A nova ofensiva israelense contra o Irã amplia o risco de guerra regional e pode atingir a economia mundial.
Israel afirmou ter matado Alireza Tangsiri, comandante da força naval da Guarda Revolucionária do Irã, em mais um ataque que aprofunda a guerra e eleva o risco de desestabilização numa das áreas mais sensíveis do planeta.
A informação foi divulgada pelo ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, que descreveu a operação como um ataque aéreo "preciso" realizado durante a noite contra a cúpula do comando naval iraniano.
Até o momento citado pela cobertura da Al Jazeera, não havia confirmação oficial de Teerã sobre a morte de Tangsiri.
Esse ponto não é lateral, porque em cenários de guerra aberta anúncios feitos por autoridades israelenses e norte-americanas também integram a batalha informacional. Por isso, a notícia exige cautela até que haja verificação independente ou manifestação formal do lado iraniano.
Segundo a versão apresentada por Katz, Tangsiri teria sido alvo por seu suposto papel em ações ligadas ao Estreito de Ormuz. Trata-se de um corredor marítimo vital para o comércio global de energia e, por isso mesmo, de um ponto de pressão geopolítica de primeira grandeza.
A fala do ministro israelense tenta enquadrar o assassinato como uma ação de "segurança". Mas o efeito político e estratégico do episódio é muito maior do que a justificativa apresentada por Tel Aviv.
Trata-se de mais um passo na estratégia de decapitação da estrutura militar e política iraniana, numa ofensiva conduzida por Israel com apoio direto dos Estados Unidos. A Al Jazeera informa que, desde o início da guerra conjunta entre Washington e Tel Aviv contra o Irã, em 28 de fevereiro, Israel anunciou a eliminação de diversas figuras de alto escalão do aparelho de Estado iraniano.
Entre os nomes citados na cobertura estão chefes militares, autoridades de inteligência e dirigentes ligados ao sistema de segurança da República Islâmica. O repórter Tohid Asadi, da Al Jazeera, falando de Teerã, observou que, se a morte de Tangsiri for confirmada, o episódio representará mais um golpe importante contra um país que já sofreu perdas sucessivas em sua cadeia de comando desde o início da guerra.
Essa sucessão de assassinatos não pode ser tratada como detalhe tático ou mero episódio de campo de batalha. Ela aponta para uma doutrina de guerra voltada a desorganizar a capacidade de comando do Estado iraniano, ampliar a pressão psicológica interna e forçar uma mudança de correlação regional por meio da eliminação física de lideranças estratégicas.
Nos últimos dias, Israel também intensificou os ataques contra ativos navais iranianos. Ainda de acordo com a Al Jazeera, bombardeios recentes atingiram embarcações iranianas no Mar Cáspio, incluindo navios com sistemas de mísseis, embarcações de apoio e patrulheiros.
O foco na estrutura naval do Irã é especialmente grave porque toca no coração de uma disputa que afeta não apenas a Ásia Ocidental, mas toda a economia mundial. O Estreito de Ormuz é uma das passagens marítimas mais importantes do planeta e concentra uma parcela decisiva do petróleo e do gás comercializados internacionalmente.
Isso significa que qualquer escalada militar na região tem potencial para provocar choques de preços, turbulência logística e pressão inflacionária em vários continentes. Não se trata, portanto, de uma crise distante, confinada ao noticiário internacional, mas de um risco com efeitos concretos sobre energia, transporte, comércio e custo de vida.
É por isso que a notícia importa também para o Brasil. Mesmo sem participação direta no conflito, o país pode sentir os efeitos de uma disparada no preço do barril, de pressões sobre combustíveis, fertilizantes e cadeias de suprimento, além de impactos mais amplos sobre o comércio global.
Para um governo comprometido com crescimento, reindustrialização e estabilidade de preços, uma guerra prolongada no Golfo representa risco concreto. Quando o eixo energético do planeta entra em convulsão, os efeitos se espalham por inflação importada, encarecimento de insumos e maior instabilidade nos mercados internacionais.
Há ainda uma dimensão política mais profunda nesse episódio. O assassinato seletivo de autoridades de um Estado soberano, fora de qualquer moldura séria de direito internacional, consolida uma lógica de exceção permanente em que Israel e os Estados Unidos se arrogam o direito de redesenhar a ordem regional pela força.
Esse padrão já foi visto em outros teatros de guerra patrocinados ou estimulados por Washington. A diferença é que, no caso iraniano, o alvo é uma potência regional com capacidade de resposta, densidade estatal e peso geoeconômico muito superiores aos de países devastados por intervenções anteriores.
A insistência em enfraquecer o Irã por meio de assassinatos e ataques cirúrgicos amplia o risco de uma conflagração ainda maior. Também fortalece, no Sul Global, a percepção de que o chamado "sistema internacional baseado em regras" vale apenas quando serve aos interesses do eixo atlântico.
Quando aliados dos Estados Unidos bombardeiam, matam dirigentes e expandem a guerra, a reação das potências ocidentais costuma ser complacente ou justificadora. Quando países fora desse eixo reagem ou se defendem, o enquadramento muda imediatamente e a linguagem da legalidade reaparece de forma seletiva.
Esse duplo padrão ajuda a explicar por que o Irã se tornou, para muitos países do Sul Global, um símbolo de resistência à ordem imperial. Isso não exige ignorar as contradições internas do país, mas reconhecer o lugar objetivo que Teerã ocupa numa correlação internacional marcada por cerco, sanções, sabotagem e guerra híbrida.
A ofensiva contra o Irã também deve ser lida no contexto mais amplo da disputa por multipolaridade. Enfraquecer Teerã interessa a uma arquitetura regional subordinada aos interesses estratégicos de Washington, ao controle das rotas energéticas e à contenção de arranjos alternativos que aproximem Ásia Ocidental, Rússia, China e os países emergentes.
Para o Brasil, essa conjuntura reforça a importância de uma política externa soberana, baseada no multilateralismo, na defesa do direito internacional e na recusa a aventuras militares travestidas de combate ao "terror". O país tem interesse direto em um mundo menos submetido à lógica da guerra preventiva e mais orientado por negociação, equilíbrio regional e cooperação entre polos.
Se a morte de Tangsiri for confirmada por Teerã, o episódio marcará mais um degrau na escalada. Se não for confirmada, já terá servido como instrumento de pressão psicológica e propaganda de guerra.
Em ambos os casos, o fato central permanece. Israel está ampliando sua campanha de assassinatos seletivos contra a estrutura do Estado iraniano, com respaldo político dos Estados Unidos, e empurrando a região para um patamar ainda mais perigoso de instabilidade.
Num momento em que o mundo já convive com guerras prolongadas, crise climática e desaceleração econômica, abrir mais uma frente de caos no eixo energético do planeta é uma irresponsabilidade histórica. E o preço dessa escalada, como quase sempre, tende a ser pago muito além do campo de batalha.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos