Há um vício da grande mídia brasileira que já virou método: transformar qualquer dificuldade de articulação do governo em prova de colapso iminente.
Quando o alvo é Lula, esse vício ganha contornos de torcida.
A leitura séria da conjuntura aponta em outra direção.
O que se vê não é um governo paralisado, mas um presidente operando num ambiente congressual hostil, fragmentado e inflado por anos de transferência de poder institucional e orçamentário ao Legislativo.
A disputa em torno da vaga no Supremo Tribunal Federal é um bom exemplo.
Transformar a dificuldade de avançar um nome no Senado em simples demonstração de fraqueza do Planalto é menos análise e mais enquadramento político interessado.
A cobertura sobre Jorge Messias expõe isso com nitidez.
O centro do problema não é pessoal e não pode ser tratado como fofoca de bastidor, porque a questão envolve correlação de forças, disputa por influência e a relação entre os Poderes num momento delicado da vida nacional.
O Supremo precisa ser defendido institucionalmente, sem hesitação.
Num país em que setores da extrema direita e do conservadorismo parlamentar testam permanentemente os limites das instituições, a escolha de um ministro não pode ser reduzida ao jogo pequeno das intrigas palacianas.
Há ainda um dado estrutural que a imprensa conservadora prefere esconder.
O Senado de hoje não é um espaço dócil para nenhum governo popular, e menos ainda para um governo que tenta recompor capacidades do Estado depois da devastação institucional dos últimos anos.
Por isso, a demora numa nomeação precisa ser lida como sintoma de um arranjo político desequilibrado, e não como atestado automático de perda de comando.
Em presidencialismos de coalizão, recalibrar rota é parte da governabilidade, não sua negação.
O mesmo vale para a notícia de que Lula desistiu de nomear um goiano para chefiar a articulação política.
A imprensa tenta vender cada ajuste como recuo humilhante, quando muitas vezes se trata apenas da administração pragmática de maiorias instáveis.
Governar o Brasil real exige cálculo, paciência e capacidade de reposicionamento.
Só analistas muito mal-intencionados ou muito preguiçosos confundem tática com derrota estratégica.
Enquanto isso, a política de fundo segue em movimento, e é aí que aparece um contraste importante entre o barulho de Brasília e a realidade nacional.
Segundo levantamento da AtlasIntel citado pelo Congresso em Foco, Lula segue liderando no primeiro turno.
Esse dado, por si só, deveria bastar para esfriar o discurso apocalíptico que tenta apresentar o presidente como figura politicamente esvaziada.
Não basta liderar pesquisa para governar bem, evidentemente, mas o número tem valor objetivo: mostra que, apesar da pressão midiática, da sabotagem oposicionista e do ambiente polarizado, Lula continua sendo a principal referência eleitoral do campo progressista.
Isso significa que a sociedade distingue melhor do que certa elite jornalística o que é ruído e o que é substância.
Brasília pode produzir manchetes nervosas todos os dias, mas o eleitor olha também para emprego, renda, crédito, investimento e capacidade de proteção em tempos incertos.
É justamente nesse ponto que a agenda econômica do governo merece atenção mais cuidadosa.
A informação de que o Planalto estuda um programa chamado Brasil Soberano 2.0, com R$ 15 bilhões em crédito para conter efeitos da guerra, é muito mais relevante do que o noticiário de bastidor costuma admitir.
A mídia tradicional tende a enquadrar esse tipo de medida como reação emergencial ou improviso fiscal.
Há, porém, por trás dela, uma concepção de Estado que vale a pena sublinhar.
Num cenário internacional marcado por guerra, instabilidade energética, risco inflacionário e perturbações nas cadeias produtivas, um governo responsável não pode assistir passivamente à turbulência global.
Precisa construir instrumentos nacionais de defesa econômica.
Crédito direcionado, proteção produtiva e capacidade de amortecer choques externos não são caprichos ideológicos.
São mecanismos elementares de soberania.
O próprio nome da iniciativa é eloquente.
Falar em Brasil Soberano, num mundo em transição para a multipolaridade, significa reconhecer que o país precisa de musculatura própria para enfrentar crises sem se submeter ao receituário automático do mercado financeiro ou aos humores geopolíticos do Norte global.
Pode-se discutir se R$ 15 bilhões serão suficientes, e talvez o agravamento do cenário internacional exija respostas ainda mais robustas.
Mas o mais importante, neste momento, é perceber a direção política da medida: o governo não está aceitando a lógica da impotência, e sim reafirmando a necessidade de um Estado ativo, capaz de proteger a economia nacional em meio à tempestade externa.
É curioso que os mesmos analistas que cobram liderança do presidente ignorem quando essa liderança se manifesta de forma concreta, na defesa das instituições e na formulação de instrumentos de proteção econômica.
Para essa gente, liderança só existe quando coincide com os interesses do mercado, do fisiologismo congressual e do noticiário adversarial.
Lula governa sob cerco, isso é verdade.
Mas governar sob cerco não é o mesmo que governar derrotado.
O presidente segue operando em três frentes ao mesmo tempo: tenta administrar uma base difícil, protege o Estado de pressões desorganizadoras e busca responder, com ferramentas desenvolvimentistas, a uma conjuntura internacional cada vez mais perigosa.
A pergunta correta, portanto, não é se houve fragilidade num episódio ou noutro.
A pergunta correta é se, mesmo diante de um Congresso hipertrofiado e de uma mídia que trabalha pela dramatização permanente, Lula continua conseguindo preservar iniciativa política e direção estratégica.
Até aqui, a resposta parece ser sim.
E talvez seja exatamente isso que tanto incomoda os seus adversários.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos | Revisão: Pierre Arnaud