Um relatório recente da Unesco, destacado pelo Jornal da USP nesta terça-feira (11 de fevereiro de 2025), revela preocupações do setor cultural com perdas de receita e concentração de poder nas plataformas. O documento deixa claro que não se trata de uma simples extensão das práticas criativas, mas de uma transformação estrutural das condições de criação. A IA, especialmente a IA generativa, atravessa toda a cadeia cultural: define o que é visível, o que circula, o que ganha valor e o que desaparece.
O cenário interfere no modo como se cria e na forma como conteúdos são distribuídos, consumidos e, principalmente, reconhecidos como criação. Essa realidade obriga a migração da pergunta clássica — “quem cria?” (o humano ou a máquina) — para outra: em que condições algo passa a ser reconhecido como criação? E a que custo social, político e cultural?
Os dados apontam que a maioria dos profissionais da cultura (80%) vê a IA como uma ameaça, não apenas pelo risco de substituição de tarefas, mas pela alteração profunda no regime de valor da criação. As previsões indicam perdas de receita de até 24% na música e 21% no setor audiovisual. Enquanto os insumos da criação são amplamente coletivos — dada a extração massiva de dados para o treinamento da IA —, o controle sobre a circulação e a monetização desses conteúdos está cada vez mais concentrado em poucas plataformas.
Nesse contexto, emerge um paradoxo: por um lado, a criatividade se distribui; por outro, o poder se concentra. A IA trata toda criação como um produto social, mas transforma essa dimensão coletiva em matéria-prima e monopólio de sistemas que não são socialmente distribuídos, definindo o que é recomendado e o que se torna visível para o público.
Fonte: Jornal da USP