O petroleiro Rich Starry, sancionado pelos Estados Unidos e com ligações com a China, transitou pelo Estreito de Ormuz, apesar do bloqueio do canal imposto pelos americanos.
O Rich Starry está registrado no Malawi, mas é de propriedade chinesa e opera com tripulação chinesa. O navio é alvo de sanções dos EUA por transportar mercadorias iranianas. O conteúdo atual de sua carga é desconhecido.
Após ancorar na costa dos Emirados Árabes Unidos, o Rich Starry não está tecnicamente violando o bloqueio, mas o incidente elevou os temores de um potencial confronto entre os EUA e a China na região. Outras embarcações estão aguardando para transitar pelo Estreito, apesar do bloqueio americano.
A decisão de impor um bloqueio aos portos iranianos nas proximidades do Estreito foi anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, após o fracasso das negociações de paz entre os EUA e o Irã em Islamabad no dia 11 de abril.
O anúncio de Trump foi detalhado por um comunicado do Comando Central dos EUA em 12 de abril, estipulando que a operação impedirá a entrada e saída de navios de portos e áreas costeiras iranianas, sem restringir embarcações transitando pelo Estreito com origem ou destino a portos não iranianos.
Trump também anunciou: “Instruí nossa Marinha a buscar e interceptar todas as embarcações em Águas Internacionais que pagaram pedágio ao Irã. Ninguém que pague um pedágio ilegal terá passagem segura em alto mar”. Ainda não está claro se a medida será implementada.
O Estreito de Ormuz está praticamente fechado desde logo após os EUA e Israel lançarem ataques contra o Irã no final de fevereiro. A maioria dos armadores, fretadores e seguradoras não está disposta a aceitar o risco financeiro — e o risco à vida humana — que o trânsito pelo Estreito sob a ameaça de um ataque iraniano implicaria.
Bloqueios são usados para converter a dominância naval em vantagem terrestre, impedindo importações e exportações de bens — no caso do Irã, petróleo — para pressionar a população e o governo de um adversário prejudicando sua economia.
Da mesma forma, a estratégia do Irã de fechar o Estreito após ser atacado tem a intenção de desestabilizar a economia global para colocar pressão internacional sobre o governo Trump.
O Irã ameaça há tempos usar sua proximidade geográfica com o Estreito de Ormuz para fechá-lo. Após demonstrar a eficácia dessa medida na desestabilização dos preços do petróleo e do gás natural liquefeito, Teerã tem demonstrado força exigindo que os navios que desejam transitar pelo canal paguem uma tarifa de até US$ 2 milhões.
Um total de 26 trânsitos de embarcações pelo estreito seguiu uma rota pré-aprovada sob um sistema de “pedágio” do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), exigindo que os operadores dos navios se submetam a um esquema de verificação.
Este ponto foi um entrave nas negociações entre os EUA e o Irã no Paquistão no dia 11 de abril. Teerã quer manter o controle do Estreito e a capacidade de cobrar pedágios dos navios em trânsito.
Os EUA exigem que o direito marítimo de livre passagem seja garantido. Foi quando a primeira rodada de conversas terminou em impasse que o presidente dos EUA decidiu impor o bloqueio naval.
O foco agora é sobre qual país pode absorver mais danos. O ex-diplomata dos EUA no Oriente Médio, David Satterfield, afirmou no dia 13 de abril que “os iranianos acreditam que podem absorver mais dor por um período mais longo do que seus oponentes”.
Estratégia cara e arriscada
O cálculo de custos é assimétrico. Será mais caro para os EUA manterem o seu bloqueio do que foi para o Irã fechar o Estreito.
A questão é se Washington conseguirá sustentar a interdição por tempo suficiente para enfraquecer efetivamente o regime, lembrando sempre que a República Islâmica teve potencialmente décadas para se preparar para esse tipo de cenário.
Se o bloqueio for implementado de forma eficaz, poderá, com o tempo, ter efeito sobre uma economia devastada por anos de sanções e ainda mais enfraquecida pela guerra recente e por protestos nacionais em janeiro. A dúvida é quanto tempo isso pode levar.
Para ser eficaz, o bloqueio exigirá consideráveis recursos navais. Os EUA mantêm até 21 navios de guerra no Oriente Médio, incluindo o porta-aviões USS Abraham Lincoln e o USS Tripoli, um navio de assalto anfíbio com fuzileiros navais treinados para embarcar em navios usando helicópteros e pequenas embarcações de abordagem.
Isso introduz outra camada de risco, pois os ativos operando próximos às costas iranianas precisarão ser protegidos contra mísseis iranianos, drones e embarcações de ataque rápido. A operação demandará muitos recursos, exigência operacional e exposição política para os EUA.
A forma como os EUA executarão a fiscalização ainda está indefinida. Em dezembro e janeiro, navios navais e da guarda costeira dos EUA abordaram e apreenderam várias embarcações ligadas à frota fantasma da Venezuela que haviam furado o bloqueio americano. Executar a mesma ação com um navio ligado à China, no entanto, é outra questão.
Embora outra opção fosse disparar tiros de alerta, isso pode ser perigoso perto de petroleiros devido ao risco de vazamento de óleo, além do evidente risco político associado a navios com laços chineses.
Não está claro no momento se a imposição de um bloqueio no Estreito de Ormuz restaurará a livre navegação da via navegável em um futuro próximo.
Na ausência da livre navegação, alguns países decidiram testar o limite dos americanos e tentar transitar pelo canal em desafio ao bloqueio dos EUA.
A principal preocupação recai sobre o sério risco de escalada caso os EUA tentem impor o bloqueio a um navio de propriedade chinesa. Nenhum desses desdobramentos será bem recebido pelo presidente dos EUA e por sua equipe de segurança nacional.
Basil Germond é professor de segurança internacional na Escola de Assuntos Globais da Universidade de Lancaster. O artigo original foi publicado pela The Conversation.
E o que isso significa para o Brasil?
O fechamento ou a restrição de tráfego no Estreito de Ormuz tem impacto direto na economia global, ameaçando o fluxo de petróleo. Para o Brasil, isso sinaliza possíveis choques nos preços dos combustíveis e aumento da inflação. Além disso, uma escalada de tensões envolvendo EUA e China pode pressionar a diplomacia brasileira a equilibrar seus interesses comerciais com seus dois maiores parceiros geopolíticos.
Fonte: Asia Times