Um estudo publicado na revista Science propõe que o sítio arqueológico de Monte Verde, no sul do Chile, possui idade bem mais recente do que se acreditava.
A pesquisa, liderada por Todd A. Surovell e Claudio Latorre com outros colaboradores, sugere que os vestígios do local datam de fato entre 8.200 e 4.200 anos atrás, situando a ocupação no Holoceno médio e não no Pleistoceno tardio, como defendia o consenso anterior, que atribuía ao sítio cerca de 14.500 anos.
A investigação, intitulada A mid-Holocene age for Monte Verde challenges the timeline of human colonization of South America, identificou uma camada de cinza vulcânica firmemente datada em aproximadamente 11.000 anos, posicionada abaixo dos sedimentos arqueológicos de Monte Verde II.
Essa sequência geológica impediria que os artefatos fossem mais antigos do que a própria cinza vulcânica. Os autores argumentam ainda que amostras de madeira e carvão empregadas nas datações antigas podem ter sido transportadas por erosão do córrego Chinchihuapi e misturadas a camadas mais novas — fenômeno conhecido como madeira antiga —, o que comprometeria as estimativas anteriores de ocupação humana.
Segundo o estudo, divulgado pelo portal EurekAlert, as implicações dessa nova cronologia são significativas. Monte Verde representava uma das principais evidências de presença humana pré-Clovis e sustentava hipóteses de migração costeira ao longo do Pacífico muito antes da dispersão da cultura Clovis.
Sem essa âncora, o debate sobre as rotas utilizadas pelos primeiros humanos para chegar às Américas volta a se intensificar — entre o corredor livre de gelo no interior do continente e os caminhos ao longo da costa.
A proposta enfrenta imediata resistência de arqueólogos que escavaram o sítio originalmente. Tom Dillehay, que liderou as primeiras investigações, destaca a abundância de evidências culturais — utensílios de madeira, vestígios de caça a mastodontes, estruturas de habitação e fogueiras — datadas diretamente em torno de 14.500 anos atrás.
Ele afirma que o novo trabalho não confrontou de forma adequada esses materiais culturais robustos e bem documentados.
Outros especialistas, como o geoarqueólogo Michael Waters, da Texas A&M University, e Jon Erlandson, da University of Oregon, questionam os métodos e a representatividade da amostragem utilizada.
Waters considera que a hipótese carece de suporte suficiente nos dados disponíveis, enquanto Erlandson observa que o estudo não comprovou que a camada de cinza vulcânica se estendesse diretamente sob os níveis arqueológicos escavados nas campanhas originais, que contavam com clara correlação estratigráfica e extensa documentação.
O novo trabalho baseou-se em datações por radiocarbono, análises de luminescência óptica e estudos detalhados de estratigrafia de sedimentos e tefra vulcânica para sustentar as estimativas que colocam a ocupação humana no local muito depois do fim da última era glacial.
Essa controvérsia não surpreende no campo da arqueologia, especialmente quando envolve um sítio tão influente quanto Monte Verde, cujos achados modificaram paradigmas sobre o povoamento inicial das Américas há aproximadamente cinco décadas.
A discussão científica gerada pelo artigo deve estimular novas escavações e análises independentes em Monte Verde e em outros sítios antigos. Pesquisadores de diferentes correntes concordam que apenas investigações adicionais, com métodos interdisciplinares, poderão esclarecer definitivamente a sequência de ocupação humana no sul do continente e refinar os modelos migratórios que explicam como os primeiros humanos colonizaram as Américas.
Com informações de phys.org.
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