Em um movimento que ecoa as tensões políticas que precedem o ciclo eleitoral de 2026, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, declarou publicamente que seu primeiro ato como eventual presidente da República seria conceder anistia a Jair Bolsonaro. A afirmação, divulgada inicialmente pelo jornal Estado de Minas, não é apenas um aceno à base mais radicalizada do eleitorado de direita, mas uma perigosa sinalização sobre o arcabouço da justiça e da responsabilidade política em um país que ainda tenta se reerguer dos abalos institucionais recentes.
A proposta de anistia para Bolsonaro desconsidera o complexo emaranhado de investigações e processos que pesam contra o ex-presidente, abrangendo desde a gestão da pandemia até os ataques diretos às instituições democráticas, culminando nos lamentáveis eventos de 8 de janeiro. Ao prometer tal medida, Caiado não apenas tenta capitalizar sobre o sentimento de perseguição que parte da direita nutre por Bolsonaro, mas subverte a lógica da accountability, princípio fundamental para qualquer democracia saudável. A institucionalidade democrática exige que todos os cidadãos, independentemente de sua posição, respondam por seus atos perante a lei, e relativizar essa premissa é abrir um precedente nefasto para a impunidade.
Do ponto de vista progressista, que advoga pela reconstrução do pacto civilizatório e pelo fortalecimento das instituições fragilizadas durante o período bolsonarista, a anistia surge como um antípoda da justiça. O governo Lula tem se empenhado em restaurar a credibilidade das políticas públicas, o respeito às normas democráticas e a estabilidade das relações entre os poderes, um trabalho minucioso que visa reparar os danos de uma gestão que sistematicamente deslegitimou a ciência, a imprensa e o próprio sistema eleitoral. Propostas como a de Caiado, contudo, ameaçam desestabilizar essa recuperação, realçando uma clivagem ideológica que instrumentaliza a justiça para fins políticos.
A proximidade das eleições de 2026 torna essa declaração ainda mais estratégica e preocupante. Caiado busca se posicionar como um sucessor natural de uma corrente política que ainda exerce forte influência, mesmo com seu líder inelegível e juridicamente pressionado. Essa movimentação, no entanto, coloca em xeque a seriedade do debate público. Em vez de discutir soluções para os desafios reais do país – como o combate à fome, a retomada do crescimento econômico inclusivo e o avanço em pautas sociais e ambientais –, somos levados a um cenário onde a proteção de figuras envolvidas em graves controvérsias jurídicas se torna um item central da plataforma eleitoral. É um claro desdém para com a necessidade de um Brasil que olhe para frente, com respeito à lei e à memória dos ataques sofridos.
É imperativo que a opinião pública nacional compreenda as implicações profundas de um gesto como a anistia. Ele não representa um ato de pacificação, mas sim de validação da irresponsabilidade e da relativização do Estado de Direito. A reconstrução do Brasil sob uma ótica progressista passa inevitavelmente pela afirmação da justiça, pela punição dos desmandos e pela garantia de que nenhum líder, por mais popular que seja, esteja acima da lei. O futuro do país nas urnas de 2026 se desenha também a partir da capacidade da sociedade de discernir entre a retórica da impunidade e o compromisso inegociável com a democracia plena.