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Mosquito transmissor da malária evolui e dribla resistência a inseticidas

0 Comentários🗣️🔥 Em estudo publicado na revista Science, um consórcio internacional de pesquisadores, com participação da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, apresentou um dos levantamentos genômicos mais abrangentes sobre o Anopheles darlingi. Para a pesquisa, foram sequenciados os genomas completos de 1.094 fêmeas adultas coletadas em 16 localidades da Guiana Francesa, Brasil, Guiana, […]

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Imagem gerada por IA pelo Flux Pro (fal.ai), a partir de prompt do Cafezinho. 15/04/2026 09:32

Em estudo publicado na revista Science, um consórcio internacional de pesquisadores, com participação da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, apresentou um dos levantamentos genômicos mais abrangentes sobre o Anopheles darlingi. Para a pesquisa, foram sequenciados os genomas completos de 1.094 fêmeas adultas coletadas em 16 localidades da Guiana Francesa, Brasil, Guiana, Peru, Venezuela e Colômbia. Principal vetor da malária em áreas tropicais das Américas, o mosquito vem evoluindo para sobreviver às medidas de controle antrópico através de seleção genética impulsionada pelo uso de inseticidas.

Como coinvestigadora no Brasil, a professora Maria Anice Mureb Sallum, do Departamento de Epidemiologia da FSP, coordenou a participação nacional, atuando desde o delineamento científico até a definição dos pontos de coleta e análise de dados. Além de liderar as atividades de campo, a pesquisadora foi responsável pela viabilização regulatória do projeto, garantindo a conformidade com as normas da USP e com a legislação brasileira, observando rigorosamente as diretrizes do Tratado de Nagoya.

A colaboração reuniu pesquisadores da Venezuela, Colômbia, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Brasil e Estados Unidos, incluindo instituições como a Harvard T.H. Chan School of Public Health, o Broad Institute of MIT e o Wadsworth Center/New York State Department of Health. O Tratado de Nagoya, estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), é um acordo entre diversos países que visa a assegurar o acesso justo e equitativo dos benefícios decorrentes do uso dos recursos genéticos.

Para a professora Maria Anice Sallum, essa parceria fortalece a ciência brasileira ao inseri-la em uma agenda de fronteira voltada à genômica e à ecologia de vetores. “Essa colaboração amplia nossa capacidade de produzir conhecimento com impacto internacional, ao combinar expertise local sobre a realidade epidemiológica e ecológica da Amazônia com plataformas avançadas de análise genômica desenvolvidas em centros como Harvard e o Broad Institute”, afirma. Ela ressalta, ainda, que tais iniciativas garantem o protagonismo nacional na produção científica frente a desafios centrais da realidade regional.

O estudo identificou sinais de seleção em genes do citocromo P450, que figuram entre os principais mecanismos de resistência metabólica do mosquito. Na prática, isso indica que variantes genéticas estão sendo favorecidas por permitirem que o inseto sobreviva à exposição a determinados grupos de inseticidas. É como se o mosquito tivesse desenvolvido um “filtro” interno ou um sistema de limpeza superpotente: quando o inseticida entra em contato com o corpo do animal, certas enzimas agem rapidamente para neutralizar as moléculas do veneno antes que elas consigam atingir o sistema nervoso do inseto.

“As enzimas P450 atuam na metabolização ou detoxificação do composto químico. O princípio ativo é neutralizado antes de atingir seu alvo no inseto”, explica Maria Anice Sallum. Aqueles mosquitos que nascem com essa “armadura” química natural acabam sobrevivendo e gerando descendentes igualmente resistentes, o que torna o controle da doença muito mais complexo.

A pesquisa demonstra que o combate à malária exige uma visão que ultrapasse os limites geográficos. “A malária é, por natureza, um problema transfronteiriço”, pontua a professora da FSP. “Os vetores não respeitam limites políticos, tampouco os fluxos de pessoas, parasitas e genes de resistência.” A escala multinacional do estudo permitiu compreender padrões de dispersão e adaptação que não seriam observados em análises restritas a um único país. Segundo a pesquisadora, esse cenário reforça que nenhuma estratégia nacional isolada será suficiente no longo prazo, exigindo políticas públicas regionais coordenadas para o diagnóstico e controle de vetores.

Os resultados indicam que o Plano de Eliminação da Malária no Brasil precisa estar apoiado em uma vigilância entomológica cada vez mais qualificada e baseada em evidências locais. A professora enfatiza que o objetivo não é o abandono dos inseticidas, mas sim o seu uso estratégico. “O ponto principal é utilizá-los com avaliação permanente da eficácia, para evitar perda de efetividade e fortalecer as metas de eliminação da malária no país”, conclui a pesquisadora.

Fonte: Jornal da USP

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