Nos Estados Unidos, até o coração do setor de tecnologia já discute quem deve pagar pelos custos sociais da automação.
A inteligência artificial começou a produzir um efeito político novo nos Estados Unidos: a cobrança para que a infraestrutura dessa revolução pague parte da conta social.
Em Washington, o senador democrata Mark Warner defendeu taxar centros de dados usados pela indústria de inteligência artificial para financiar requalificação profissional e compensar comunidades atingidas.
A proposta ainda não virou projeto de lei, mas já expõe uma mudança decisiva no debate sobre a nova tecnologia.
Segundo relato publicado pelo TechCrunch, Warner afirmou que o medo da perda de empregos por causa da inteligência artificial já é visível nos bastidores do setor. O senador disse ter ouvido de investidores e de escritórios de advocacia que ferramentas recentes já estão alterando decisões de contratação e reduzindo o valor esperado de alguns negócios de software.
O pano de fundo é um mercado de trabalho em transformação acelerada. Nos Estados Unidos, vagas de entrada encolheram fortemente desde 2023, enquanto gigantes de tecnologia promoveram demissões em massa e executivos do próprio setor passaram a admitir publicamente que a automação pode atingir funções antes consideradas protegidas.
O problema é especialmente sensível porque atinge a porta de entrada de profissões qualificadas. Quando um grande escritório deixa de contratar advogados iniciantes porque sistemas automatizados assumem tarefas antes delegadas aos novatos, o impacto não é apenas estatístico, mas estrutural sobre a formação de carreiras inteiras.
A ideia de Warner parte de um raciocínio direto. Se os centros de dados consomem energia, água, solo urbano e incentivos fiscais para alimentar sistemas que podem eliminar postos de trabalho, então parte da riqueza gerada por essa infraestrutura deveria retornar à sociedade de forma concreta.
Na visão do senador, o caminho mais simples seria tributar os próprios centros de dados. A arrecadação poderia bancar programas de qualificação, formação para novas ocupações e iniciativas de adaptação tecnológica para trabalhadores deslocados pela automação.
A proposta tenta responder a uma contradição cada vez mais evidente no capitalismo digital. A inteligência artificial é vendida como sinônimo de produtividade, inovação e competitividade nacional, mas seus ganhos privados podem vir acompanhados de custos públicos elevados.
Esses custos já aparecem em várias frentes. Comunidades próximas a grandes centros de dados reclamam de ruído, pressão sobre a rede elétrica, uso intensivo de água e impactos ambientais locais. O que antes era apresentado como símbolo de modernização passou a ser visto, em muitos casos, como fonte de desgaste cotidiano.
Além disso, muitos desses empreendimentos recebem generosos benefícios tributários. Em alguns estados norte-americanos, a conta das isenções chega a bilhões de dólares por ano, o que aprofunda a percepção de que o setor recebe incentivos públicos enquanto socializa efeitos negativos. A combinação entre subsídio estatal e impacto local ajuda a alimentar a resistência política.
Warner rejeita uma moratória para barrar novos centros de dados, proposta por outros parlamentares. Para ele, interromper essa expansão abriria espaço para a China avançar ainda mais rápido em uma disputa tecnológica considerada estratégica. Sua posição tenta equilibrar duas pressões que hoje convivem em tensão: a corrida geopolítica por capacidade computacional e a necessidade de preservar alguma legitimidade social interna.
Esse ponto merece atenção especial do público brasileiro. A corrida da inteligência artificial não é apenas uma disputa entre empresas privadas, mas uma competição geopolítica por capacidade computacional, domínio de chips, energia abundante, redes de dados e soberania tecnológica. Quem controla a infraestrutura controla também parte decisiva do poder econômico e político do século.
Nesse terreno, a China saiu na frente em vários segmentos industriais e vem articulando sua estratégia com forte coordenação estatal. Os Estados Unidos tentam preservar sua primazia tecnológica, mas enfrentam um problema interno cada vez mais visível: como sustentar politicamente uma transformação que concentra riqueza, pressiona infraestrutura e ameaça empregos. A fala de Warner mostra que parte do establishment norte-americano já percebeu o tamanho desse risco.
Se a população enxergar a inteligência artificial apenas como uma máquina de cortar vagas, elevar tarifas de energia e enriquecer plataformas gigantes, a reação tende a crescer. Segundo pesquisa citada pelo TechCrunch, a imagem pública da inteligência artificial nos Estados Unidos já é bastante negativa. Isso ajuda a explicar por que os centros de dados, antes celebrados como sinal de futuro, passaram a ser alvo de desconfiança popular.
Warner argumenta que essa resistência pode ser reduzida se houver benefício palpável para as comunidades. Um exemplo mencionado por ele vem do estado da Virgínia, onde receita tributária ligada a um centro de dados ajudou a impulsionar um projeto de moradia acessível. A lógica é simples: se a infraestrutura digital se instala em um território, consome recursos locais e altera o mercado de trabalho, ela precisa deixar algum legado social mensurável.
Esse debate interessa diretamente ao Brasil. O país discute atração de investimentos em centros de dados, expansão de energia renovável e inserção na economia digital, mas ainda precisa formular com mais clareza qual será a contrapartida exigida dessas operações. Sem planejamento público, o risco é reproduzir uma velha fórmula periférica, na qual o território oferece energia, água, incentivos e mercado, enquanto o valor estratégico, a propriedade intelectual e os ganhos mais altos ficam concentrados em poucas corporações estrangeiras.
É esse o ponto central da discussão. Não basta celebrar a chegada da inteligência artificial como se ela fosse um fenômeno neutro e inevitável. Toda tecnologia vem embutida em relações de poder, estruturas produtivas e escolhas distributivas, e a infraestrutura que a sustenta nunca é politicamente inocente.
Tributar centros de dados para financiar requalificação não resolve sozinho o problema da automação. Mas a proposta tem o mérito de recolocar o Estado no centro do debate e de afirmar que a transição tecnológica não pode ser bancada apenas por trabalhadores e comunidades. Para países do Sul Global, a lição é ainda mais importante, porque a disputa por inteligência artificial exigirá soberania energética, política industrial, formação científica e regulação pública capaz de impedir que a nova infraestrutura digital funcione como mais um mecanismo de extração.
A discussão aberta nos Estados Unidos indica que até o coração do capitalismo tecnológico já sente o peso social da nova corrida computacional. Quando um senador passa a defender que os centros de dados paguem pela ruptura que ajudam a produzir, é sinal de que a promessa da inteligência artificial começou a encontrar seu limite político. A pergunta agora não é apenas quão poderosa essa tecnologia será, mas quem vai controlar seus benefícios e quem será chamado a pagar seus prejuízos.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos