Sheinbaum manteve os médicos cubanos e transformou uma carência social em gesto de soberania regional.
O México decidiu manter a cooperação com médicos cubanos mesmo sob pressão direta dos Estados Unidos.
A presidente Claudia Sheinbaum afirmou que o acordo continua porque atende a uma necessidade concreta do país, sobretudo em regiões pobres e afastadas onde faltam profissionais e especialistas.
A decisão mexe com a saúde pública, mas seu peso político vai muito além dela.
Segundo a Al Jazeera, Sheinbaum declarou em entrevista coletiva que o convênio bilateral tem sido muito útil para o México. Ela ressaltou a dificuldade de levar médicos mexicanos a várias áreas rurais, enquanto os cubanos aceitam trabalhar justamente nesses territórios mais vulneráveis.
Esse ponto ajuda a entender por que a decisão mexicana não pode ser lida apenas como um gesto diplomático em favor de Cuba. Trata-se também de uma resposta prática a um problema histórico de desigualdade territorial no acesso à saúde.
Desde 2022, milhares de profissionais cubanos foram enviados ao México. Eles passaram a atuar principalmente em localidades carentes, onde a presença de especialistas é insuficiente e onde o poder público enfrenta obstáculos permanentes para fixar equipes médicas.
A reação dos Estados Unidos veio em fevereiro, quando foi aprovada uma legislação que abre caminho para sanções contra países que mantenham participação no programa cubano de cooperação médica. A lei exige que o secretário de Estado apresente um relatório identificando governos que continuem pagando a Cuba por esse tipo de missão.
Na prática, Washington tenta converter uma política de cooperação regional em instrumento de intimidação geopolítica. O alvo imediato é o programa médico cubano, mas o objetivo mais amplo é asfixiar economicamente Havana e reduzir sua presença internacional.
O governo Donald Trump, em seu novo mandato, retomou com força a velha estratégia de mudança de regime contra Cuba. A pressão sobre as missões médicas integra esse pacote maior, que inclui sanções, ameaças comerciais e tentativas de cortar fontes de receita externa da ilha.
Cuba, submetida há décadas ao bloqueio econômico dos Estados Unidos, encontrou em sua diplomacia médica uma forma de projetar solidariedade internacional e, ao mesmo tempo, obter divisas. Médicos cubanos atuaram em diferentes continentes, em emergências sanitárias, epidemias e sistemas públicos fragilizados.
Para muitos países do Sul Global, essa cooperação foi decisiva. Em lugares onde faltam profissionais, infraestrutura e orçamento, a presença de equipes cubanas ajudou a manter serviços essenciais em funcionamento.
Os Estados Unidos tentam deslegitimar esse modelo com acusações de trabalho coercitivo. Autoridades de Washington passaram a tratar o programa como se fosse uma operação criminosa, numa linguagem que serve mais à guerra política contra Havana do que a uma preocupação concreta com o direito à saúde das populações atendidas.
É verdade que organismos internacionais e especialistas já levantaram preocupações sobre as condições de trabalho de parte desses profissionais. Mas o uso seletivo desse debate por Washington revela um cálculo geopolítico evidente, sobretudo porque a pressão não vem acompanhada de qualquer proposta real para substituir os serviços prestados por Cuba nas regiões mais pobres do continente.
A contradição aparece com nitidez nesse ponto. Os Estados Unidos querem desmontar a presença cubana, mas não oferecem alternativa para os países que dependem dessa cooperação para atender populações historicamente abandonadas.
A fala de Sheinbaum, portanto, tem um valor que ultrapassa o caso mexicano. Ela reafirma o direito soberano de um país definir suas políticas públicas de saúde conforme suas necessidades internas, e não segundo a agenda de poder de Washington.
O gesto também reforça uma tradição latino-americana de cooperação regional que resiste apesar da pressão externa. Cuba construiu ao longo de décadas um capital político importante com suas missões médicas justamente porque elas respondem a carências reais de países periféricos.
Nos últimos meses, alguns governos da região recuaram diante da ofensiva dos Estados Unidos. Bahamas, Honduras, Guatemala, Jamaica e Guiana encerraram sua participação no programa, segundo a reportagem da Al Jazeera.
Por isso a decisão mexicana ganha ainda mais relevância. Ao manter o acordo, o país envia o recado de que a integração regional não pode ficar refém do cerco permanente imposto por Washington a Cuba.
Sheinbaum tenta equilibrar essa posição com a necessidade de administrar a relação com o vizinho do norte. O México depende intensamente do mercado norte-americano e convive com pressões constantes em temas como migração, segurança, energia e comércio.
Mesmo assim, o governo mexicano preservou uma linha de diálogo com Havana. Diante da crise energética agravada pelo bloqueio e pelas restrições ao acesso a combustíveis, o México chegou a enviar ajuda humanitária à ilha.
Isso mostra que a disputa em torno dos médicos cubanos não é um episódio isolado. Ela faz parte de uma batalha maior sobre soberania, autonomia regional e capacidade dos países latino-americanos de cooperar entre si sem tutela externa.
Para o Brasil, a notícia importa por mais de um motivo. Primeiro, porque recoloca em cena o debate sobre integração latino-americana baseada em necessidades sociais concretas, e não apenas em acordos comerciais.
Segundo, porque expõe o uso extraterritorial de sanções dos Estados Unidos como ferramenta de coerção sobre governos soberanos. Hoje o alvo é Cuba e seus parceiros, amanhã pode ser qualquer país que adote políticas contrárias aos interesses estratégicos de Washington.
Terceiro, porque revela uma questão central para o futuro da região. Sem coordenação própria em saúde, energia, infraestrutura e tecnologia, a América Latina seguirá vulnerável à chantagem geopolítica das grandes potências.
A postura do México aponta em outra direção. Ao sustentar a cooperação com Cuba, o governo Sheinbaum combina pragmatismo social com afirmação soberana.
É uma escolha que responde a uma necessidade imediata da população mexicana. Mas também ajuda a frear a lógica de submissão automática aos Estados Unidos.
No fundo, a disputa em torno dos médicos cubanos resume um conflito maior. De um lado está a política de bloqueio, punição e isolamento comandada por Washington.
Do outro está a ideia de que os países do Sul Global podem construir redes próprias de solidariedade e desenvolvimento. Ao manter o acordo com Cuba, o México deixou claro de que lado pretende ficar.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos