O bolsonarismo tenta trocar de roupa para voltar ao poder, mas a biografia cobra a conta.
Flávio Bolsonaro tenta se apresentar como nome moderado da direita para pavimentar uma pré-candidatura ao Palácio do Planalto pelo Partido Liberal.
O movimento, apontado em análise publicada pela Folha de S.Paulo, busca suavizar a face da extrema direita para o próximo ciclo eleitoral.
O alvo é a chamada direita liberal, esse eleitorado órfão da terceira via que rejeita Lula, mas também desconfia do radicalismo ruidoso de Jair Bolsonaro.
Não é um público politicamente neutro, nem exatamente avesso a saídas autoritárias. A experiência recente mostra que parte desses setores aceita o endurecimento político quando ele vem embalado por privatizações, ajuste fiscal e desmonte do Estado.
É nesse ponto que a operação de imagem de Flávio tenta encontrar terreno. A aposta é vender estabilidade sem romper com a herança ideológica que sustenta o bolsonarismo.
O problema é que essa combinação não tem nada de nova na América Latina. A aliança entre neoliberalismo e reacionarismo já apareceu muitas vezes como instrumento para conter avanços sociais e preservar estruturas de dependência em relação ao Norte Global.
O filósofo Vladimir Safatle descreve esse padrão como complexo de Vargas Llosa. Em momentos decisivos, parcelas das elites intelectuais e econômicas acabam aderindo ao pior projeto da direita, desde que ele proteja seus interesses materiais e sua visão de mundo.
Flávio tenta ocupar justamente esse espaço de convergência entre mercado, conservadorismo e antipetismo. Mas há um obstáculo central que nenhuma consultoria de imagem consegue apagar: ele não é um estranho ao bolsonarismo, e sim um de seus herdeiros diretos.
O senador carrega o peso simbólico e político de ser o filho mais velho do principal líder da extrema direita brasileira. Não se trata apenas de sobrenome, mas de pertencimento ao núcleo de um projeto que foi associado, pela opinião pública e pelas instituições, a tentativas de ruptura democrática.
Por isso, o figurino de moderado parece apertado demais para o personagem. É difícil reivindicar centralidade institucional quando se vem de um campo político marcado por ataques sistemáticos às urnas, ao Supremo Tribunal Federal e às regras do jogo democrático.
A esquerda, por ora, observa esse movimento com cautela e algum silêncio estratégico. Também pesa no cálculo a expectativa sobre a confirmação de outras candidaturas no campo conservador, entre elas a de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo.
Quando a campanha ganhar temperatura, porém, a blindagem tende a ficar mais frágil. Flávio terá de explicar não apenas o que pensa, mas a quem serve, e como pretende conciliar pose moderada com alinhamentos automáticos a figuras como Donald Trump.
Esse ponto é decisivo porque o projeto político dos Bolsonaro colide com a agenda de soberania nacional que o Brasil tenta reconstruir. Enquanto o governo Lula investe no fortalecimento do Brics e em uma inserção internacional mais autônoma, a família Bolsonaro se identifica com uma lógica de subordinação aos interesses dos Estados Unidos.
A disputa, portanto, não é só de estilo ou temperamento. É uma disputa entre visões de país, entre um Brasil que busca margem de manobra no mundo multipolar e outro que aceita a condição periférica como destino natural.
Além da dimensão ideológica, há passivos concretos que não desaparecem com vídeos bem editados para rede social. O caso da rachadinha, esquema de desvio de salários em gabinetes, continua associado à trajetória do senador e permanece vivo na memória de parte do eleitorado.
Também pesa a proximidade fraternal com grupos milicianos no Rio de Janeiro, tema que segue produzindo desconforto público e exigindo respostas. Acusações de lavagem de dinheiro e outras zonas nebulosas da vida política do clã compõem um histórico incompatível com a imagem de serenidade institucional que agora se tenta vender.
As pesquisas eleitorais recentes mostram um quadro de polarização em que Flávio aparece, em alguns cenários, em situação de empate técnico em eventuais segundos turnos. Mas esse desempenho ainda parece refletir muito mais o recall do sobrenome Bolsonaro do que uma adesão consolidada a um novo perfil político.
Do outro lado, Lula enfrenta o desgaste natural de um governo que tenta reconstruir o país depois de anos de destruição administrativa, institucional e social. A máquina de desinformação da direita trabalha diariamente para converter esse desgaste em rejeição permanente, mesmo diante de avanços verificáveis na economia e na redução do desemprego.
O governo federal ainda encontra dificuldade para transformar resultados objetivos em popularidade imediata. A batalha da narrativa é travada em ambiente hostil, marcado por algoritmos, redes sociais e campanhas permanentes de distorção dos fatos.
Ainda assim, Lula segue como um competidor eleitoral de enorme fôlego. Com a força política acumulada, a capacidade de comunicação popular e o uso da máquina pública para entregar resultados, o campo progressista aposta em redistribuição de renda, investimento e infraestrutura como diferenciais concretos diante do marketing oposicionista.
No horizonte da direita, porém, há incertezas que podem implodir a estratégia de normalização do bolsonarismo. O caso do software espião Master e outras investigações sobre espionagem ilegal aparecem como ameaças reais ao clã Bolsonaro.
Também existe a possibilidade de novas delações premiadas atingirem o coração do projeto familiar. Até aqui, a direita tem mostrado dificuldade para se desvencilhar de escândalos de corrupção, abuso de poder e práticas incompatíveis com o discurso moralista que sempre tentou monopolizar.
A tentativa de transformar Jair Bolsonaro em vítima de um sistema persecutório perde força à medida que surgem provas e se consolidam investigações. Se o pai deixar de funcionar como mártir, o filho terá dificuldade para herdar seu capital político sem carregar junto o radicalismo que lhe dá sustentação.
Esse é o dilema central da operação em curso. Para conquistar o centro, Flávio precisa se afastar do bolsonarismo; para manter a base, precisa continuar sendo exatamente o que sempre foi.
Até aqui, ele não demonstrou qualidades pessoais ou trajetória política capazes de resolver essa contradição por mérito próprio. Sua imagem continua dependente da sombra do pai e de métodos de fazer política que, em vez de moderação, evocam oportunismo, lealdade familiar e permanente flerte com a ilegalidade.
Dancinhas, vídeos curtos e linguagem calculada podem preservar a base fiel e radicalizada. Mas governar o Brasil exige densidade política, credibilidade institucional e compromisso com a democracia, atributos que não se improvisam em campanha publicitária.
É por isso que a nova embalagem não basta. A tentativa de vender Flávio Bolsonaro como moderado esbarra no essencial: a biografia, o grupo a que pertence e o projeto de poder que representa continuam falando mais alto que o figurino.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Augusto Gomes | Revisão: Afonso Santos