A nova ofensiva contra o Irã amplia o risco de guerra regional, ameaça o petróleo e expõe a falência da ordem imposta por Washington.
A nova rodada de bombardeios dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã levou o Oriente Médio a um ponto de perigo muito mais alto.
Segundo a Al Jazeera, explosões de grande intensidade atingiram Teerã e outras cidades iranianas nesta segunda-feira, quando se aproximava do fim o ultimato de 48 horas dado por Donald Trump ao governo iraniano.
Jornalistas da emissora descreveram a dimensão dos ataques como “sem precedentes”, especialmente na zona leste da capital, enquanto sistemas de defesa aérea eram acionados sobre áreas urbanas densamente povoadas.
Israel afirmou ter iniciado uma ofensiva em larga escala contra alvos de infraestrutura em Teerã. Já o Exército dos Estados Unidos declarou ter atacado uma instalação na província de Qom ligada à produção de motores de turbina usados em drones e componentes aeronáuticos associados à Guarda Revolucionária.
O dado central aqui não é apenas a intensidade dos ataques, mas o tipo de justificativa apresentado. Mais uma vez, a retórica militar veio acompanhada de acusações sem prova pública verificável, com o comando central dos Estados Unidos sugerindo que o Irã estaria lançando mísseis e drones a partir de áreas povoadas.
Esse argumento não surge no vazio e já foi usado repetidamente por Israel em Gaza para justificar ataques a zonas civis devastadas por uma guerra genocida. Quando essa linguagem reaparece em outro front, o sinal político é claro: a fronteira entre alvo militar e população civil fica ainda mais vulnerável à manipulação.
As consequências humanas apareceram rapidamente no noticiário.
A agência iraniana Fars informou que um ataque contra um prédio residencial em Khorramabad matou uma criança e deixou vários feridos. Em Tabriz, também segundo fontes iranianas, ao menos seis pessoas morreram em bombardeios contra casas.
Houve ainda relatos de explosões em Isfahan, Karaj, Ahvaz e Bandar Abbas. Nesta última cidade, uma pessoa morreu após o ataque a uma estação de rádio.
Em Ahvaz, informações locais indicaram impacto sobre um hospital. A Sociedade do Crescente Vermelho do Irã afirmou que mais de 80 mil unidades civis foram atingidas desde o início da ofensiva, incluindo escolas, hospitais, centros acadêmicos e instalações humanitárias.
Se esse número se confirmar em toda a sua extensão, ele revela uma guerra que há muito ultrapassou qualquer limite minimamente defensável entre operação militar e punição coletiva. O padrão é conhecido no Sul Global: a linguagem da “segurança” passa a funcionar como cobertura para destruição de infraestrutura civil e intimidação de sociedades inteiras.
Do outro lado, o Irã manteve ataques retaliatórios durante a madrugada. Em Israel, sirenes voltaram a soar em áreas do norte, do centro e do sul, com registros de estilhaços em diferentes localidades.
A Al Jazeera informou ainda que autoridades israelenses suspeitam de ações coordenadas entre Irã e Hezbollah em parte dessa nova rodada. Ao mesmo tempo, cresce em Israel o receio de que Washington tente encerrar a guerra antes de atingir os objetivos máximos do governo de Benjamin Netanyahu.
Esse ponto ajuda a entender a lógica da escalada. O governo israelense parece operar para arrastar os Estados Unidos cada vez mais fundo no conflito, ampliando o teatro de guerra e reduzindo o espaço para qualquer saída diplomática.
No sábado, Trump havia dado um ultimato de 48 horas ao Irã para reabrir completamente o estreito de Ormuz à navegação internacional. Caso contrário, ameaçou “obliterar” usinas elétricas iranianas.
Teerã respondeu dizendo que poderia fechar totalmente a passagem, por onde circula cerca de um quinto do petróleo mundial. Em seguida, a Guarda Revolucionária afirmou que, se os Estados Unidos atacarem a infraestrutura elétrica iraniana, responderá contra usinas e instalações econômicas, industriais e energéticas ligadas a interesses norte-americanos na região.
A ameaça não ficou apenas no plano verbal. Um porta-voz militar iraniano afirmou que forças do país atacaram a base aérea Prince Sultan, na Arábia Saudita, e também a Quinta Frota dos Estados Unidos, no Bahrein, com mísseis e drones.
Sirenes soaram no Bahrein e no Kuwait. A Arábia Saudita disse ter interceptado um míssil em direção a Riad e destruído drones sobre sua província oriental, justamente a área mais sensível do ponto de vista petrolífero.
Nos Emirados Árabes Unidos, um cidadão indiano ficou ferido por estilhaços após a interceptação de um míssil balístico nas proximidades da base de al-Dhafra, em Abu Dhabi. O dado é relevante porque mostra que a guerra já transborda para países vizinhos e ameaça corredores energéticos vitais para a economia mundial.
O Ministério da Saúde do Irã informou que o número de mortos no país já supera 1.500. Em Israel, 15 pessoas morreram em consequência dos ataques iranianos.
O impacto imediato também apareceu nos mercados. Os preços do petróleo abriram a semana sob forte instabilidade na Ásia, refletindo o temor de interrupção no fluxo pelo estreito de Ormuz e de ataques cruzados contra refinarias, usinas e portos.
Fatih Birol, diretor da Agência Internacional de Energia, afirmou que a situação no Oriente Médio é “muito severa” e pior do que as duas grandes crises energéticas dos anos 1970 somadas. Não se trata apenas de um alerta para investidores, mas de um sinal de risco sistêmico para inflação, transporte, fertilizantes e segurança alimentar em vários países.
Para o Brasil, a notícia importa por várias razões. Uma disparada prolongada do petróleo pressiona combustíveis, logística e preços internos, afetando diretamente o custo de vida.
Há também uma dimensão geopolítica que não pode ser subestimada. O agravamento da guerra fortalece a militarização de uma região central para o comércio global e enfraquece ainda mais o direito internacional.
Quando Washington e Tel Aviv normalizam ataques em larga escala contra centros urbanos e infraestrutura civil, o precedente aberto é perigoso para todo o sistema internacional. O problema deixa de ser apenas regional e passa a atingir a própria ideia de limite jurídico para o uso da força.
O conflito também reforça a urgência de uma política externa soberana, comprometida com a paz, com o multilateralismo e com a construção de uma ordem menos dependente dos diktats de Washington. O mundo multipolar não nascerá de discursos abstratos, mas da resistência concreta à lógica de guerra permanente imposta pelo eixo Estados Unidos-Israel.
O que está em curso é mais do que uma troca de ataques. Trata-se de uma disputa sobre quem define as regras do século 21: o direito internacional e a negociação entre Estados soberanos, ou a política de ultimatos, cerco e destruição.
A fonte original desta reportagem é a cobertura da Al Jazeera, complementada por declarações oficiais citadas pela emissora e por agências iranianas mencionadas no noticiário. O quadro ainda é fluido, mas uma conclusão já se impõe: a ofensiva entrou numa fase de alto risco, com potencial real de arrastar todo o Golfo para uma guerra aberta.
Se isso ocorrer, o custo humano será imenso. E o custo político também, porque ficará ainda mais evidente que a principal força desestabilizadora da região não é a resistência do Irã, mas a combinação entre expansionismo israelense e intervenção norte-americana.