Reeleição de Kim Jong-un fortalece dinastia e o novo eixo de poder na Ásia

A recondução de Kim Jong-un expõe uma mudança maior: Pyongyang deixou de ser apenas um problema regional e virou peça útil na disputa entre grandes potências.

A recondução de Kim Jong-un ao cargo de Presidente dos Assuntos de Estado, anunciada pela agência estatal KCNA em 22 de março, diz menos sobre surpresa política interna e muito mais sobre a nova geometria de poder na Ásia.

A Assembleia Popular Suprema confirmou Kim para mais um mandato e manteve intacta a engrenagem institucional que sustenta o comando da dinastia no país.

Na fórmula oficial da KCNA, a escolha expressou a “vontade e o desejo unânime de todo o povo coreano”, repetindo a linguagem ritual que acompanha há décadas a continuidade do regime.

Kim governa a Coreia do Norte desde 2011, quando sucedeu seu pai, Kim Jong-il. Antes dele, o avô Kim Il-sung fundou a República Popular Democrática da Coreia em 1948.

Tomada isoladamente, a notícia parece apenas mais um episódio previsível de um sistema político fechado. O erro começa justamente aí, porque o peso real do anúncio aparece quando se observa o ambiente estratégico ao redor de Pyongyang.

A Coreia do Norte já não pode ser lida apenas como um Estado isolado à margem da ordem internacional. Seu alinhamento com Rússia e China lhe deu uma função concreta no rearranjo de forças do nordeste asiático.

A guerra na Ucrânia acelerou essa transformação de maneira decisiva. Sob forte pressão de sanções ocidentais, Moscou buscou em Pyongyang um parceiro militar capaz de fornecer apoio material em escala.

Nesse contexto, a Coreia do Norte passou a ser tratada como fonte relevante de munições e mísseis para o esforço russo. Em troca, recebe assistência tecnológica e possivelmente know-how para seu programa nuclear, numa relação que amplia a utilidade recíproca entre os dois países.

Esse vínculo entre Moscou e Pyongyang não existe no vazio. Ele é observado e, em larga medida, facilitado por Pequim, que enxerga nessa aproximação uma forma de ampliar a pressão sobre os Estados Unidos em sua própria periferia estratégica.

A lógica é clara e dura. Quanto mais frentes de tensão Washington precisar administrar ao mesmo tempo, da Ucrânia ao Oriente Médio e ao leste asiático, maior será o custo político e militar de sustentar sua presença global.

É nesse ponto que a continuidade de Kim ganha valor para além da propaganda doméstica. Para Rússia e China, a permanência de um interlocutor estável em Pyongyang reduz incertezas e favorece planos de cooperação de longo prazo.

Moscou precisa de previsibilidade para manter um fluxo constante de suprimentos em meio à guerra. Pequim, por sua vez, se beneficia de um contrapeso regional que mantenha Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão sob pressão permanente.

A recondução de Kim, portanto, não é apenas um gesto interno de continuidade. Ela funciona como um sinal externo de estabilidade para um arranjo geopolítico que ainda é informal, mas já produz efeitos concretos.

Do lado ocidental, porém, a leitura dominante continua presa a um roteiro antigo. Grande parte da mídia hegemônica trata o episódio como mais um capítulo do “regime excêntrico e isolado”, como se nada de estrutural estivesse mudando.

Essa abordagem é insuficiente e, em certa medida, perigosa. Ela subestima o grau de integração estratégica que Pyongyang alcançou com duas potências centrais da política internacional, ambas com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O isolamento norte-coreano, hoje, é seletivo. Ele persiste em relação ao Ocidente, mas não em relação ao bloco de países que busca contestar a hegemonia unipolar e construir margens próprias de manobra.

Também não se pode ignorar o dado militar. A Coreia do Norte possui armas nucleares e mísseis balísticos de longo alcance, e seu programa avançou nos últimos anos com uma sequência frequente de testes.

Essas capacidades deixam de ser apenas um instrumento de sobrevivência nacional quando passam a se articular com interesses mais amplos. Nesse novo quadro, o arsenal norte-coreano também opera como peça de uma dissuasão mais abrangente, conectada a parceiros que compartilham rivalidades com Washington.

Para o Sul Global, a situação oferece uma lição desconfortável, mas real. O mundo está cada vez menos organizado por categorias morais fixas e cada vez mais por alianças pragmáticas, interesses de segurança e disputas por espaço estratégico.

A trajetória recente de Pyongyang mostra isso com nitidez. Um país tratado por décadas como pária conseguiu converter resistência, capacidade militar e persistência diplomática em valor geopolítico para atores muito maiores.

Isso não significa endosso ao regime norte-coreano. Significa reconhecer que, na política internacional, isolamento e centralidade podem coexistir, desde que um Estado detenha ativos estratégicos que outros considerem úteis.

A continuidade de Kim também tem função interna evidente. Ela reforça a ideologia de autossuficiência, o Juche, num momento em que o regime pode apresentar suas novas conexões externas como prova de que a linha dura produziu resultados.

Para a elite militar e para o partido, a mensagem é poderosa. A aposta em desenvolvimento nuclear, enfrentamento ao cerco ocidental e manutenção de uma política externa agressiva não levou ao colapso, mas à abertura de novas parcerias.

Esse capital político interno tende a fortalecer ainda mais a posição de Kim. Quando um regime consegue transformar pressão externa em narrativa de vitória, ele consolida sua autoridade e reduz o espaço para fissuras domésticas.

O próximo passo pode ser ainda mais sensível para a segurança regional. Há especulações sobre a possibilidade de um reconhecimento mais formal da cooperação com Moscou ou mesmo sobre um tratado de segurança e defesa mútua.

Se isso avançar, o cálculo estratégico na península coreana mudará de patamar. As forças dos Estados Unidos estacionadas na Coreia do Sul passariam a encarar um adversário diretamente apoiado por uma potência nuclear de primeira linha.

Por isso, a recondução de Kim deve ser lida como algo maior que um ritual previsível. Ela consolida um ponto de apoio importante na rede multipolar em formação e confirma que o leste asiático seguirá como uma frente ativa de pressão contra a ordem liderada pelos Estados Unidos.

Para o Brasil, a lição é de método e não de alinhamento automático. Entender o que acontece em Pyongyang é parte de compreender um sistema internacional em reconfiguração, no qual velhas categorias explicam cada vez menos.

A tradição diplomática brasileira de diálogo com diferentes polos pode ser um ativo valioso nesse cenário. Mas isso exige leitura fria, atenção aos fatos e capacidade de enxergar além das caricaturas que ainda dominam boa parte do debate público.

A informação original foi divulgada pela KCNA e reproduzida por veículos internacionais, entre eles o South China Morning Post. Seu alcance, no entanto, vai muito além do anúncio formal em Pyongyang, porque revela uma mudança de posição da Coreia do Norte no tabuleiro global.

O ponto central é simples. A Coreia do Norte não saiu de sua dureza política interna, mas saiu da irrelevância estratégica, e ignorar essa mudança pode custar caro a quem ainda insiste em olhar o mundo com mapas vencidos.

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