O tenente-coronel Ibrahim Traoré, líder militar de Burkina Faso, reforçou em discurso recente que a democracia não é prioridade para o país neste momento. Em declaração transmitida pela televisão estatal, Traoré afirmou que a segurança e a estabilidade nacional devem prevalecer sobre processos democráticos enquanto Burkina Faso enfrenta uma crise de violência jihadista que já deixou milhares de mortos e deslocou mais de dois milhões de pessoas, segundo dados da ONU.
Traoré, que assumiu o poder após um golpe de Estado em setembro de 2022, destacou que o foco do governo é combater grupos extremistas ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico, que controlam vastas áreas do território burquinense. ‘Esqueçam a democracia por enquanto. O que precisamos agora é de segurança e unidade para derrotar o terrorismo’, declarou o líder militar, consolidando a postura autoritária adotada desde a tomada do poder pelos militares.
A fala de Traoré ocorre em um contexto de crescente insatisfação popular com a incapacidade de governos anteriores em conter a violência. Desde o golpe, o governo suspendeu a Constituição, fechou fronteiras e criou grupos de autodefesa civil, conhecidos como Voluntários para a Defesa da Pátria (VDP). Essas medidas, embora apoiadas por parte da população exausta com a instabilidade, têm gerado críticas de organizações internacionais, que alertam para o risco de abusos e violações de direitos humanos.
A comunidade internacional reagiu de forma dividida às declarações de Traoré. Enquanto países como Mali e Níger, que também vivem sob governos militares após golpes recentes, demonstraram apoio à postura de Burkina Faso, organizações como a União Africana (UA) e a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) criticaram duramente a declaração. A CEDEAO, que já impôs sanções econômicas a Burkina Faso após o golpe de 2022, viu sua influência na região diminuir após a saída de Burkina Faso, Mali e Níger do bloco em janeiro de 2025, quando os três países formaram a Aliança dos Estados do Sahel (AES).
Analistas internacionais apontam que a declaração de Traoré reflete uma tendência crescente no Sahel, onde golpes militares têm se multiplicado nos últimos anos. Países como Mali, Níger e Chade também vivem sob governos transitórios liderados por militares, que justificam suas ações como necessárias para combater a instabilidade e o terrorismo. No entanto, críticos alertam que a militarização do poder pode agravar ainda mais as crises humanitárias e políticas na região, além de enfraquecer instituições democráticas já fragilizadas.
Burkina Faso, um dos países mais pobres do mundo, enfrenta não apenas a ameaça jihadista, mas também uma crise econômica agravada pela pandemia de Covid-19 e pela alta nos preços dos alimentos e combustíveis. A população, embora apoie medidas duras contra o terrorismo, demonstra preocupação com a falta de perspectivas para um retorno à democracia. Desde o golpe, o país tem registrado aumento na censura, perseguição a opositores políticos, jornalistas e ativistas, levantando alertas de organizações como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch.
Traoré também reforçou a cooperação militar com Mali e Níger, países que, junto com Burkina Faso, formam a Aliança dos Estados do Sahel (AES). A aliança, criada em 2023, visa fortalecer a segurança regional e reduzir a dependência de forças estrangeiras. ‘Estamos unidos contra o terrorismo e contra qualquer interferência externa que tente desestabilizar nossos países’, afirmou o líder militar, em uma referência velada à presença de tropas francesas e da ONU na região, frequentemente criticadas pelos governos militares do Sahel.
A França, antiga potência colonial na região, anunciou em 2023 a retirada de suas tropas de Burkina Faso após uma série de tensões diplomáticas. O governo de Traoré acusou Paris de apoiar grupos terroristas e interferir nos assuntos internos do país, acusações que a França nega veementemente. A saída das tropas francesas foi celebrada por parte da população, que vê a presença estrangeira como uma forma de neocolonialismo.
A situação em Burkina Faso é um reflexo das complexas dinâmicas políticas e securitárias que assolam o Sahel. Enquanto a comunidade internacional debate como lidar com a crise, a população local continua a enfrentar violência, deslocamento forçado e uma crescente incerteza sobre o futuro. A declaração de Traoré, ao descartar a democracia como prioridade, reforça a ideia de que a região está entrando em uma nova fase de governança, onde a segurança é colocada acima dos direitos civis e das instituições democráticas.
Fonte: G1 e agências internacionais.