Por Sara Goes
Ao comentar a situação de Luizianne Lins, Lula inverte o sentido do conflito político no estado, tratando como excesso a resposta de quem reage a um método histórico de imposição de força associado a Ciro Gomes
Hoje é 1º de abril, e eu gostaria de poder tratar como pegadinha o que ouvi do presidente Lula antes de ele seguir para a Vila União, onde foi visitar as obras do ITA. Em entrevista à jornalista Bianca Saraiva, ele disse que Luizianne Lins “tem tudo no partido que ela quis” e que “tem gente que acha que tem o direito de ser tudo a toda hora”, acrescentando que é preciso fazer “sacrifício” para garantir alianças.
Eu queria poder fingir que entendi errado. Que foi uma frase mal encaixada, que o contexto corrigiria o sentido. Não corrige. O que está acontecendo no Ceará não cabe nessa explicação.
Em 2024, o método de escolha da candidatura em Fortaleza foi alterado. As prévias deram lugar a um encontro de delegados, e a candidatura de Luizianne foi retirada minutos antes da votação. Vieram depois denúncias de pressão interna, questionamentos sobre o processo e, no PED de 2025, a derrota organizada do campo político ao qual ela pertence, acompanhada de acusações de interferência. Não é um episódio isolado. É uma sequência coerente.
Ao mesmo tempo, o partido abriu espaço para novas filiações e reorganizou suas posições de modo a reduzir o peso de lideranças que ajudaram a construir o próprio PT no estado. O efeito disso não é abstrato. Ele aparece agora, encadeado, sem precisar de explicação adicional. Luizianne passou a negociar sua saída, Larissa Gaspar buscou diálogo fora do partido para viabilizar sua reeleição, Liliane Araújo deixou a sigla e tentou se reposicionar, e Deodato Ramalho, filiado desde 1987, formalizou sua desfiliação junto com a saída de um cargo público. Nada disso combina com a ideia de alguém que quer “ser tudo”. Combina com um ambiente que deixou de ser reconhecido como espaço de disputa legítima.
Há, no entanto, um ponto concreto que não pode ser diluído em abstração. A insatisfação de Luizianne não nasce apenas de um ambiente hostil, mas de uma disputa objetiva: a exclusão de seu nome da construção da candidatura ao Senado em 2026. E aqui o problema se torna ainda mais evidente, porque não se trata de uma pretensão frágil. Luizianne aparece com cerca de 26,9% das intenções de voto em pesquisas recentes, à frente de outros nomes do próprio campo governista. Não é alguém reivindicando espaço sem lastro. É alguém competitivo sendo politicamente contornada.
Ao mesmo tempo, a trajetória de Luizianne segue sendo reconhecida fora desse circuito interno. A homenagem recebida na Assembleia Legislativa do Ceará, no contexto do pacto contra o feminicídio, expõe essa contradição com nitidez: o reconhecimento público convive com o isolamento político dentro do próprio partido.
É nesse ponto que a fala de Lula faz doer. Quando ele fala em sacrifício, parte do pressuposto de que existe um acordo coletivo sendo preservado, um pacto mínimo que organiza a disputa interna. No Ceará, o que está em questão é o contrário. Não é o sacrifício que está sendo recusado, é o próprio terreno onde esse sacrifício faria sentido.
O que se consolidou não é apenas uma reorganização interna do partido, mas a incidência de um método político que não nasce no PT. Um método que atravessa a história recente do estado e que tem nos Ferreira Gomes, especialmente em Ciro Gomes, sua expressão mais acabada. Um modo de operar que transita entre campos, recompõe alianças e reorganiza forças para manter centralidade. Esse método não atua só por fora. Ele se infiltra, reconfigura o interior dos partidos e passa a redefinir as regras da disputa. O camilismo, nesse sentido, não é origem, mas atualização dessa lógica dentro do PT.
