Análise provocativa de Janan Ganesh sustenta que somente uma gestão desastrosa pode abrir caminho para reformas verdadeiras no Reino Unido
Andy Burnham assumiu o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido na última segunda-feira, 20 de julho, após ser recebido em audiência pelo rei Carlos III. O líder trabalhista, que sucede Keir Starmer – demissionário no mês passado – torna-se o sétimo ocupante do número 10 da Downing Street em apenas uma década.
Burnham chega ao poder com uma biografia que agrada a ala mais progressista do Partido Trabalhista. Ex-prefeito de Greater Manchester, cultiva uma imagem de “rei do Norte” e nunca escondeu suas críticas ao que chama de “neoliberalismo” e à centralização excessiva em Londres. O discurso de campanha prometia “um novo modelo político e económico” para o país.
Mas será que a esquerda britânica pode confiar nele? Essa é a pergunta que atravessa a análise do colunista Janan Ganesh, do Financial Times, publicada recentemente. E a resposta do articulista, confesso, surpreende.
O cenário otimista que Ganesh recusa
Ganesh começa pedindo ao leitor que considere uma possibilidade. Imagine que Burnham não seja tão esquerdista quanto aparenta. Imagine que ele fale como progressista, mas governe como centrista – ou até como centro-direita.
Nesse cenário, suas críticas ao “neoliberalismo” e a Londres funcionariam como uma cortina de fumaça. Elas dariam a ele a cobertura moral necessária para fazer cortes no bem-estar social sem perder o apoio da base. Os parlamentares trabalhistas, cansados de trocar de líder, cooperariam. Suas bandeiras – o combate à população em situação de rua, a descentralização administrativa – seriam baratas, no sentido de não custarem muito ao erário nem desafiarem o status quo.
O colunista evoca então os exemplos de Bob Hawke e Paul Keating, líderes trabalhistas australianos que desregulamentaram a economia nos anos 1980. Eles fizeram a esquerda se sentir confortável para adotar medidas consideradas heréticas. Burnham poderia repetir o truque. Anos depois, com a missão cumprida, ele se aposentaria para assistir aos jogos do Everton e ouvir New Order – deixando para trás uma nação “um pouco mais voltada para o mercado” do que quando a encontrou.
Por que torcer contra o próprio governo?
Se esse é o melhor cenário possível, por que Ganesh diz que espera que ele não se concretize? Por que o colunista do Financial Times torce abertamente para que o novo premiê fracasse?
A resposta é tão cínica quanto provocativa: porque, no fundo, as más ideias precisam ser testadas até a exaustão. O governo grande – pelo menos da forma como a Grã-Bretanha o implementa – é, na visão de Ganesh, uma má ideia. O país jamais resolverá o problema do Estado de bem-estar social, que prejudica empresas e a defesa nacional, enquanto não esgotar todas as alternativas.
Burnham seria a última alternativa que resta. Dê ao status quo mais uma chance sob o comando de um verdadeiro defensor do paternalismo orçamentário. Aí sim, os eleitores aceitarão a mudança.
O fantasma dos anos 1970 e a lição não aprendida
Ganesh recorre à história para justificar seu pessimismo. A década de 1970, lembra ele, foi exatamente assim. As ideias que hoje chamamos de Thatcherismo já circulavam havia algum tempo – tendo inclusive sido parcialmente propostas nas eleições de 1974. Mas foi preciso outra crise, outro fiasco governamental, para que os eleitores finalmente dissessem: “Basta!”.
As democracias ricas, argumenta o colunista, não se submetem a reformas dolorosas até que as circunstâncias as obriguem. E a Grã-Bretanha de hoje, com todos os seus problemas, não está nem perto de ser tão problemática quanto estava naquela época.
O melhor cenário sob o governo de Burnham – que ele se revele um pouco menos socialista do que alguns temem – implicaria mais anos de purgatório. Uma Grã-Bretanha que não é tão disfuncional a ponto de mudar, mas não tão funcional a ponto de ser feliz. O resultado muito mais “limpo”, na visão de Ganesh, seria um fracasso tão miserável e previsível que o sucessor de Burnham finalmente teria autorização para implementar reformas radicais.
