Dois anos após o início do experimento, o cultivo de trigo em dunas de areia no entorno do Deserto de Taklamakan atinge resultados impressionantes. Na cidade de Kunyu, ao sul de Xinjiang, a safra mais recente, plantada em cerca de 8.200 mu — aproximadamente 547 hectares — apresentou taxa de germinação e sobrevivência de plântulas acima de 90%, conforme registros de início de abril.
O sistema de irrigação adotado é o “pivot sprinkler”, consistindo de aspersores giratórios elevados que funcionam de forma automatizada. Essa tecnologia permite operar áreas extensas com intervenção mínima: enquanto antes eram necessários cerca de 30 trabalhadores, hoje apenas quatro bastam para gerir todo o processo, segundo Cui Gangchuang, gestor do campo. Além disso, fertilização calibrada e preparo adequado do solo se mostraram vitais para garantir que as plantas resistam às frequentes tempestades de areia da região.
O sucesso observado em Kunyu representa parte de um esforço amplo no combate à desertificação e à salinização em Xinjiang. Projetos similares em solos desérticos pelo interior da China têm apresentado crescimento na área plantada e reduções substanciais no trabalho manual exigido. A primeira colheita pioneira cobriu 400 hectares, enquanto a safra atual alcança 547 hectares — uma expansão que reflete não apenas aumento de área, mas também aprimoramentos nos métodos de cultivo.
No condado de Makit, em Kashgar, outro campo plantado em solo desértico registrou rendimento médio de 294 quilos por mu, superando expectativas iniciais. Essa área integra iniciativas que utilizam variedades adaptadas ao clima seco, plantio direto sem aração e irrigação por gotejamento. Em zonas com condições térmicas favoráveis, práticas de cultivo duplo anual também têm sido implementadas.
Resultados assim têm implicações estratégicas para a segurança alimentar. Avanços agrícolas em regiões com clima e solo adversos ajudam a fortalecer a autonomia alimentar da China, especialmente em meio a pressões externas sobre o trigo. Durante o 14º Plano Quinquenal (2021–2025), as autoridades informam que a produção de grãos per capita manteve-se bem acima da linha de segurança — definida em cerca de 400 kg por pessoa — o que demonstra ganhos em escala e rendimento nacional.
O progresso técnico por trás dessa virada inclui irrigação mais eficiente em uso de água, mecanização automatizada, monitoramento digital das plantações e o uso de variedades mais resistentes à seca e ao frio. O corpo de produção agrícola do Xinjiang Production and Construction Corps (XPCC) expandiu a adoção de maquinário e implantou sistemas de irrigação que superam os padrões nacionais em rendimento por mu de trigo e milho.
Essas conquistas vão além de propaganda estatal ou promessa vaga. São evidências concretas de que a expansão agrícola em solo árido pode ser viável e produtiva. Para países do Sul Global enfrentando desertificação, esse modelo de produção adaptado a escassez de água pode oferecer lições valiosas.
Por fim, o caso reforça a estratégia chinesa de soberania alimentar em um contexto global marcado por instabilidade nas cadeias de produção de alimentos. A combinação de inovação tecnológica, variedades adaptadas e uso eficiente dos recursos naturais mostra que, mesmo em ambientes extremos, é possível alcançar produtividade elevada com recursos humanos reduzidos.
Com informações de www.scmp.com.