O presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, reforçou os vínculos estratégicos com a China durante visita a Pequim marcada por agenda intensa em comércio, tecnologia industrial, biociências, infraestrutura e energia.
A viagem ocorre em momento de forte tensão com a administração de Donald Trump, após Madrid ter negado o uso das bases militares de Rota e Morón para apoio logístico na guerra contra o Irã e ter fechado o espaço aéreo espanhol a voos militares norte-americanos vinculados ao conflito.
Trump classificou a decisão como traição e ameaçou represálias comerciais graves — inclusive o fechamento do comércio bilateral — caso a Espanha não altere sua posição.
Sánchez, porém, manteve o rumo e utilizou a visita para afirmar que a Espanha não vê a China como rival, mas como aliado estratégico. Em declaração na Universidade de Tsinghua, o líder espanhol defendeu que Europa e China devem trabalhar em conjunto para restaurar a ordem internacional e aplicar o direito internacional, tanto no caso do Irã quanto nos conflitos de Líbano, Gaza e Cisjordânia.
Conforme detalhou o El País em sua cobertura da visita, o governo chinês respondeu com apoio público explícito às posições de Sánchez.
Depois que o secretário do Tesouro dos Estados Unidos advertiu que o aproximamento espanhol colocaria em risco a liderança global de Washington, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China acusou os Estados Unidos de utilizar tarifas como instrumento de chantagem internacional.
Os interesses econômicos sustentam a aproximação. Os investimentos chineses na Espanha quadruplicaram em 2025 em comparação com o ano anterior, atingindo 643 milhões de euros, concentrados especialmente na indústria extrativa e no setor energético.
O dado contrasta com o déficit comercial estrutural que a Espanha mantém com a China, superior a 42 bilhões de euros, e com as ameaças de retaliação vindas de Washington.
Sánchez se apresenta como voz europeia firme pelo não à guerra e pela neutralidade ativa, baseada na legalidade internacional e em alianças plurais. Esta postura ganha relevância diante da diplomacia de ultimatos praticada pela atual administração americana, que recorre a ameaças comerciais para impor alinhamento.
A estratégia espanhola reflete o cálculo de que o contexto atual de polarização, tarifas e pressões geopolíticas exige maior autonomia estratégica, sem romper com os aliados tradicionais na União Europeia.
No plano interno, o governo espanhol aposta que a população interprete o movimento como defesa da soberania nacional e do interesse econômico concreto. No âmbito europeu, Madrid precisa navegar entre os temores de confronto com Washington e a necessidade de preservar espaço para diplomacia própria.
A China surge não apenas como parceiro comercial relevante, mas como contrapeso à hegemonia unilateral que impõe sanções e condições enquanto ignora contradições em sua própria atuação no cenário internacional.
Este giro de eixo observado na ação de Sánchez pode indicar um padrão mais amplo, em que países buscam diversificar parcerias em um mundo cada vez mais contestado. A visita a Pequim — a quarta realizada por Sánchez em quatro anos — consolida laços com o presidente chinês Xi Jinping e sinaliza que a Espanha pretende afirmar voz própria mesmo sob pressão explícita dos Estados Unidos.
O desenrolar dos próximos meses mostrará se esta aposta em multilateralismo e autonomia ganha tração ou enfrenta custos elevados no tabuleiro geopolítico atual.
Com informações de actualidad.rt.com.
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