Os números que assustam e o mantra do “neoliberalismo”
O colunista não poupa dados para sustentar seu argumento. A Grã-Bretanha não equilibra seu orçamento fiscal desde o início do milênio. O país já apresentava déficit na véspera da crise bancária de 2008, após uma década e meia de crescimento ininterrupto. Todas as regiões, com exceção de Londres e do Sudeste, apresentam déficit. O Estado de bem-estar social consome uma parcela maior da produção nacional do que antes de Thatcher.
O Reino Unido toma empréstimos a custos mais elevados do que a Grécia. Possui proporcionalmente mais moradias sociais do que a França ou a Alemanha. A carga tributária aumentou. De acordo com o cenário “base” do órgão fiscalizador britânico, a dívida líquida do setor público atingirá 300% do PIB na década de 2070.
E ainda assim, muita gente – incluindo Burnham – acredita que o problema seja algo chamado “neoliberalismo”. Ganesh classifica essa visão como “difícil de refutar, porque se trata menos de um argumento do que de uma espécie de mantra religioso”. Ótimo, diz ele. Então que Andy seja Andy: controle de preços, subsídios, talvez mais uma tentativa de “estratégia industrial” por parte de um Estado que não conseguiu construir uma linha ferroviária de alta velocidade de Birmingham a Manchester sem se envergonhar.
A dialética do fracasso: quando piorar é o único caminho para melhorar
Ganesh admite que sua visão pode soar mecânica, hegeliana – uma visão da história em que o status quo precisa ser levado ao extremo para desencadear seu oposto. Ele próprio reconhece, com certa ironia, que em breve começará a abordar estranhos no metrô com essa ideia: “Você não vê que a Grã-Bretanha está saindo do primeiro estágio da dialética de três estágios?”
Mas o colunista desafia o leitor a apontar um precedente. Qual é o exemplo de uma democracia rica que realizou reformas econômicas preventivas? Que nação já fez mudanças estruturais controversas – envolvendo vencedores e perdedores – para evitar uma crise, em vez de reagir a ela?
O sul da Europa precisou do pânico da zona do euro a partir de 2009 para fazer cortes nos gastos. Hawke, Keating, Thatcher e Reagan estavam reagindo à estagflação dos anos 1970. François Mitterrand, em 1983, reagia a um choque de mercado que ele mesmo havia criado.
A reforma, conclui Ganesh, só acontece quando é absolutamente necessária. Portanto: tente de novo, primeiro-ministro. Falhe de novo. Falhe ainda pior.
O dilema do patriota e as perguntas incômodas
O artigo do Financial Times não deixa o leitor confortável. Ganesh levanta uma questão incômoda: será que alguma vez é aceitável desejar que o primeiro-ministro fracasse? E se esse fracasso aumentasse as chances de o país finalmente se organizar?
“Um bom cidadão deveria se sentir em conflito”, escreve ele. “Vivemos tempos difíceis, em parte porque nos obrigam a reavaliar o que significa ser patriota.”
A provocação é deliberada. O colunista não esconde sua preferência por reformas de mercado, mas também não disfarça o desconforto moral de sua própria posição. Ele quer que Burnham fracasse não por maldade, mas por um cálculo frio: somente a destruição do modelo atual abriria espaço para algo radicalmente diferente.
O crédito da análise e o debate que ela provoca
A coluna de Janan Ganesh, publicada no Financial Times sob o título original “Burnham may be the failure that Britain needs”, representa uma das análises mais provocativas sobre a nova era trabalhista no Reino Unido. Ganesh, colunista principal de política do jornal e editor associado, construiu sua carreira na interseção entre a política britânica e a análise internacional.
O texto não é uma previsão – é um convite ao pensamento contraintuitivo. E, como todo bom provocador, Ganesh deixa mais perguntas do que respostas.
Burnham, que acaba de assumir o cargo prometendo “reconfigurar” o país, terá que governar sob o olhar desconfiado de setores da imprensa que já antecipam seu fracasso. A ironia, apontada pelo próprio colunista, é que talvez esse fracasso seja exatamente o que a Grã-Bretanha precisa para finalmente enfrentar suas contradições.
Resta saber se os eleitores britânicos – e o próprio Burnham – estarão dispostos a aceitar o papel de cobaias de uma dialética histórica que ninguém pediu.
Esta reportagem foi elaborada com base na coluna de Janan Ganesh publicada no Financial Times. A íntegra do artigo original pode ser consultada no site do jornal.


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