A criação de um sistema próprio de pagamentos pelos países do BRICS deixou de ser apenas uma proposta técnica e passou a representar um movimento estratégico com impacto direto na geopolítica mundial. O objetivo é claro — e cada vez mais explícito: reduzir a dependência do dólar e enfraquecer a hegemonia financeira dos Estados Unidos.
Segundo análise publicada pelo Brasil 247, especialistas apontam que o avanço do chamado BRICS Pay é uma peça central nesse processo de transformação do sistema monetário internacional.
O que está em jogo: mais do que tecnologia, poder
O projeto não se resume a um novo meio de pagamento.
Na prática, trata-se da construção de uma infraestrutura financeira paralela ao sistema dominado pelo Ocidente, especialmente ao dólar e à rede SWIFT, hoje responsável pela maior parte das transações globais.
O BRICS Pay foi concebido justamente para permitir que países realizem transações diretamente em suas moedas nacionais, sem precisar passar pela conversão em dólar.
Isso muda completamente a lógica do sistema atual.
Hoje, mesmo quando dois países não têm relação direta com os EUA, muitas operações comerciais passam pelo dólar — o que dá aos americanos enorme poder econômico e político, inclusive com uso de sanções.
Desdolarização deixa de ser discurso
O que antes era visto como uma ideia distante agora ganha forma concreta.
O sistema do BRICS permite, por exemplo, que um pagamento entre Brasil e China seja feito em reais e yuans, sem intermediários ocidentais. (Band)
Além disso, a plataforma pode operar com tecnologia descentralizada, baseada em blockchain, e integrar sistemas nacionais como o Pix brasileiro, o UPI indiano e outros. (Sindicomis)
Na prática, isso significa:
- menos custos nas transações
- maior velocidade nos pagamentos
- mais autonomia para países emergentes
- e, principalmente, menos dependência do dólar
O impacto geopolítico é direto
A criação desse sistema não é neutra.
Ela surge em um contexto de crescente tensão global, sanções econômicas e disputa por influência. Países como Rússia e Irã, por exemplo, já enfrentam restrições no sistema financeiro tradicional — o que acelerou a busca por alternativas.
Nesse cenário, o BRICS Pay funciona como uma resposta estratégica.
Ele reduz a vulnerabilidade desses países e fortalece a ideia de um mundo multipolar, onde diferentes blocos econômicos possuem suas próprias estruturas financeiras.
Um “Pix global” que incomoda Washington
O projeto já vem sendo chamado de uma espécie de “Pix internacional”, mas com um efeito político muito maior.
A possibilidade de realizar transações globais sem passar pelo dólar incomoda diretamente os Estados Unidos, porque atinge um dos pilares da sua influência global: o controle do sistema financeiro internacional.
E esse movimento não é isolado.
Ele acompanha o crescimento econômico e tecnológico dos países do BRICS, que ampliam sua participação no comércio global e passam a exigir maior protagonismo.
Caminho ainda em construção, mas sem volta
Especialistas destacam que o sistema ainda enfrenta desafios técnicos, regulatórios e políticos. A integração entre países com estruturas diferentes exige tempo e coordenação.
Mas a direção já está definida.
O lançamento previsto para os próximos anos e os testes em andamento mostram que o projeto saiu do papel e entrou em fase real de implementação.
Um novo eixo financeiro global
O avanço do sistema de pagamentos do BRICS representa mais do que inovação.
É um movimento que aponta para uma mudança estrutural na economia global.
A desdolarização, antes tratada como hipótese, passa a ser construída na prática — passo a passo, sistema por sistema, transação por transação.
E, se esse processo continuar avançando, o resultado pode ser histórico:
o fim de um sistema financeiro dominado por uma única moeda — e o nascimento de uma ordem verdadeiramente multipolar.