Vendida como prudência, a cruzada fiscal encobre uma engrenagem de juros altos que drena o país e sabota o desenvolvimento.
A taxa de juros real brasileira, entre as mais altas do mundo, opera ao mesmo tempo como ímã para capitais voláteis e como freio brutal sobre a economia produtiva.
Especialistas do mercado financeiro ouvidos pelo Broadcast, sistema de notícias do Grupo Estado, afirmam que esse quadro se tornou insustentável no longo prazo.
Segundo esses agentes, sem um ajuste fiscal considerado crível, a dívida pública pode alcançar 100% do produto interno bruto dentro de uma década.
Luciano Rostagno, estrategista-chefe da EPS Investimentos, sustenta que um afrouxamento monetário consistente exige sintonia fina com a política fiscal. Sem isso, diz ele, as projeções já apontam para uma dívida equivalente a 100% do produto interno bruto em dez anos, patamar que classifica como insustentável para uma economia emergente.
Marco Antonio Caruso, economista do Santander, afirma que a política fiscal é vista como a única variável efetivamente controlável para influenciar os juros reais. Na avaliação dele, há pouca capacidade de controle sobre o crescimento, a inflação e até mesmo sobre o juro nominal definido pelo Banco Central.
A tese de que o país convive com um juro real estruturalmente elevado e perigoso ganhou força a partir de 2022, segundo a leitura desses analistas. Caruso afirma que o juro real de longo prazo está cerca de 200 pontos-base acima da média histórica dos últimos 15 anos.
Felipe Sichel, economista-chefe da Porto Asset, observa que a rigidez dos gastos públicos e a volatilidade da arrecadação alimentam uma percepção negativa sobre a dívida. Como consequência, afirma, os agentes econômicos passam a exigir um prêmio de risco maior.
Esse discurso quase uníssono produz uma sensação de urgência inevitável, como se a única saída possível fosse um corte profundo de gastos públicos. O problema é que essa narrativa deixa de lado o contexto histórico da escalada dos juros e apaga os custos sociais da receita proposta.
Também fica fora de foco o fato de que a disparada dos juros reais está ligada à guinada monetária radical iniciada no governo anterior, quando se abandonou uma taxa Selic de 2% ao ano para levá-la a 15%. O próprio Rostagno reconhece que a dinâmica da dívida piorou de forma significativa no pós-pandemia justamente por causa desse movimento.
Os juros altos, portanto, não surgem como fatalidade da natureza econômica, mas como resultado de escolhas de política monetária com efeitos profundos. Ao mesmo tempo em que atraem o chamado fast money, comprimem o crédito para investimento produtivo e elevam o custo do serviço da dívida pública.
Gean Lima, gestor da Connex Capital, reconhece que o Brasil atrai capital estrangeiro por combinar juros elevados com expectativa de crescimento. Mas esse fluxo especulativo é volátil por definição e pode deixar o país ao primeiro sinal de instabilidade.
Rostagno resume essa contradição ao afirmar que o juro alto busca evitar fuga de capitais, mas atrai apenas capital especulativo e reduz o capital produtivo. A experiência de dezembro de 2024, lembrada por Sichel, expôs essa fragilidade de forma eloquente.
Naquele momento, o real sofreu forte desvalorização mesmo sob juros elevados, porque o mercado considerou insuficientes as medidas de contenção de gastos apresentadas pelo governo Lula. O episódio mostrou que a pressão nunca cessa e que as exigências do mercado se deslocam continuamente, mesmo quando o país já paga um preço altíssimo.
É aí que a discussão deixa de ser apenas técnica e revela seu conteúdo político. A âncora dos juros altos transfere renda em escala monumental para o setor financeiro por meio dos títulos da dívida pública, ao mesmo tempo em que serve de justificativa para conter investimentos sociais e obras de infraestrutura.
A cobrança por um ajuste fiscal crível funciona, na prática, como eufemismo para mais austeridade. E austeridade, no Brasil real, significa quase sempre compressão do gasto público que atinge os mais vulneráveis, enquanto se preserva a remuneração generosa do capital financeiro.
Caruso, do Santander, tenta relativizar o quadro brasileiro ao lembrar que a deterioração fiscal se espalhou pelo mundo no pós-pandemia. Segundo ele, como outros países também pioraram, a situação brasileira talvez não seja tão ruim.
Mas esse tipo de relativização corre o risco de normalizar o que deveria ser tratado como anomalia. Aceitar juros reais em patamar tão elevado como se fossem destino inevitável significa bloquear a retomada do desenvolvimento e manter o país preso a uma posição subordinada na economia global.
O debate central, portanto, não deveria girar em torno de quão rapidamente o Estado deve se curvar às exigências de um mercado que prospera justamente em ambientes de crise e escassez. A questão decisiva é como recuperar margem de comando sobre a política monetária e recolocar o orçamento público a serviço do crescimento, do investimento e da redução das desigualdades.
A armadilha foi montada ao longo dos últimos anos e seus mecanismos estão à vista. O desafio do governo é encontrar força política e capacidade técnica para desmontá-la sem aceitar como inevitável uma lógica que premia a financeirização e pune a economia real.
No fundo, a urgência fiscal vendida como verdade neutra esconde uma escolha de país. De um lado está o modelo que subordina tudo à confiança do mercado e à remuneração dos rentistas, de outro está a possibilidade de reconstruir uma estratégia de desenvolvimento que devolva prioridade ao trabalho, à produção e à soberania econômica.


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