O Líbano está profundamente dividido sobre as negociações diretas com Israel que ocorrem em Washington.
Enquanto parte da população vê o diálogo como única saída viável para encerrar o conflito, outros setores defendem que a resistência armada liderada pelo Hezbollah é o único caminho para garantir a soberania nacional. O impasse reflete feridas abertas por uma ofensiva israelense que deixou rastros visíveis de destruição em todo o país.
Segundo o Al Jazeera, desde o início de março mais de 2.200 pessoas foram mortas e aproximadamente 1,2 milhão foram forçadas a deixar suas casas. Israel mantém a ocupação de partes do sul do Líbano e criou uma zona de exclusão de 10 quilômetros ao norte da fronteira.
Os embaixadores do Líbano e de Israel participam das discussões em Washington ao lado do secretário de Estado americano, Marco Rubio. O governo libanês, liderado pelo primeiro-ministro Nawaf Salam, exige a prorrogação do cessar-fogo e a retirada completa das forças israelenses como condições prévias para qualquer avanço.
O Hezbollah rejeita veementemente as conversas diretas e defende a resistência armada como única garantia da soberania libanesa. A organização organizou visitas guiadas para jornalistas às cidades devastadas de al-Mansouri, Majdal Zoun e Qlaileh, onde a destruição causada pela ofensiva israelense é quase completa, e convocou protestos em Beirute contra o que classifica como uma negociação desigual.
O advogado Fouad Debs alertou que o Líbano chega a essas negociações sem poder real de barganha. Ele defende que o país deveria recorrer a vias jurídicas internacionais, como o Tribunal Penal Internacional, em vez de aceitar um acordo que tende a favorecer Israel.
As tensões internas se intensificaram depois que o governo declarou ilegais as ações militares do Hezbollah posteriores aos ataques de março. O Hezbollah, fundado em 1982 durante a invasão israelense, manteve seu arsenal após o Acordo de Taif com o argumento central de resistir à ocupação no sul do país.
Parte da sociedade libanesa passou a defender uma solução diplomática diante do agravamento da guerra e do grande número de deslocados. Jad Shahrour, da Fundação Samir Kassir, argumenta que negociar não equivale a normalizar relações com Israel, mas representa uma tentativa de recuperar o controle estatal sobre o território nacional.
Shahrour reconhece que o Líbano possui pouca margem de manobra diante do poderio militar israelense e da influência americana nas tratativas. Ele adverte que a ausência de diálogo pode levar a nova escalada, atingir Beirute e agravar ainda mais a tragédia humanitária.
A maioria dos libaneses demonstra pouca confiança na boa-fé de Israel ou na neutralidade dos Estados Unidos, diante das violações constantes do cessar-fogo. O pesquisador Mohanad Hage Ali, do Carnegie Middle East Center, recomenda que o Líbano defina claramente seus próprios parâmetros de negociação para evitar o enfraquecimento do Estado e o isolamento de aliados regionais contrários à ocupação.
Hage Ali considera que uma postura equilibrada poderia produzir resultados mais duradouros, apesar das críticas internas imediatas. As conversas em Washington revelam um país dividido entre as pressões pela via diplomática e as demandas por continuidade da resistência armada contra a ocupação israelense no sul.
Leia mais sobre o assunto na aljazeera.com.
Leia também: Hezbollah acusa governo libanês de traição após cessar-fogo com Israel
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