O relatório recente da Unesco deixa claro que não estamos diante de uma simples extensão das práticas criativas, e sim de uma transformação estrutural das condições de criação. A IA, especialmente a IA generativa, não atua apenas no momento da produção. Ela atravessa toda a cadeia cultural: define o que é visível, o que circula, o que ganha valor e o que desaparece. Interfere no modo como se cria, mas também na forma como conteúdos são distribuídos, consumidos e, principalmente, reconhecidos como criação.
Esse cenário nos obriga a migrar da pergunta clássica — “quem cria?” (o humano ou a máquina) — para outra, mais incômoda: em que condições algo passa a ser reconhecido como criação? E a que custo social, político e cultural?
O relatório aponta um dado revelador: a maioria dos profissionais da cultura (80%) vê a IA como uma ameaça. Não apenas pelo risco de substituição de tarefas, mas, sobretudo, pela alteração profunda no regime de valor da criação.
Os números reforçam essa preocupação. As previsões indicam perdas de receita de até 24% na música e 21% no setor audiovisual. Enquanto os insumos da criação são amplamente coletivos — dada a extração massiva de dados para o próprio treinamento da IA —, o controle sobre a circulação e a monetização desses conteúdos estão cada vez mais concentrados. Poucas plataformas concentram os espaços de criação, enquanto outras definem o que aparece, o que é recomendado e o que se torna visível.
Nesse contexto, emerge um paradoxo: por um lado, a criatividade se distribui; por outro, o poder se concentra. A IA trata toda criação como um produto social, mas transforma essa dimensão coletiva em matéria-prima e monopólio de sistemas que não são socialmente distribuídos.
Fonte: Jornal da USP.