasgos abertos no tecido industrial do país por um processo de desinvestimento que, sob o argumento do desendividamento, enfraqueceu o refino nacional e ampliou a dependência de importações.
Essa dependência tornou o Brasil mais suscetível à paridade de importação, a política conhecida como PPI, frequentemente usada para justificar o repasse quase automático das altas internacionais aos postos. Recuperar capacidade de refino é, nesse sentido, um passo decisivo para reconstruir a autonomia na formação dos preços internos.
O problema do diesel, porém, não é apenas estrutural, mas também imediato. Associações do setor de transporte alertam para riscos de desabastecimento e criticam distorções criadas pelos subsídios, já que o diesel A, beneficiado fiscalmente, nem sempre transfere integralmente esse alívio ao diesel B vendido ao consumidor final.
Há ainda uma tensão regulatória em curso que expõe os limites das soluções improvisadas. Conforme análise do banco Goldman Sachs citada em reportagem do InfoMoney, a Petrobras enfrenta uma encruzilhada: para receber os subsídios do governo, não pode elevar seus preços de venda do diesel.
Se optar pelo aumento de preços, a estatal se torna inelegível para o auxílio. O impasse revela as contradições de tentar administrar com medidas paliativas um problema que nasceu de anos de enfraquecimento da capacidade produtiva e logística nacional.
A saída de longo prazo, como indicou Lula, passa por reinvestimento, planejamento e reaparelhamento da Petrobras. O estoque regulador não é detalhe técnico, mas instrumento clássico de política pública para suavizar choques, proteger a produção e defender o consumo diante de crises externas.
Sem esse mecanismo, o país fica mais exposto a especuladores e a eventos geopolíticos distantes que rapidamente se traduzem em pressão sobre o mercado interno. Reconstruí-lo exige recursos e persistência, mas é parte incontornável de qualquer projeto sério de soberania energética.
Os R$ 9 bilhões anunciados em Betim são um começo relevante, embora insuficiente para reparar sozinho o que foi desmontado. Recuperar ativos, recompor a capacidade de refino e restabelecer instrumentos de proteção exigirá continuidade política e a convicção de que certas empresas não podem ser administradas apenas pela lógica curta do balanço trimestral.
O movimento do governo Lula, portanto, vai muito além de responder a uma alta semanal nos combustíveis. Ele sinaliza a retomada de uma visão segundo a qual o petróleo é um recurso soberano e sua exploração, seu refino e sua distribuição devem servir прежде de tudo ao interesse nacional.
É uma resposta à era do pré-sal sem refino, dos lucros elevados ancorados na importação de combustíveis e da venda de patrimônio público a preço rebaixado. O diesel a R$ 7,26 é a face mais visível do custo social e econômico desse modelo.
Recomprar uma refinaria e reconstruir estoques reguladores são medidas concretas de quem pretende reescrever essa trajetória. O caminho é difícil, mas a direção agora aponta para a reconstrução de uma Petrobras voltada ao Brasil.


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