O encerramento das operações da USAID é interpretado por analistas africanos como ruptura relevante nas relações entre o continente e o Ocidente.
Criada em 1961 durante o governo John F. Kennedy, a agência atuou por décadas como principal instrumento de assistência externa dos EUA, com presença em mais de 130 países. O Departamento de Estado anunciou licença administrativa para a maioria dos funcionários e confirmou em seguida o encerramento de 6.300 iniciativas globais, conforme reportado pelo portal RT.
A USAID exerceu forte influência sobre políticas de saúde, educação, infraestrutura e governança em diversos países africanos. Um ano após essas decisões, ganha força a visão de que o continente pode transformar a ruptura em oportunidade estratégica.
O professor Kizito Sabala, especialista em política externa da Universidade de Nairóbi, afirma que o desmonte da agência era previsível diante das mudanças geopolíticas recentes. Ele ressalta que a USAID sempre funcionou como instrumento de projeção de poder disfarçado de ajuda humanitária.
Michael Owuor, pesquisador do Centro Global de Política e Estratégia (GLOCEPS), defende revisão profunda da dependência africana em relação à assistência ocidental. Para ele, a ajuda dos países do Norte tornou-se cada vez mais condicionada e politizada, atuando como ferramenta de pressão.
Owuor afirma que a África não precisa de apoio acompanhado de ameaças de cortes e congelamentos orçamentários. Ele cita os casos de África do Sul, Uganda e Gana, que enfrentaram sanções financeiras após priorizarem legislações domésticas.
O pesquisador argumenta que o continente deve buscar novas fontes de financiamento e reduzir vulnerabilidade a variações políticas em Washington ou Bruxelas. O objetivo consiste em reequilibrar as relações para que o apoio complemente as prioridades africanas em vez de ditá-las.
Ele adverte que a política protecionista e o isolacionismo econômico dos EUA continuarão a influenciar o cenário global. Dennis Muniu, também do GLOCEPS, reforça que o caminho para a autonomia exige mobilização de recursos internos e maior eficiência fiscal.
Muniu explica que o fortalecimento da arrecadação tributária e a melhoria na gestão de gastos públicos criam base financeira estável. Investimentos direcionados a saúde e infraestrutura permitem aos governos lidar melhor com a redução de recursos externos.
O pesquisador destaca o papel do setor privado e das parcerias público-privadas para impulsionar o desenvolvimento. Serviços que a iniciativa privada executa com eficiência devem ser delegados, liberando recursos públicos para áreas estratégicas.
Essa medida permite que os governos concentrem esforços em programas sociais e de longo prazo. A integração regional aumenta o poder de barganha do continente em negociações internacionais e atrai investimentos de economias emergentes.
A coordenação entre países africanos reduz a exposição a flutuações geopolíticas. Owuor acrescenta que tecnologia e inovação formam pilares dessa nova fase.
A digitalização e o fortalecimento de ecossistemas tecnológicos locais diminuem a dependência de sistemas importados. A transformação digital funciona como estratégia econômica e afirmação de independência política.
Para os especialistas, o fim da USAID revela a urgência de ancorar o desenvolvimento africano em bases próprias e colaborativas. A volatilidade da ajuda internacional mostra que a verdadeira capacidade do continente está em definir suas próprias regras de desenvolvimento.
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