Em Araraquara, Lula transformou uma ausência em disputa aberta sobre autoria, investimento público e desenvolvimento.
Lula usou a inauguração da fábrica da chinesa CRRC, em Araraquara, para cobrar publicamente a ausência de Tarcísio de Freitas num evento marcado por investimento pesado, geração de empregos e expansão da infraestrutura ferroviária paulista.
A fala do presidente tirou o ato do protocolo e o colocou no centro de uma disputa política sobre quem financia, quem executa e quem tenta colher os dividendos do desenvolvimento.
Mais do que criticar um governador ausente, Lula mirou uma prática recorrente da direita: usufruir de obras viabilizadas pela União sem reconhecer o papel decisivo do governo federal.
Segundo a Folha de S.Paulo, Lula afirmou que Tarcísio poderia ter comparecido e falado o que quisesse. O ponto, porém, era outro: um projeto dessa dimensão não pode ser tratado como patrimônio exclusivo do Palácio dos Bandeirantes.
A cobrança ganhou peso porque o evento tratava de um dos temas mais estratégicos para São Paulo e para o país. Mobilidade urbana, indústria, financiamento público e parceria internacional apareciam ali condensados num mesmo palco.
A nova unidade da CRRC em Araraquara terá papel relevante no fornecimento de trens para o metrô paulistano. A empresa chinesa, maior fabricante mundial de equipamentos ferroviários, já atua em projetos metroferroviários em São Paulo e integra o consórcio do Trem Intercidades, que ligará a capital a Campinas.
Foi nesse contexto que Lula ampliou o alcance da crítica e a conectou a um embate maior. Na visão do presidente, o governo paulista se beneficia de recursos federais em obras estruturantes, mas evita reconhecer isso com clareza diante da população.
O exemplo mais direto citado por Lula foi o túnel Santos-Guarujá. Ele lembrou que metade dos recursos da obra virá do governo federal e afirmou que esse tipo de parceria não é favor, mas obrigação do Estado brasileiro com a sociedade.
A observação não foi lateral nem improvisada. Ela toca num dos conflitos centrais da conjuntura: de um lado, o governo federal tenta reconstruir capacidade de investimento e coordenação nacional; de outro, setores da direita buscam capitalizar politicamente empreendimentos cuja viabilização depende do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, dos ministérios e do Tesouro.
Em Araraquara, essa disputa apareceu em números concretos. Foram assinados contratos de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social no valor de R$ 5,6 bilhões para projetos ferroviários em São Paulo.
Desse total, R$ 3,2 bilhões serão destinados ao Trem Intercidades entre São Paulo e Campinas. Outros R$ 2,4 bilhões irão para a expansão da Linha 2 do metrô da capital paulista.
Não se trata de detalhe técnico ou burocrático. Trata-se de uma demonstração objetiva de que o Estado nacional voltou a operar como indutor do desenvolvimento, financiando infraestrutura pesada, modernização urbana e integração logística.
Ao mencionar a ausência de Tarcísio, Lula também expôs uma contradição política importante. O governador tenta cultivar a imagem de gestor moderno e eficiente, mas se afasta justamente de agendas em que a presença federal e a cooperação com a China aparecem de forma incontornável.
Esse aspecto é ainda mais relevante porque a fábrica da CRRC simboliza mais do que um novo investimento industrial. Ela representa a entrada mais robusta de uma gigante chinesa na cadeia ferroviária brasileira, num momento em que o país precisa recuperar capacidade produtiva e ampliar sua infraestrutura de transporte coletivo.
Para um governo comprometido com soberania e desenvolvimento, esse tipo de parceria tem valor estratégico. Não apenas pelo volume financeiro envolvido, mas pelo potencial de nacionalização de etapas produtivas, formação de mão de obra e incorporação tecnológica.
Lula também insistiu que o debate público não pode ser organizado pela mentira. Sem citar nomes, afirmou que, depois de a verdade ser colocada, ele pode até ser atacado, mas o país não pode continuar sendo construído sobre falsificações políticas.
A mensagem tinha destinatários múltiplos. Servia ao governo paulista, mas também ao bolsonarismo, que passou anos demonizando instrumentos públicos de investimento e tentando deslegitimar a ação do Estado na economia.
Nesse ponto, Lula voltou a defender o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. O presidente recordou a campanha feita por Jair Bolsonaro contra o banco, com repetidas insinuações sobre uma suposta "caixa-preta" sem apresentação de provas.
A lembrança não foi gratuita. Durante os anos de ofensiva neoliberal, o banco foi atacado justamente porque sua existência contraria a lógica de desmonte do Estado e de submissão do investimento nacional aos interesses do mercado financeiro.
Ao recolocar o banco no centro de projetos ferroviários, o governo Lula reabilita uma ideia que a direita tentou destruir. Sem crédito público de longo prazo, o Brasil não consegue fazer obras estruturantes nem reindustrializar setores estratégicos.
A agenda presidencial no interior paulista foi desenhada para reforçar essa linha de ação. Além do evento em Araraquara, Lula participou de compromissos em São Carlos e, pela manhã, esteve em Gavião Peixoto na apresentação oficial do caça Gripen E, produzido no Brasil em parceria entre a Saab e a Embraer.
Há um eixo claro ligando essas agendas. Trens, hospital universitário, manutenção aeronáutica e indústria de defesa compõem uma narrativa de reconstrução produtiva, presença estatal e aposta em setores de maior densidade tecnológica.
No caso de São Paulo, o recado é ainda mais forte por se tratar do principal estado do país. Quando o governo federal financia metrô, trem intercidades, túnel e expansão industrial em território paulista, enfraquece-se o discurso de que Brasília estaria distante das necessidades concretas da população local.
Também por isso a ausência de Tarcísio ganhou repercussão. Num evento que reunia empregos, modernização do transporte e a presença de uma gigante chinesa, a cadeira vazia do governador acabou funcionando como símbolo de uma escolha política.
Lula deixou claro que não reivindica gratidão pessoal. O que cobra é reconhecimento institucional e honestidade com a população sobre quem financia, quem executa e quem aposta de fato no desenvolvimento.
Em ano eleitoral, esse tipo de disputa tende a se intensificar. O presidente resumiu o embate como uma batalha entre verdade e mentira, entre quem fez e quem apenas tenta se apropriar politicamente do que foi construído com recursos públicos.
A cena de Araraquara, assim, foi muito mais do que um episódio protocolar. Ela condensou uma disputa sobre autoria do desenvolvimento, defesa do investimento público e o lugar da cooperação com a China na reconstrução da infraestrutura brasileira.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos