Irã resiste e expõe os limites do poderio militar de EUA e Israel

Imagem gerada por Ideogram, com prompt do portal O Cafezinho. 25/03/2026 19:51

Mísseis iranianos continuam atravessando defesas israelenses, a inflação global pode saltar de 2% para 6% e a tese da supremacia incontestável do eixo Estados Unidos-Israel sai gravemente ferida.

Durante anos, o mundo foi convencido de que a superioridade militar de Israel, amparada pelo poder aéreo, tecnológico e diplomático dos Estados Unidos, era praticamente absoluta.

O que o conflito atual está mostrando é outra coisa.

Mesmo sob bombardeio pesado, o Irã preservou capacidade de resposta e conseguiu impor custos reais ao adversário.

Esse é o ponto central que a grande mídia reluta em admitir. Quando reconhece que mísseis iranianos continuam atravessando sistemas de defesa israelenses, trata o fato como anomalia técnica, quase um acidente estatístico, e não como sintoma de uma mudança geopolítica muito mais profunda.

A questão não é decretar uma vitória definitiva de Teerã, o que seria precipitado. Israel e Estados Unidos seguem com enorme superioridade aérea, de inteligência e de capacidade destrutiva, mas já não conseguem sustentar com a mesma facilidade o mito da invulnerabilidade estratégica.

Esse mito era parte essencial da arquitetura de poder do Ocidente no Oriente Médio. Ele servia não apenas para intimidar adversários, mas para convencer o mundo de que qualquer resistência à ordem atlântica seria rapidamente esmagada.

Os fatos em campo começaram a corroer essa narrativa. Reportagens de diferentes veículos registraram que os ataques iranianos vêm encontrando brechas nas defesas israelenses, relativizando a imagem de escudo perfeito que durante anos foi apresentada como dogma.

O Pplware destacou de forma direta que a Iron Dome não é impenetrável. O Valor Econômico chamou atenção para os estragos provocados por mísseis iranianos de longo alcance, ajudando a dimensionar que não se trata de episódios isolados, mas de uma erosão concreta de um paradigma militar.

Há também um elemento estratégico importante presente em análises recentes: o Irã parece ter apostado na dispersão de ativos militares e na descentralização de comando. Isso teria ampliado sua resiliência diante de uma campanha aérea massiva, mostrando capacidade de adaptação e preparo para uma guerra prolongada.

Esse dado importa muito. O eixo Estados Unidos-Israel entrou nessa escalada apostando em choque, intimidação e rápida degradação da capacidade adversária. O que se vê é um oponente que, mesmo sob pressão brutal, continua operando, reagindo e produzindo efeitos militares e econômicos.

O problema dessa guerra não é apenas regional. O Oriente Médio segue sendo um nó central da energia, da logística e das expectativas inflacionárias do planeta.

Quando a Câmara de Comércio Internacional alerta, segundo o Times Brasil, para o risco de uma crise industrial histórica, não está fazendo retórica. Está descrevendo a possibilidade de uma disrupção sistêmica, com efeitos sobre combustíveis, transporte, cadeias produtivas e custos industriais em escala global.

A Folha registrou um cenário preocupante, com projeções de salto da inflação global de 2% para 6% sob efeito da guerra. Isso significa que uma aventura militar vendida como operação de segurança pode se converter em choque de preços, perda de renda e desaceleração econômica para o mundo inteiro.

É curioso como parte da imprensa tenta apresentar esse impacto como se fosse um desastre climático, algo sem sujeito, sem decisão política, sem responsáveis identificáveis. Não é assim. O risco inflacionário e industrial nasce de uma escalada militar patrocinada por Israel e sustentada politicamente pelos Estados Unidos.

O que está em jogo não é uma fatalidade geográfica do Oriente Médio, mas a insistência do bloco atlântico em resolver impasses geopolíticos com demonstrações de força que já não produzem a obediência automática de outras épocas.

O que se vê, portanto, é o fracasso de uma leitura arrogante do mundo. Subestimou-se a resiliência do Irã, subestimou-se a transformação tecnológica da guerra e subestimou-se, mais uma vez, o fato de que o poder ocidental já encontra limites mais visíveis num cenário internacional cada vez mais multipolar.

O conflito não pode ser lido apenas pela lente da segurança israelense, como quer a narrativa dominante. Ele precisa ser entendido como parte de uma transição mais ampla, na qual potências regionais e atores do Sul Global já não aceitam passivamente a arquitetura de coerção desenhada por Washington.

O Irã, goste-se ou não de seu sistema político, mostrou ser capaz de resistir, reorganizar-se e impor custos a uma coalizão militarmente superior. Isso muda o debate para o Oriente Médio, para a Ásia e também para a América Latina, porque desmonta a tese de que soberania é apenas um detalhe moral tolerado pelo império quando não atrapalha seus interesses.

Para o Brasil, a lição é evidente. Num mundo em que a força bruta já não entrega resultados lineares, ganham importância a defesa de uma política externa soberana, relações mais densas com os Brics, diversificação energética, reindustrialização e autonomia tecnológica.

O governo Lula acerta ao insistir numa diplomacia altiva, comprometida com a paz, com o multilateralismo e com uma ordem internacional menos hierárquica. O que está ruindo no Oriente Médio não é só uma ilusão militar, mas uma certa ideia de mundo em que o Ocidente podia bombardear, sancionar e enquadrar povos inteiros sem pagar preço estratégico.

Agora paga. E paga alto.

A guerra ainda está em curso, a névoa informacional é espessa e seria irresponsável decretar desfechos fechados. Mas uma conclusão já se impõe: a promessa de supremacia incontestável do eixo Estados Unidos-Israel saiu gravemente ferida, e o custo dessa erosão será sentido muito além do campo de batalha.

Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos | Revisão: Pierre Arnaud

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