Netanyahu incita guerra aberta contra o Irã e apoia ataques dos EUA

Ao defender ataques coordenados contra o Irã, Netanyahu transforma a escalada militar em programa político e empurra o mundo para uma crise de alcance global.

Benjamin Netanyahu fez um chamado explícito por uma guerra aberta contra o Irã ao declarar apoio público a ataques dos Estados Unidos contra a infraestrutura energética iraniana.

A fala, reportada pela Al Jazeera durante visita a um local atingido por ataque iraniano em Arad, marca uma escalada grave no conflito regional.

Mais do que reagir a um episódio militar, o premiê israelense sinalizou disposição para ampliar a guerra, internacionalizar sua condução e normalizar ataques a alvos civis estratégicos.

A justificativa apresentada por Netanyahu foi a ameaça de fechamento do Estreito de Hormuz pelo Irã. Trata-se de uma das rotas marítimas mais sensíveis do planeta, vital para o fluxo global de petróleo e, portanto, para a estabilidade econômica internacional.

Mas o conteúdo político da declaração vai além de uma resposta defensiva imediata. Ao falar em ação conjunta com os Estados Unidos e, na medida do possível, em segredo, Netanyahu indicou coordenação prévia e intenção de aprofundar uma campanha militar já em curso.

Ele também não falou apenas em nome de Israel. Fez um apelo para que outros líderes se somem ao esforço de guerra, numa tentativa clara de ampliar a legitimidade externa de um confronto que até aqui tem sido conduzido sobretudo por Washington e Tel Aviv.

Os números já associados a essa ofensiva são devastadores. Segundo o rascunho, ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã já deixaram mais de 1.500 mortos e milhares de feridos.

Essas vítimas raramente ocupam o centro da cobertura da grande mídia ocidental. Isso ajuda a sustentar a ficção de que se trata apenas de operações precisas, quando o saldo humano aponta para uma guerra destrutiva e profundamente assimétrica.

A menção a ataques contra a infraestrutura energética do Irã torna a situação ainda mais alarmante. Não se trata apenas de atingir instalações militares, mas de ameaçar sistemas dos quais depende a vida cotidiana de milhões de pessoas.

Quando uma rede elétrica é bombardeada, o impacto se espalha muito além do alvo inicial. Hospitais perdem capacidade de atendimento, sistemas de água entram em colapso, cadeias de refrigeração são interrompidas e comunicações ficam comprometidas.

Na prática, isso significa impor sofrimento em massa à população civil como instrumento de pressão política. É uma lógica de cerco moderno, em que a destruição da vida social vira método para forçar rendição nacional.

O pano de fundo dessa escalada é a resistência iraniana à hegemonia ocidental no Oriente Médio. O Irã se consolidou como eixo central do chamado Eixo da Resistência, que reúne forças e grupos no Líbano, na Síria, no Iraque e no Iêmen.

Esse arranjo desafia a ordem unilateral sustentada pelos Estados Unidos e seus aliados. Por isso, a soberania iraniana e sua capacidade de desenvolvimento tecnológico, inclusive no campo nuclear para fins pacíficos, aparecem no centro da disputa estratégica.

A postura de Netanyahu se encaixa numa estratégia de longa duração. Israel, como principal aliado militar dos Estados Unidos na região, tem interesse direto em enfraquecer qualquer potência regional capaz de limitar sua superioridade.

Há também um dado político importante na forma como a mensagem foi transmitida. A confiança para defender publicamente esse tipo de ataque sugere percepção de impunidade e expectativa de respaldo do aparelho de segurança nacional dos Estados Unidos.

Independentemente de quem esteja na Casa Branca, a linha estrutural da política externa de Washington em relação ao Irã permanece dura. Netanyahu sabe disso e age com base nessa continuidade, sustentada pelo peso do complexo industrial-militar e por décadas de alinhamento estratégico.

Para o Sul Global, a escalada não é um problema distante. Um conflito aberto no Golfo Pérsico teria efeitos imediatos sobre preços de energia, cadeias de abastecimento e custo dos alimentos, com impacto direto sobre economias dependentes de estabilidade externa.

O Brasil tem razões concretas para tratar o tema como prioridade diplomática. Como país que historicamente defende a solução pacífica de controvérsias, o multilateralismo e o respeito à soberania, não pode assistir em silêncio à normalização de uma guerra de grandes proporções.

A posição brasileira, expressa na tradição do Itamaraty e reforçada pelo governo Lula, tem sido a de buscar mediação e rejeitar aventuras militares. Diante desse novo salto retórico, essa linha precisa ganhar ainda mais clareza e articulação internacional.

Isso significa trabalhar com parceiros dos BRICS e do G20 em favor de uma frente pela paz. Também significa recolocar na mesa a retomada das negociações sobre o acordo nuclear, que continua sendo a única via realista para reduzir tensões e evitar uma espiral incontrolável.

O que está em jogo não é apenas o equilíbrio regional no Oriente Médio. Está em disputa o princípio elementar de que nenhuma potência pode impor seu projeto político a outra nação por meio de bombas, sabotagem de infraestrutura e ultimatos públicos.

A ameaça de atacar a rede elétrica de um país é reveladora justamente por sua franqueza. Ela expõe que o objetivo não é apenas militar, mas social e político: quebrar a resistência de uma população inteira pelo sofrimento.

Nesse cenário, a passividade europeia diante da agenda de Washington aprofunda o desequilíbrio internacional. Quanto mais o eixo atlântico se mostra incapaz de conter a escalada, mais recai sobre o Sul Global a responsabilidade de construir um polo diplomático autônomo.

A multipolaridade, nesse contexto, deixa de ser apenas um conceito econômico ou institucional. Ela passa a ser uma necessidade concreta de sobrevivência política para um sistema internacional ameaçado por guerras preventivas, punições coletivas e erosão do direito internacional.

A declaração de Netanyahu, portanto, não deve ser tratada como um excesso verbal isolado. Ela é parte de uma doutrina de guerra permanente que, nas últimas décadas, atravessou o Iraque, a Líbia, a Síria e o Iêmen, sempre sob o argumento de segurança e sempre com saldo humano devastador.

A diferença agora é o grau de franqueza com que a lógica é exposta. Já não se faz grande esforço para revestir a escalada com narrativas sofisticadas para a opinião pública ocidental; a ameaça aparece de forma crua, como se a reação internacional já fosse considerada improvável ou irrelevante.

Esse cálculo precisa ser desmentido pela ação diplomática. O silêncio diante da defesa aberta de ataques contra infraestrutura civil seria mais do que omissão: seria cumplicidade com uma escalada que pode incendiar toda a região.

O povo iraniano, assim como o povo israelense e o povo palestino, não precisa de mais uma geração condenada à guerra. Precisa de segurança real, e segurança real não nasce de bombardeios sucessivos, mas de negociação, garantias recíprocas e respeito à soberania.

O Brasil tem um papel histórico a cumprir nesse momento. Se falar com firmeza, ao lado de outras nações soberanas, poderá ajudar a empurrar a crise de volta ao terreno da diplomacia antes que a retórica de guerra se transforme em catástrofe irreversível.

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