Ao fantasiar um Irã rendido, Trump recicla a velha política de intimidação contra países que recusam tutela externa.
Donald Trump voltou a tratar o Irã como alvo de propaganda eleitoral ao afirmar, em evento de arrecadação para o Partido Republicano, que a liderança iraniana estaria desesperada por um acordo com os Estados Unidos.
Segundo informações divulgadas pela Al Jazeera, o ex-presidente disse que Teerã negociaria secretamente por medo de represálias internas e externas.
Ao sugerir que líderes iranianos temeriam ser mortos pelo próprio povo ou por uma ação direta de Washington, Trump tentou transformar pressão geopolítica em espetáculo de campanha.
A fala não se limita a uma bravata improvisada diante de doadores republicanos. Ela se encaixa numa tradição de guerra psicológica que apresenta adversários dos Estados Unidos como regimes acuados, frágeis e prestes a ceder.
Esse tipo de narrativa busca produzir efeito político em várias frentes ao mesmo tempo. Serve para alimentar a imagem de força de Trump no cenário doméstico e, ao mesmo tempo, tenta corroer a percepção internacional sobre a capacidade de resistência do Irã.
O problema é que a versão vendida por Trump colide com fatos centrais da realidade geopolítica. O Irã passou décadas sob sanções unilaterais impostas pelo Ocidente e, ainda assim, preservou capacidade de articulação regional, avanço tecnológico e peso estratégico.
Historicamente, Teerã demonstrou resiliência diante de sucessivas tentativas de isolamento. A ideia de um país implorando por um acordo nos termos de Washington ignora justamente esse histórico de sobrevivência sob pressão extrema.
Também não corresponde ao lugar que o Irã ocupa hoje em arranjos internacionais que desafiam a antiga ordem unipolar. Sua integração aos BRICS e à Organização de Cooperação de Xangai indica que o país está longe de ser um ator isolado ou sem alternativas.
As declarações de Trump apagam deliberadamente esse novo contexto. O Irã aprofundou parcerias estratégicas com China e Rússia, relações que ampliam sua margem econômica, diplomática e militar em temas decisivos como energia e segurança.
Essas conexões não eliminam os problemas internos iranianos, mas tornam simplista a tese de rendição iminente. Um país com esse nível de inserção regional e internacional não pode ser descrito seriamente apenas como refém do medo diante de Washington.
Há ainda um componente mais perigoso nessa retórica. Ao falar em supostas revoltas populares e em pânico da liderança iraniana, Trump reforça um repertório clássico usado para legitimar desestabilização interna e políticas de mudança de regime.
Não é a primeira vez que esse expediente aparece no discurso ocidental sobre países do Sul Global. Primeiro constrói-se a imagem de colapso, depois se apresenta a ingerência externa como resposta inevitável a uma crise que muitas vezes foi inflada pela própria propaganda.
No caso iraniano, esse roteiro encontra limites concretos na própria história nacional. O país carrega uma longa tradição de defesa da soberania diante de interferências estrangeiras, e esse sentimento atravessa disputas políticas internas, diferenças sociais e conflitos institucionais.
O nacionalismo iraniano, nesse sentido, não é detalhe retórico. Ele funciona como elemento de coesão quando a pressão externa se intensifica, especialmente quando a ameaça vem acompanhada de sanções, assassinatos seletivos ou promessas de intervenção.
Para o Brasil e para o governo do presidente Lula, a estabilidade no Oriente Médio não é assunto distante. Trata-se de tema com impacto direto sobre segurança energética, comércio internacional e sobre a defesa de uma ordem internacional baseada em diálogo e respeito mútuo.
A diplomacia brasileira tem insistido na desescalada e na solução negociada de conflitos. Essa linha é coerente com a tradição do país de rejeitar ameaças de aniquilação, sanções predatórias e aventuras militares como instrumentos normais de política externa.
O peso do Irã nessa equação também é concreto. O país é relevante para a segurança energética global e ocupa posição importante no debate sobre multipolaridade defendido por diversas nações do Sul Global.
Além disso, trata-se de um mercado importante para exportações brasileiras, especialmente em áreas como agronegócio e fertilizantes. Quando a tensão sobe no Golfo Pérsico, os efeitos não ficam restritos à região e podem atingir cadeias de abastecimento, preços e fluxos comerciais.
Ao dizer que o Irã teme os Estados Unidos, Trump tenta reencenar o papel de xerife global. Mas esse roteiro já não encontra o mesmo terreno de décadas passadas, porque o cenário internacional é marcado por fragmentação de poder e por centros decisórios mais dispersos.
O mundo de 2026 não opera mais sob obediência automática à Casa Branca. Novas lideranças, novos blocos e novas alianças reduziram a capacidade de Washington de impor sozinho os termos do jogo, ainda que os Estados Unidos continuem sendo potência central.
A retórica contra o Irã também cumpre outra função política. Ela ajuda a deslocar o foco das crises internas das democracias liberais do Norte Global, em especial das divisões sociais e das tensões econômicas que atravessam os próprios Estados Unidos.
Enquanto Trump aponta para inimigos externos, o país enfrenta polarização profunda e uma dívida pública que pesa sobre a estabilidade de seu sistema financeiro. A fabricação de ameaças externas sempre foi um recurso útil para lideranças que precisam recompor autoridade interna.
A resistência iraniana, por sua vez, é observada por muitos países em desenvolvimento como demonstração de que a soberania pode ser preservada mesmo sob cerco. Teerã não abandonou seu programa nuclear nem abriu mão de sua influência regional apesar de anos de asfixia econômica.
Quando Trump menciona o medo de morte dos líderes iranianos, ele também evoca uma memória recente e grave. O assassinato do general Qasem Soleimani, em 2020, permanece como símbolo de uma escalada que violou normas básicas do direito internacional e elevou o risco de guerra aberta.
Longe de quebrar o país, aquele episódio reforçou no Irã a percepção de que a presença militar estrangeira em sua vizinhança representa ameaça permanente. O efeito político foi o oposto da submissão prometida por setores que apostavam na intimidação como atalho estratégico.
O Cafezinho sustenta que a paz depende do reconhecimento de que sistemas políticos distintos têm direito de coexistir. A imposição de um modelo único por meio da força, da chantagem econômica ou da manipulação informacional continua sendo uma das matrizes centrais dos conflitos contemporâneos.
Por isso, declarações como as de Trump não devem ser tratadas como folclore eleitoral inofensivo. Elas podem servir de pretexto para novas ondas de pressão máxima contra o Irã, com consequências humanas, econômicas e geopolíticas que ultrapassam em muito o palanque republicano.
O Irã seguirá sendo peça estratégica para o projeto de desenvolvimento do Sul Global e para a consolidação dos BRICS como alternativa ao G7. Sua força está na combinação entre história, capacidade de adaptação e recusa em aceitar passivamente a disciplina imposta por potências externas.
No fim, a fala de Trump pode entusiasmar financiadores de campanha, mas não altera o dado essencial. O Irã continua sendo um Estado soberano, com alianças relevantes, peso regional e capacidade de resistir a uma retórica que, mais uma vez, tenta vender desejo imperial como realidade consumada.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Augusto Gomes | Revisão: Afonso Santos