Vídeos de Deir el-Balah expõem que, em Gaza, até as tendas dos deslocados viraram alvo.
Novos vídeos divulgados nesta terça-feira mostram o momento em que um ataque israelense atinge um acampamento de palestinos deslocados em Deir el-Balah, no centro de Gaza.
As imagens registram explosões entre barracas improvisadas, uma coluna de fumaça e a correria de sobreviventes tentando retirar feridos e mortos do local.
Publicados pela Al Jazeera, os registros reforçam uma constatação devastadora: em Gaza, nem os espaços de abrigo escapam da guerra.
Deir el-Balah se tornou, nos últimos meses, um dos principais destinos de famílias expulsas de outras partes do enclave palestino. O que os vídeos mostram é que esse deslocamento não trouxe proteção, mas apenas transferiu o risco de morte para outro ponto do território sitiado.
O episódio se encaixa em um padrão já documentado ao longo da ofensiva israelense. Áreas apresentadas ou percebidas como refúgio para civis voltam a ser atingidas, aprofundando a sensação de que não existe lugar seguro dentro da Faixa de Gaza.
Isso dá ao caso um peso político e moral que vai além do impacto imediato das imagens. O bombardeio de um campo de deslocados transforma em evidência concreta aquilo que muitas vezes aparece diluído em estatísticas, notas diplomáticas e linguagem burocrática.
Os vídeos desmontam a tentativa de tratar a devastação de Gaza como uma sucessão abstrata de números. O que aparece ali são civis vivendo sob lonas, sem segurança, sem serviços essenciais e expostos a novos ataques mesmo depois de sucessivos deslocamentos forçados.
Segundo a Al Jazeera, os bombardeios israelenses continuaram mesmo após a escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. A emissora também informa que, desde o cessar-fogo de outubro, ao menos 680 pessoas já foram mortas em Gaza.
Esse número é central para entender o momento atual. Ele indica que a chamada trégua não significou proteção real para a população palestina, mas apenas a continuidade da violência sob outra moldura política e diplomática.
A retórica das potências ocidentais insiste em palavras como contenção, negociação e estabilidade. No terreno, porém, o que se vê é a persistência de ataques contra civis palestinos, sem freio efetivo por parte dos governos que sustentam Tel Aviv política, militar e diplomaticamente.
O ataque a um campo de deslocados também expõe a falência do discurso das chamadas zonas seguras. Ao longo da ofensiva, Israel repetidamente ordenou que a população deixasse determinadas áreas, apenas para atingir depois os locais para onde essas pessoas foram empurradas.
Na prática, isso significa que não há refúgio verdadeiro em Gaza. A população permanece comprimida em um território sitiado, sem liberdade de circulação, sem proteção internacional eficaz e sob ameaça permanente de novos bombardeios.
As imagens de Deir el-Balah se somam a uma longa sequência de registros sobre o ataque sistemático à vida civil palestina. Escolas, hospitais, abrigos, campos de deslocados e comboios humanitários já apareceram em denúncias, reportagens e investigações internacionais.
Ainda assim, a resposta do eixo Estados Unidos e Europa segue marcada por cumplicidade, seletividade e paralisia calculada. O mesmo bloco que invoca o direito internacional para punir adversários geopolíticos relativiza ou encobre a destruição promovida por Israel em Gaza.
Esse duplo padrão é um dos elementos mais corrosivos da ordem internacional atual. Quando o sofrimento palestino é tratado como dano colateral tolerável, o que entra em colapso não é apenas a proteção de um povo, mas a própria credibilidade das instituições multilaterais e do sistema jurídico internacional.
Para o Sul Global, a questão palestina se tornou um teste decisivo. Não se trata apenas de solidariedade histórica, mas da defesa de um princípio elementar: nenhum povo pode ser submetido a deslocamento em massa, cerco, fome e bombardeio contínuo enquanto as grandes potências fingem procurar uma solução.
É nesse ponto que a cobertura da mídia corporativa ocidental também precisa ser questionada. Muitas vezes, ataques como esse aparecem diluídos em fórmulas impessoais, como se a destruição de acampamentos civis fosse apenas mais um episódio lateral de um conflito entre forças equivalentes.
Não é isso que os vídeos mostram. O que se vê é uma população desarmada, empobrecida e encurralada sendo atingida em tendas e espaços improvisados de sobrevivência, depois de já ter perdido casas, bairros e familiares.
O caso de Deir el-Balah ajuda a recolocar a discussão em termos concretos. Gaza não vive uma guerra convencional entre exércitos em condições semelhantes, mas uma ofensiva prolongada de uma potência militar contra um território sitiado, densamente povoado e sem meios reais de defesa civil.
Para o Brasil, essa notícia importa por várias razões. Em primeiro lugar, porque reafirma a necessidade de uma política externa comprometida com o direito internacional, com o reconhecimento pleno dos direitos do povo palestino e com a denúncia firme do apartheid israelense.
Em segundo lugar, porque o colapso moral do Ocidente diante de Gaza acelera a crise da velha ordem unipolar. Países do Sul Global, entre eles o Brasil, ganham ainda mais responsabilidade na construção de mecanismos diplomáticos e políticos capazes de enfrentar a seletividade das grandes potências.
A defesa de um mundo multipolar passa também por isso. Passa por recusar a naturalização da barbárie quando ela é cometida por aliados estratégicos de Washington e por afirmar que vidas palestinas têm o mesmo valor que quaisquer outras.
Os vídeos repercutidos pela Al Jazeera não são apenas registros de mais um ataque. Funcionam como prova visual de uma realidade que muitos governos tentam suavizar: Gaza continua sob fogo, mesmo depois de anúncios de cessar-fogo, apelos humanitários e promessas diplomáticas vazias.
Enquanto isso, famílias palestinas seguem vivendo entre ruínas, deslocamentos sucessivos e medo permanente. Em Deir el-Balah, como em tantas outras partes da Faixa de Gaza, a barraca que deveria servir de abrigo virou mais uma vez cenário de morte.
A repetição desses ataques mostra que o problema não é episódico, mas estrutural. Sem pressão internacional real, sem responsabilização e sem ruptura com a blindagem política oferecida a Israel, a máquina de destruição seguirá operando.
É por isso que cada novo vídeo importa. Não apenas como documento de um crime, mas como lembrete de que a impunidade continua sendo uma das armas centrais dessa guerra contra o povo palestino.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos