No dia 16 de março, China e Vietnã formalizaram em Hanói um novo mecanismo de cooperação em segurança denominado ‘3+3’, que expande o tradicional formato bilateral ‘2+2’ — restrito a ministérios de defesa e relações exteriores — com a inclusão de um terceiro pilar institucional: a segurança pública. A iniciativa representa o mais ambicioso esforço de coordenação estruturada entre os dois países em décadas e sinaliza uma aposta deliberada na estabilidade regional em meio a um ambiente geopolítico crescentemente volátil.
O novo formato reúne diplomatas, militares e autoridades de segurança interna dos dois lados em uma única plataforma de diálogo. Segundo análise publicada pelo The Diplomat, a decisão de incluir a segurança pública reflete o reconhecimento mútuo de que ameaças como cibercrime, fraudes em telecomunicações e tráfico de drogas já não se encaixam nas categorias convencionais de defesa ou diplomacia.
Essas ameaças transitam entre o doméstico e o internacional, exigindo coordenação interministerial. Na reunião de 16 de março, os delegados concentraram os trabalhos em temas operacionais concretos: esforços conjuntos contra fraudes em telecomunicações, coordenação no controle de entorpecentes, repatriação de fugitivos, recuperação de ativos ilícitos e aprimoramento do compartilhamento de informações sobre segurança de dados, riscos energéticos e questões ambientais transfronteiriças.
A pauta, deliberadamente técnica, evitou os temas mais sensíveis da relação bilateral — em especial as disputas territoriais no Mar do Sul da China — priorizando o que os dois governos chamam de ‘cooperação prática’. Autoridades vietnamitas descreveram publicamente a relação com Pequim como uma ‘prioridade máxima’ e uma ‘necessidade objetiva’, formulação que reflete a doutrina de política externa do Vietnã, baseada em independência e diversificação de parcerias.
Há também um cálculo geográfico e econômico incontornável: a China é o maior parceiro comercial de Hanói, e as cadeias produtivas entre os dois países estão profundamente integradas. Ignorar ou confrontar diretamente Pequim seria, na avaliação vietnamita, economicamente suicida.
Do lado chinês, representantes do governo vincularam o novo mecanismo a estruturas multilaterais mais amplas, citando a cooperação China-ASEAN, a iniciativa Lancang-Mekong — que envolve os países do baixo Mekong — e o BRICS como redes complementares ao fortalecimento bilateral. Autoridades chinesas chegaram a enquadrar a cooperação como expressão da resiliência dos modelos de governança socialista diante de pressões externas, adicionando uma dimensão ideológica explícita ao que poderia parecer mera coordenação técnica.
O lançamento do ‘3+3’ ocorre em um momento de tensões elevadas no Indo-Pacífico, com a questão de Taiwan no centro das disputas entre Washington e Pequim e o Japão acelerando sua reconfiguração militar. Nesse contexto, a escolha de China e Vietnã por aprofundar a coordenação institucional carrega um peso simbólico considerável. Ambos os países têm histórico de conflito direto: a guerra de fronteira de 1979 deixou cicatrizes que ainda informam a desconfiança mútua, e incidentes periódicos no Mar do Sul da China continuam a testar os limites da relação.
A novidade do formato ‘3+3’ está precisamente na tentativa de institucionalizar canais de comunicação que reduzam o risco de mal-entendidos em um ambiente de alta tensão. O contato regular entre oficiais de três áreas distintas — diplomacia, defesa e segurança pública — cria rotinas de interlocução que funcionam como amortecedores antes que divergências pontuais se transformem em crises. É uma aposta na gestão preventiva do conflito, não na sua eliminação.
Se o modelo se mostrar funcional, analistas avaliam que ele pode influenciar a forma como outros países do Sudeste Asiático estruturam seus próprios diálogos com Pequim — especialmente à medida que os desafios de segurança não tradicionais, como ciberataques e crime organizado transnacional, ganham peso crescente nas agendas nacionais. Em um momento em que a política global parece se reorganizar em torno de blocos e lógicas de contenção, o diálogo ‘3+3’ entre China e Vietnã aponta para uma direção distinta: a de que vizinhança e rivalidade podem coexistir com cooperação estruturada, desde que ambos os lados tenham interesse suficiente em não deixar as diferenças consumirem o conjunto da relação.