Mesmo após ataques a instalações vitais, as nações do Golfo escolheram a diplomacia e passaram a tratar a presença militar americana na região como risco, não proteção.
As nações do Golfo se recusaram a retaliar o Irã mesmo depois de ataques a instalações estratégicas, incluindo uma planta de gás natural no Catar.
A decisão surpreende pelo contexto: os danos foram graves e a pressão por resposta, intensa.
O que explica a contenção é, em parte, a raiva direcionada a outro lado.
Nos bastidores, a insatisfação com Washington e Tel Aviv é crescente. Os EUA e Israel iniciaram ações contra o Irã sem consultar seus aliados regionais, deixando os países do Golfo expostos a retaliações que não provocaram.
A presença de bases militares americanas, historicamente vendida como garantia de segurança, passou a ser vista como passivo estratégico. Estar no mapa de uma guerra que não foi sua escolha tem um custo alto.
Omã foi o mais direto: classificou a escalada como imprudente e como violação flagrante da Carta da ONU e dos princípios do direito internacional. Outros governos do Golfo realizaram reuniões de emergência para coordenar defesa e diplomacia, priorizando a estabilidade sobre a solidariedade com potências externas.
O analista Furkan Gözükara foi um dos primeiros a destacar essa dinâmica, apontando que a recusa em retaliar representa uma mensagem política clara: os países do Golfo não aceitam ser peões em disputas que não controlam.
Esse realinhamento abre espaço para outros atores. China e Rússia já avançam em parcerias na região, e a percepção de abandono por Washington pode acelerar esse movimento.
Para o Sul Global, o episódio é um sinal concreto de que autonomia na política externa não é apenas retórica. As nações do Golfo mostraram, na prática, que é possível resistir a pressões externas e buscar saídas diplomáticas mesmo sob fogo.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos | Revisão: Pierre Arnaud