Quando um bairro leva 21 anos para sair do papel, o problema não é o mercado: é o país.
A reportagem da Folha sobre a Benx Incorporadora expõe, ao mesmo tempo, o custo da insegurança jurídica no Brasil e a fuga de parte do empresariado para um mercado blin dado pela riqueza extrema.
O caso do Parque Global, citado pelo CEO Luciano Amaral, resume esse impasse com brutal clareza: o empreendimento levou 21 anos para sair do papel, sobretudo por imbróglios judiciais.
Quando um projeto urbano dessa escala demora mais de duas décadas para avançar, o recado ao investimento produtivo é devastador.
Esse dado não é lateral na reportagem, mas seu núcleo mais importante. Ele ajuda a explicar por que projetos complexos, capazes de reorganizar áreas inteiras da cidade e elevar a qualidade de vida urbana, se tornam exceções quase heroicas no Brasil.
A insegurança jurídica corrói o horizonte de longo prazo. Ela encarece, atrasa, desestimula e, em muitos casos, simplesmente inviabiliza empreendimentos que exigem previsibilidade institucional.
Ao mesmo tempo, a Benx anuncia apartamentos de até R$ 180 milhões no Itaim Bibi. A mudança de foco revela uma estratégia defensiva: diante de juros voláteis, concorrência intensa no Minha Casa Minha Vida e entraves estruturais, a empresa procura um público praticamente imune às turbulências do país.
A fala mais reveladora de Amaral talvez seja a que trata da mão de obra. “O filho do pedreiro não quer mais ser pedreiro”, afirmou o executivo, ao explicar a decisão de enviar uma comitiva à China em busca de tecnologias capazes de substituir trabalhadores.
A frase diz mais do que parece à primeira vista. Ela embute uma visão segundo a qual o problema central não estaria na baixa atratividade da profissão, nos salários, nas condições de trabalho ou na precarização histórica da construção civil, mas no fato de que os filhos dos trabalhadores passaram a desejar outro destino.
Nessa lógica, a resposta não é revalorizar o ofício, melhorar a remuneração, ampliar a qualificação técnica ou modernizar a carreira de forma inclusiva. A resposta é importar tecnologia para reduzir a dependência do trabalho nacional, o que também revela a incapacidade de desenvolver aqui soluções produtivas em escala.
Essa mentalidade ajuda a entender a guinada para o altíssimo luxo. Trata-se de um segmento em que custos extraordinários podem ser repassados com mais facilidade, inclusive os custos invisíveis de um ambiente hostil ao investimento, como longas disputas judiciais, estruturas jurídicas caríssimas e prazos incompatíveis com qualquer planejamento racional.
O comprador de um imóvel de R$ 180 milhões vive em outra camada de proteção econômica. Ele não sente, da mesma forma, a instabilidade que trava o restante do país, e por isso se torna o cliente ideal para empresas que preferem operar em zonas de blindagem social.
É justamente aí que a reportagem ganha um significado mais amplo. A falta de mão de obra e a aposta no luxo não são fenômenos separados, mas sintomas conectados de um mesmo ambiente de negócios que desorganiza a produção, desestimula a formação profissional e empurra o capital para nichos de baixíssimo risco comercial.
A referência à insegurança jurídica, tema também abordado em artigo da Gazeta do Amapá, reforça esse diagnóstico. Sem estabilidade regulatória e sem previsibilidade institucional, projetos capazes de gerar empregos massivos e qualificados perdem tração, e a economia vai se especializando em extremos: de um lado, programas habitacionais pressionados por custos e concorrência; de outro, enclaves de riqueza absoluta.
Forma-se, assim, um círculo vicioso. Sem grandes projetos estáveis, não se consolida uma base robusta de trabalhadores especializados; sem essa base, cresce o apelo da automação importada; e, sem um ambiente favorável ao investimento produtivo amplo, o mercado passa a premiar apenas operações voltadas aos muito ricos.
O resultado é uma espécie de economia segmentada por muros. De um lado, o boom do Minha Casa Minha Vida, que segue importante, mas opera sob forte pressão de custos, margens e escala; de outro, ilhas de luxo extremo, como as citadas em Miami ou no “paraíso” brasileiro que atraiu Cristiano Ronaldo.
A própria Benx aposta em uma marca nativa de luxo, a Arbórea. Esse ponto merece atenção porque mostra que ainda existe espaço para empreendedorismo brasileiro no topo da pirâmide, mesmo em um mercado frequentemente dominado por brand residences internacionais.
Mas esse dado positivo não resolve a questão central. O problema é que o país parece funcionar melhor para produtos imobiliários destinados a uma minoria ultrarrica do que para projetos urbanos transformadores, integrados e capazes de produzir efeitos mais amplos sobre emprego, mobilidade, infraestrutura e qualidade de vida.
O modelo de bairro planejado, como o Parque Global, deveria ser parte normal de uma estratégia de desenvolvimento urbano. Em vez disso, aparece como uma exceção exaustiva, que levou 21 anos para vencer barreiras que um país minimamente funcional deveria saber administrar com muito mais rapidez e segurança.
A judicialização crônica pesa nesse processo como um freio estrutural. Ela não apenas atrasa obras, mas reorganiza incentivos econômicos, favorecendo quem consegue suportar litígios longos e caros e punindo justamente os investimentos que mais dependem de escala, continuidade e previsibilidade.
Quando Curitiba debate, em seu aniversário, os desafios dos condomínios diante do crescimento urbano, a lição é evidente. Sem marco regulatório estável, sem regras claras e sem segurança jurídica, o investimento produtivo encolhe, se retrai ou migra para segmentos onde a margem é tão alta que compensa o caos.
É por isso que a fala do CEO da Benx soa menos como plano de expansão e mais como diagnóstico de rendição. Diante da complexidade brasileira, a saída encontrada é construir um bunker de luxo, automatizado e protegido, enquanto o restante do país continua continua atolado em bairros com serviços e infraestrutura de mobilidade urbana, esgoto, eletricidade, banda larga, extremamente precários, distante de postos de saúde, hospitais, escolas e centros lazer,
Só que essa escolha tem custo coletivo. O preço recai sobre quem não pode se isolar em apartamentos de R$ 180 milhões, sobre o filho do pedreiro que não vê futuro em uma profissão desvalorizada e sobre uma nação inteira que assiste a seus melhores projetos urbanos apodrecerem antes mesmo de nascer.