A nova pesquisa sobre o governo de Javier Milei confirma o que já vinha sendo sentido nas ruas da Argentina: o desgaste chegou — e chegou forte. Segundo levantamento divulgado pela imprensa, a aprovação do presidente caiu para 36,4%, o pior nível desde o início do mandato.
O dado não aparece isolado. Ele dialoga diretamente com a deterioração das condições de vida da população desde o início do chamado “choque” econômico imposto pelo governo.
A promessa era simples: cortar gastos, reduzir o Estado e reorganizar a economia. O resultado, ao menos até agora, tem sido outro — recessão, perda de renda e aumento da vulnerabilidade social.
Os números ajudam a entender esse cenário.
Logo nos primeiros meses do governo Milei, a pobreza na Argentina disparou. Estudos apontam que o índice chegou a mais de 50% da população em 2024, com picos próximos de 55%, o maior nível em décadas .
Ou seja: metade do país mergulhada na pobreza em meio à aplicação do receituário liberal mais agressivo das últimas décadas.
Ainda que dados posteriores indiquem alguma melhora estatística — com índices na casa de 31,6% em 2025 — o impacto inicial foi profundo e deixou marcas sociais difíceis de reverter rapidamente .
E é justamente esse impacto que começa a aparecer na avaliação do governo.
A política de Milei foi construída sobre cortes severos: redução de programas sociais, arrocho fiscal e compressão do consumo. Para o mercado financeiro, isso pode soar como “ajuste necessário”. Para quem vive da renda do trabalho, o efeito é outro.
A conta chegou.
A inflação elevada no início do governo — que chegou a ultrapassar 200% ao ano e se aproximar de 300% em seu pico — corroeu salários e ampliou a perda de poder de compra . Ao mesmo tempo, o consumo despencou e a atividade econômica entrou em retração, pressionando ainda mais o cotidiano da população.
O resultado é um quadro cada vez mais claro: enquanto investidores celebram o ajuste, os trabalhadores enfrentam o custo real dessa política.
E esse custo é político.
A queda da aprovação para 36,4% não é apenas um número. É um sintoma. Mostra que o apoio inicial ao discurso de ruptura começa a se esgotar diante da realidade concreta.
Há, inclusive, outros indicadores que reforçam essa tendência. Levantamentos recentes apontam que mais de 53% dos argentinos já consideram o governo ruim ou péssimo, evidenciando um desgaste mais amplo .
No fundo, o que está em jogo é o próprio modelo.
O projeto de Milei parte de uma lógica conhecida: reduzir o Estado ao mínimo e confiar que o mercado reorganize a economia. O problema é que esse tipo de transição, quando feito de forma abrupta, costuma produzir efeitos sociais devastadores no curto prazo.
E é exatamente isso que a Argentina vive agora.
O governo pode argumentar que os ajustes são necessários para estabilizar a economia. Mas, enquanto isso, a população sente o peso imediato: queda de renda, aumento da desigualdade e precarização das condições de vida.
No fim, a queda de popularidade não é surpresa.
É consequência direta de uma política que trata números fiscais como prioridade absoluta — e deixa o custo social para depois.
O problema é que, na vida real, “depois” costuma chegar rápido demais.