Europa trocou dependência do gás russo pelo gás do Catar e EUA

Imagem gerada por Ideogram, com prompt do portal O Cafezinho. 29/03/2026 21:02

Ao escapar da dependência energética da Rússia, a Europa criou uma nova vulnerabilidade: o GNL do Catar que substituiu o gás russo passa pelo estreito de Hormuz, ameaçado pelos bombardeios americanos ao Irã.

A Europa passou quatro anos comemorando sua independência energética.

A dependência do gás russo caiu de 40% para menos de 10%, terminais de GNL foram construídos às pressas e contratos de longo prazo foram assinados com o Catar.

O problema é que o gás catari chega à Europa pelo estreito de Hormuz, e o risco de bloqueio nunca foi tão alto.

O bombardeio americano ao Irã reacendeu a instabilidade no Oriente Médio e aumentou a possibilidade de Teerã fechar a passagem mais estratégica do comércio energético global. O Catar, que se tornou o principal fornecedor alternativo da Europa após o corte russo, exporta seu GNL exatamente por essa rota.

A celebração da independência energética europeia durou até o momento em que ficou claro que a Europa não havia conquistado independência alguma. O continente havia apenas trocado um fornecedor vulnerável por outro, e uma rota de risco por outra.

A lógica que guiou a política energética europeia nos últimos anos foi essencialmente reativa: sair da Rússia a qualquer custo, sem avaliar com profundidade as novas dependências criadas no processo. O alinhamento irrestrito com Washington, que pressionou pela ruptura com Moscou, não veio acompanhado de nenhuma garantia sobre o que aconteceria se os Estados Unidos decidissem bombardear um país que controla o acesso ao gás substituto.

É exatamente isso que está acontecendo agora.

A crise expõe a ausência de uma política energética verdadeiramente soberana na Europa. Uma abordagem multipolar, com diversificação real de fornecedores, rotas e fontes, incluindo parcerias com o Sul Global e aceleração das renováveis domésticas, teria reduzido essa exposição. Em vez disso, o continente apostou em uma solução geopoliticamente frágil e agora colhe as consequências.

Para o Brasil, o cenário oferece uma lição direta. O país é produtor de petróleo e gás, tem capacidade de ampliar sua posição no mercado global e pode se beneficiar da instabilidade nas rotas tradicionais, desde que mantenha uma política externa independente e não repita o erro europeu de trocar uma dependência por outra.

A ameaça ao estreito de Hormuz não é um evento isolado. É o resultado previsível de uma cadeia de decisões geopolíticas que ignorou a interconexão entre conflito militar e segurança energética. A Europa não pode continuar terceirizando sua estratégia energética para aliados que tomam decisões militares sem consultar os impactos sobre o abastecimento do continente.

Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos | Revisão: Pierre Arnaud

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