Um estudo conduzido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com a Universidade do Sul da Dinamarca, demonstrou que a obesidade em pais pode impactar diretamente o metabolismo de seus descendentes, elevando o risco de pré-diabetes. Publicado na revista Nature Communications, a pesquisa identificou que alterações metabólicas são transmitidas por meio de marcas epigenéticas nos espermatozoides, mas que essas mudanças podem ser revertidas com a perda de peso antes da concepção.
Os experimentos começaram com camundongos, revelando que os filhotes de machos obesos, embora nascessem com peso dentro da normalidade, desenvolviam intolerância à glicose e resistência à insulina ao longo da vida. Essa condição, classificada pelos pesquisadores como uma disfunção metabólica discreta, é um indicativo precoce de diabetes tipo 2.
Os cientistas observaram que a perda de peso nos genitores eliminava essas marcas no sêmen, um resultado que também foi verificado em análises com humanos, reforçando a relevância dos achados para além do modelo animal.
Liderada pelo bioquímico Jan-Wilhelm Kornfeld, da Universidade do Sul da Dinamarca, e por Marcelo Mori, da Unicamp, a investigação apontou que os filhotes machos sofreram impactos mais severos, possivelmente por uma maior vulnerabilidade a desordens metabólicas em comparação com as fêmeas.
Durante os testes, os pesquisadores notaram que uma dieta rica em gorduras nos machos obesos desencadeava a presença de um microRNA específico, conhecido como let-7, tanto no tecido adiposo quanto nos espermatozoides. Esse microRNA interfere na produção da enzima DICER, crucial para a regulação genética, o que compromete o funcionamento das mitocôndrias e o metabolismo energético dos descendentes.
Para confirmar os resultados em humanos, o estudo avaliou 15 homens com obesidade severa. Após intervenções baseadas em mudanças no estilo de vida e reeducação alimentar, os níveis de let-7 no sêmen desses participantes diminuíram de forma significativa.
Embora a amostra seja limitada e demande estudos mais amplos para conclusões definitivas, os dados sugerem que a perda de peso pode mitigar os efeitos metabólicos transmitidos à prole. Kornfeld enfatizou que a saúde masculina tem reflexo direto na qualidade do esperma, alertando para os impactos de condições desequilibradas na saúde futura dos filhos.
Conforme destacou o portal Poder360, os achados reforçam a necessidade de hábitos saudáveis entre homens que planejam ter filhos, não apenas pelo bem-estar próprio, mas como uma medida de proteção às gerações seguintes. A pesquisa abre caminho para novas investigações sobre como fatores ambientais e de estilo de vida dos pais influenciam a saúde dos descendentes, um campo ainda em expansão na ciência epigenética.