Rua Sophia Gomide: memória histórica em disputa no espaço urbano

Imagem gerada por IA pelo Flux Pro (fal.ai), a partir de prompt do Cafezinho. 06/04/2026 05:22

Recentemente, um projeto de lei de autoria da vereadora Luna Zarattini (PT) e da Bancada Feminista (PSOL) propôs a mudança do nome de uma conhecida via paulistana, a Rua Peixoto Gomide, para Sophia Gomide. A justificativa é de reparação histórica, visto que o homenageado, o advogado e político da República Velha Francisco de Assis Peixoto Gomide Júnior (1849-1906), foi um feminicida, e sua filha Sophia, a vítima. É uma iniciativa louvável, que reflete avanços em nossa agenda de valores: a proposta questiona quem a cidade escolhe celebrar, e promove um ato de enfrentamento à violência contra a mulher, transformando o logradouro em um marco de conscientização e respeito à dignidade feminina.

Não tardaram a surgir resistências. A principal veio de um pesquisador independente e conhecido influencer, cujo argumento questiona se o nome da via de fato se refere a esse político. A homenagem poderia ser na verdade a seu pai e homônimo, morto em 1850, que também foi em seu tempo uma figura influente, como deputado federal no Império e como juiz de direito em Mogi das Cruzes. O argumento se ampara, sobretudo, na constatação de que o logradouro já era conhecido por esse nome em 1897, antes, portanto, da morte do filho, em 1906. Observa também a ausência do sufixo “Júnior” na denominação dada à rua. A mudança no nome da via poderia ser, portanto, “uma grande injustiça” com o verdadeiro homenageado.

A versão rapidamente ecoou: o questionamento foi noticiado em 23 de março de 2026 pelo jornal O Estado de S. Paulo e ganhou repercussão pública. Outro jornal importante, a Folha de S. Paulo, publicou em 25 de março que a proposta de renomeação “esbarra em controvérsia histórica”. A repercussão atingiu o Arquivo Histórico Municipal, responsável por gerenciar o Dicionário de Ruas, plataforma que registra a história dos nomes dos logradouros oficiais da cidade. O verbete relativo à Rua Peixoto Gomide, que até então associava o nome da via ao filho, foi prudentemente atualizado com a informação de que “não há consenso definitivo sobre quem é o verdadeiro homenageado”.

A falsa controvérsia, no entanto, não resiste a um pouco de bom senso e pesquisa documental. Em primeiro lugar, não é difícil constatar que, nos mais diversos documentos públicos em que o Peixoto Gomide filho aparece mencionado, mesmo naqueles anteriores à década de 1890, o sufixo “Júnior” nunca é usado. Esse padrão seguiu por toda a sua carreira política: seja na mídia, nas homenagens que recebeu ou em inúmeros documentos oficiais como atas, leis e transcrições de falas ou discursos, o político aparece chamado por “Francisco de Assis Peixoto Gomide” ou por “Dr. Peixoto Gomide”, forma mais comum que encontramos na pesquisa.

Em segundo lugar, ainda que pai e filho fossem homônimos, é preciso destacar que Peixoto Gomide sênior faleceu em 1850 e, com exceção de notas pontuais por ocasião de sua morte, não se encontram homenagens de destaque feitas a ele publicamente. O pai não teve, portanto, a mesma notoriedade do filho. Embora tenha sido deputado e juiz, é altamente improvável que sua figura fosse reabilitada quase cinco décadas após sua morte, para batizar um logradouro público.

Além disso, uma homenagem ao pai seria contraditória no fim do século 19, época em que o esforço era de apagar símbolos do Império e substituí-los por outros que representassem a República, como foi o caso em diversas ruas em São Paulo. A Rua do Imperador nessa época tornou-se Marechal Deodoro; a da Imperatriz, 15 de Novembro; a Rua da Princesa, Benjamin Constant; a do Príncipe, Quintino Bocaiuva. Nesse contexto, uma homenagem a um político do Império seria uma exceção extremamente implausível.

Por outro lado, Peixoto Gomide, o filho, estava no auge de sua carreira política quando a rua em questão foi aberta e nomeada. Entre 1896 e 1897, ocupou cargos de vice-presidente e presidente do Senado Estadual de São Paulo, e vice-presidente e presidente do Estado. Sua atuação política lhe rendia diversas homenagens, principalmente no interior de São Paulo. No município de Itapetininga, a recém-fundada Escola Normal ganhou o seu nome, além da Avenida Peixoto Gomide, que também recebeu uma estátua de Peixoto Gomide. Em Tatuí, em 1899, foi homenageado com um quadro, encomendado pela Câmara Municipal ao pintor Almeida Júnior e instalado na sala de sessões.

O fato de alguém estar vivo não só não era impedimento para que fosse homenageado com nome de rua, como era prática comum. Em 1897, como mostra anúncio no jornal A Nação, de 30 de dezembro, terrenos eram loteados na “Rua do Dr. Peixoto Gomide” e também em outras próximas, como a “Dr. Herculano de Freitas”: duas figuras vivas e muito atuantes na política paulista naquele ano.

Em resumo, os dados indicam de forma muito convincente que, de fato, a Rua Peixoto Gomide se refere ao filho e não ao pai. A nomeação da rua coincide com a época em que o filho estava no auge e recebia muitas homenagens espalhadas pelo estado, enquanto o pai era figura esquecida. A homenagem a um político do Império é muito implausível na década de 1890. Não havia norma que impedisse que o nome de um político vivo fosse dado a uma rua, o que era aliás prática comum. E o uso do sufixo Júnior é praticamente inexistente nas referências que o citam.

Mesmo com todas as evidências, a recente polêmica traz à luz a resistência de parcelas da sociedade que relutam em aceitar mudanças que ressignifiquem lugares de memória, mesmo que diretamente ligados a atos de violência. O questionamento à renomeação da via, além de não ter fundamentação adequada, não deve desencorajar projetos como este, visto que outros espaços levam nomes problemáticos quando vistos sob ótica contemporânea, como é o exemplo da Rua Moacir Piza, advogado e escritor que assassinou Nenê Romano a tiros, mas foi protegido e inocentado pela população que vilanizou a vítima à época.

Fonte: Jornal da USP.

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