O efeito é direto. A política deixa de se organizar por projetos e passa a operar por rearranjos, em que esquerda, centro e direita viram posições circunstanciais dentro de um mesmo movimento de poder. É aí que a ideia de sacrifício perde sentido. Sacrifício pressupõe acordo. O que está em curso é uma recomposição que desloca, esvazia ou absorve quem não se encaixa.
Por isso a reação não nasce de quem se recusa a ceder espaço. Nasce quando o espaço deixa de ser reconhecido como legítimo, quando a disputa deixa de ser aberta e passa a ser administrada.
É nesse ponto que a leitura de Lula se inverte. Não é o excesso de quem reage que explica o conflito. É o próprio processo que torna a reação inevitável.
E há algo mais que não pode ser tratado como detalhe. A violência que o PT do Ceará sofre de “forças destemperadas” talvez seja maior do que a pressão que Lula enfrenta na construção de alianças nacionais. Aqui não se trata de negociar com adversários para governar, mas de lidar com um processo interno que vem repelindo quem construiu o partido e abrindo espaço para quem não tem vínculo com essa trajetória.
Quando Lula afirma que Luizianne Lins “teve tudo o que quis”, sua trajetória é tratada como concessão. Isso apaga justamente o que há de mais estruturante nela: o fato de que esse lugar foi construído em condições adversas, com base social, enfrentamento e permanência quando era mais difícil sustentar o próprio nome do partido.
Luizianne foi prefeita de Fortaleza por dois mandatos, entre 2005 e 2012, e realizou uma gestão que, à época, foi criticada por estar de costas para a orla e de frente para a periferia, reorganizando prioridades e produzindo tecnologias de políticas sociais comparáveis apenas a experiências como a de Luiza Erundina em São Paulo, entre 1989 e 1992; esse projeto foi sustentado justamente a partir de 2005, no auge do “Escândalo do Mensalão”, quando o PT enfrentava um cerco político e midiático intenso, o que, no Ceará, se traduziu em isolamento institucional, pressão constante e enfrentamento direto, inclusive dentro do próprio partido e diante das forças organizadas em torno dos Ferreira Gomes.
Nada disso foi feito em ambiente de conforto. Ao contrário. Foi um processo marcado por enfrentamento direto à imprensa local, resistência dentro do próprio partido e tensão permanente com o campo político organizado em torno dos Ferreira Gomes. Um percurso solitário em muitos momentos, sustentado mais por base social do que por proteção institucional. Esse tipo de trajetória não se explica por concessão e sim por luta.
E esta luta que desaparece quando Lula reduz a história à ideia de alguém que “teve tudo o que quis”. Porque o que está ali é alguém que seguiu sendo pressionada, isolada e enfrentada, inclusive quando seria mais fácil sair. Ao ignorar esse percurso, Lula não apenas simplifica. Ele transforma uma das trajetórias mais consistentes de lealdade e enfrentamento dentro do PT em uma caricatura de insatisfação individual.
Eu gostaria que fosse apenas uma frase mal colocada, um excesso de simplificação, algo que o tempo corrigisse sozinho. Mas não parece ser o caso. Há uma máxima antiga que ajuda a ler melhor esse momento: a política ama a traição e odeia o traidor.
E talvez seja exatamente isso que esteja em jogo. Porque Luizianne Lins não é o exemplo de quem quis tudo e não aceitou limites. É, ao contrário, um dos maiores exemplos de fidelidade partidária no Ceará. Permaneceu, sustentou, enfrentou e continuou, inclusive quando foi sendo sistematicamente diminuída e, ao contrário do que se afirma, nunca teve tudo o que quis.
É essa permanência que passa a incomodar, porque expõe, por contraste, o tipo de rearranjo que vem sendo feito. Não se trata de quem quer ser tudo, mas de quem, mesmo aceitando não ser, segue sendo tratado como excesso apenas por existir com densidade política própria.
Se Lula erra, não é por desconhecimento. É por leitura. E o que ainda resta entender é por que essa leitura insiste em enquadrar como problema justamente quem, até aqui, foi a expressão mais evidente de lealdade ao partido.