Com preços ainda fortes e lavouras melhores, o café brasileiro resiste, mas a Selic em dois dígitos e a tensão no Oriente Médio apertam o setor.
O café brasileiro entra em 2026 com preços mais baixos do que os do ano passado, embora ainda em patamar historicamente remunerador, sob a pressão simultânea da guerra no Oriente Médio e de uma taxa de juros que o setor considera sufocante.
Esse foi o centro das preocupações levadas por cafeicultores de Minas Gerais e São Paulo à 25ª Femagri, feira de máquinas agrícolas promovida pela Cooxupé em Guaxupé, no sul mineiro.
Hoje, a saca oscila entre R$ 1.500 e R$ 1.950, abaixo dos mais de R$ 2.500 em valores atualizados registrados no ano passado, segundo dados apresentados na própria feira.
O pico anterior, porém, fortaleceu o caixa no campo e abriu espaço para investimentos. Também ajudou a impulsionar um faturamento recorde da maior cooperativa do país.
Agora, o ambiente exige prudência redobrada diante de fatores que escapam ao controle do produtor. O recuo das cotações, embora longe de configurar colapso, coincide com um cenário externo mais instável e com crédito ainda muito caro.
Durante coletiva na Femagri, o presidente da Cooxupé, Carlos Augusto Rodrigues de Melo, resumiu os dois principais focos de tensão. De um lado, os efeitos logísticos e comerciais da guerra no Oriente Médio; de outro, o peso da taxa básica de juros sobre uma atividade de ciclo longo e forte necessidade de financiamento.
Ao comentar o conflito, Melo afirmou que haverá consequências, mas ponderou que o consumo não deve cair. “Tem sim alguma consequência, mas nós acreditamos que ninguém vai ficar sem tomar café, pelo contrário, vai aumentar”, disse, em declaração reproduzida pela Folha.
A avaliação sugere que a demanda global pelo produto tende a se manter firme, mesmo com turbulências geopolíticas. Ainda assim, a permanência do consumo não elimina os impactos sobre frete, rotas marítimas, custos e previsibilidade dos negócios.
Na frente doméstica, a crítica aos juros é direta e praticamente consensual entre os produtores. Osvaldo Bachião Filho, vice-presidente da Cooxupé e cafeicultor em Nova Resende, foi taxativo ao descrever o efeito do custo do dinheiro sobre a atividade.
“Juros de dois dígitos é igual a quebradeira em qualquer atividade econômica do mundo”, afirmou Bachião Filho. A frase sintetiza a percepção de um setor que exporta, investe e gera divisas, mas se vê comprimido por uma política monetária restritiva.
A ironia do momento é que o primeiro corte de 0,25 ponto percentual promovido pelo Comitê de Política Monetária, para 14,75% ao ano, ocorreu justamente durante a realização da feira, já sob o comando de Gabriel Galípolo no Banco Central. Para o setor, porém, o movimento foi tímido demais para alterar de forma relevante a realidade do crédito rural, dos financiamentos e do capital de giro.
A guerra envolvendo o Irã acrescenta uma camada concreta de vulnerabilidade à cadeia do café. Carlos Augusto Rodrigues de Melo destacou a dependência brasileira de nitratos iranianos usados na produção de fertilizantes, insumo decisivo para o desempenho das lavouras.
Além do problema dos insumos, o conflito complica a logística de exportação para mercados que ganharam importância nos últimos anos, como a Ásia e o próprio Oriente Médio. Com o avanço da presença brasileira nessas regiões, cresce também a exposição do setor a choques nas rotas marítimas e a sobressaltos geopolíticos.
Os números já começam a registrar esse ambiente mais difícil. A Cooxupé estima embarcar 4,4 milhões de sacas em 2026, cerca de 400 mil a menos do que em 2025.
No plano nacional, os dados do Cecafé mostram queda de 27,3% no volume exportado nos dois primeiros meses de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. Parte dessa retração decorre da safra menor esperada para o ano, mas as incertezas externas também reduzem o ritmo de comercialização.
Se a geopolítica e os juros pesam, o clima aparece como o principal fator de alívio para o produtor. Bachião Filho descreveu as condições climáticas como as melhores dos últimos anos, com chuvas bem distribuídas e temperaturas favoráveis ao desenvolvimento das lavouras.
“Percebemos que as lavouras estão melhores e há uma safra maior no pé”, afirmou o vice-presidente da cooperativa. Em um setor tão sensível ao tempo, essa melhora funciona como contrapeso parcial às pressões econômicas e ajuda a sustentar algum otimismo.
Esse quadro ajuda a explicar o ambiente da Femagri, que recebeu mais de 45 mil visitantes, em sua maioria agricultores familiares. Durante os três dias de evento, foram realizados mais de dez mil orçamentos para máquinas e insumos, sinal de que o investimento em eficiência continua no radar mesmo com o custo do crédito em nível proibitivo.
A disposição para investir não surgiu do nada. Ela se apoia nos resultados recentes de um ciclo excepcional, que deu fôlego financeiro a parte relevante da cadeia produtiva.
A Cooxupé anunciou faturamento recorde de R$ 10,7 bilhões em 2024, alta nominal de 67% sobre o ano anterior. A distribuição de sobras aos cooperados também bateu recorde, alcançando R$ 134,4 milhões.
Esse colchão construído nos anos de preços mais altos agora ajuda o setor a atravessar uma fase menos exuberante. Não elimina os riscos, mas oferece alguma proteção num momento em que o produtor precisa administrar queda nas cotações, incerteza externa e financiamento caro ao mesmo tempo.
O quadro geral expõe duas fragilidades estratégicas do país. A primeira é a dependência de fertilizantes ligados ao Irã, que revela uma vulnerabilidade importante em uma cadeia central para a economia brasileira.
A segunda é a persistência de juros reais elevados, que penalizam justamente um dos segmentos mais eficientes e exportadores do país. Quando a Selic permanece em dois dígitos, o custo Brasil deixa de ser abstração e vira pressão direta sobre a produção, a renda e a capacidade de investimento no campo.
O café, símbolo histórico da economia nacional, segue avançando em um mundo mais fragmentado e imprevisível. Em cada saca exportada, pesam não apenas os grãos, mas também a geopolítica, os gargalos logísticos e as decisões de política econômica tomadas em Brasília.
Para os produtores ouvidos na feira, a estratégia é clara: aproveitar as cotações ainda boas para evitar endividamento excessivo e preservar margem. Ao mesmo tempo, o setor aposta no clima favorável e espera que a política monetária finalmente se aproxime das necessidades da economia produtiva.
A trajetória do café brasileiro em 2026, portanto, será menos uma história de euforia e mais uma prova de resistência. Resistência à instabilidade global, ao aperto financeiro e às incertezas que cercam as commodities.
Mas também será uma história de adaptação, modernização e confiança no trabalho cotidiano de quem produz. Foi isso que os milhares de agricultores presentes em Guaxupé demonstraram ao buscar tecnologia, planejamento e alternativas para seguir competitivos em um mercado global cada vez mais volátil.
Nos próximos meses, a rentabilidade do setor dependerá do comportamento desses fatores em conjunto. Até lá, o produtor brasileiro continuará fazendo o que sempre fez: olhando para a lavoura com atenção redobrada e acompanhando, ao mesmo tempo, os sinais da economia e as notícias que chegam do outro lado do mundo.


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