Em entrevista ao Cafezinho, prefeito de Niterói defende a Linha 3 do metrô ligando Itaboraí, São Gonçalo e Niterói à estação Carioca, no centro do Rio, por um túnel sob a Baía, detalha o atentado judicial de 2018 que o tirou 93 dias da cadeira e confirma apoio a Eduardo Paes em 2026. O registro em vídeo da entrevista segue ao final do post.
“Como que uma região metropolitana adensada, de 8 mil quilômetros quadrados apenas, reunindo 12 milhões de habitantes, não foi capaz de estruturar um planejamento de transporte público por trilhos?”, disse Rodrigo Neves, prefeito de Niterói, em entrevista ao Cafezinho.
Foi assim que começou uma longa conversa sobre mobilidade, o descaso do governo fluminense com o transporte público e a urgência de construir uma ligação metroviária entre a capital e o lado leste da Baía de Guanabara.
Para Neves, a situação escancara uma omissão política. “Como que a gente tem seis anos de governo Cláudio Castro e dois anos de governo Witzel, oito anos com a extrema direita governando o estado do Rio, e a gente não tem, nesses oito anos, uma linha de metrô, 100 metros que seja, de metrô construída por eles?”.
Durante a conversa, mencionei ao prefeito o estado calamitoso das estações e dos trens da Supervia, concessionária dos trens urbanos da região metropolitana.
“A Supervia é uma vergonha. As estações não têm banheiro, não têm bebedouro, tem estações que não têm nem cobertura de chuva, não têm segurança nenhuma. Devem ser as piores estações do mundo”, observei.
Neves concordou com o diagnóstico: “é dramático”.
O prefeito cobra investimento no modal ferroviário como agenda estratégica do estado. “É inacreditável como o trabalhador da Zona Oeste sofre com os trens da Supervia sucateados, quando a gente poderia ter um sistema de trens de alta performance, porque as distâncias são curtas”.
A proposta central é antiga, mas segue no papel. A Linha 3 do metrô ligaria Itaboraí, São Gonçalo e Niterói à estação Carioca, no centro do Rio, por um túnel sob a Baía de Guanabara.
“Esse projeto, rapaz, é absolutamente viável”, diz Neves. O custo estimado pelo governo do estado, em anúncio de junho de 2025, é de R$ 14,6 bilhões, dentro de um pacote de expansão metroviária de R$ 28,8 bilhões. A viabilização dependeria de parceria entre governo federal, governo do estado e iniciativa privada.
A comparação técnica que o prefeito apresenta é com o túnel submerso Santos-Guarujá, em obras com apoio do governo Lula. “O túnel lá, o presidente está apoiando um governador que não é um governador aliado a ele, para fazer um túnel de um quilômetro. O túnel debaixo da Baía de Guanabara é um túnel de três quilômetros no máximo”.
O atalho marítimo é mais curto do que parece. “A ponte tem 13 quilômetros, mas a ponte faz uma volta enorme para fazer a ligação Rio-Niterói. A menor distância entre o Rio e Niterói são 3 quilômetros”, explica.
A estação Carioca, acrescenta, já foi construída pensando nessa integração. “Lá atrás, quando foi inaugurada, ela previa um andar para a chegada da linha 3 de Niterói”.
O impacto no cotidiano seria imediato. “Hoje as pessoas levam uma hora e meia, duas horas para chegar no Rio pela ponte. Com o túnel e a Linha 3 do metrô, elas vão levar 15 minutos. É uma revolução”.
A defesa do metrô submerso não vem descolada da experiência concreta. Em oito anos de mandato anterior, Neves entregou quatro dos seis túneis da cidade, ampliou a malha cicloviária para cerca de 100 quilômetros e colocou Niterói no topo do ranking dinamarquês Copenhagenize 2025 como a cidade mais amigável para bicicletas da América Latina.
O caso mais emblemático é o túnel que ligou a zona sul à região oceânica. “As pessoas levavam uma hora, uma hora e meia para chegar em Piratininga, que é um bairro com praias em Niterói. E hoje, com túnel, levam 20 minutos”.
Para ele, a conta não é apenas de engenharia, mas de tempo de vida. “As pessoas ganharam com o túnel que eu fiz aqui praticamente um dia e meio, dois dias. Para ir ao cinema, para ir à igreja, para namorar, para curtir uma praia”.
O sistema de bicicletas compartilhadas da cidade, o NitBike, tem cerca de 150 mil usuários cadastrados numa população de 520 mil habitantes. A ciclovia das avenidas Roberto Silveira e Marquês do Paraná, segundo o prefeito, é hoje a mais movimentada do Brasil, à frente da Paulista.
Neste novo mandato, Neves promete avançar na integração hidroviária da orla e na construção de um veículo leve sobre trilhos. “Nós vamos fazer o VLT. Nas divisas com São Gonçalo até o centro de Niterói”.
Um convênio com a Secretaria de Transportes já reduziu a tarifa do catamarã Charitas-Praça XV de 21 para 7 reais, introduzindo uma segunda ligação hidroviária com a capital, além da conexão tradicional Arariboia – Praça XV.
No meio da conversa sobre infraestrutura e projeto para o estado, a entrevista alcança o episódio que marcou a biografia política do prefeito. Em 2018, no auge do avanço bolsonarista no Rio, Neves foi preso por determinação do juiz Marcelo Bretas, da Lava Jato fluminense.
“Me sequestraram dessa cadeira durante 93 dias”, resume ele.
A operação foi deflagrada com base numa delação premiada que, segundo o prefeito, era falsa. “Foi ele que determinou a prisão, e depois falaram que a delação foi um equívoco. Então, inventaram uma história, e a minha esposa era dona de uma empresa de ambulância que tinha relação com a corrupção do governo do Sérgio Cabral, e a gente nunca tinha ouvido falar nessa empresa”.
O processo foi arquivado por unanimidade. Mas o estrago político, na avaliação de Neves, foi deliberado.
Naquele momento, ele era praticamente o único sobrevivente progressista de peso no estado. “Naquela época, o Eduardo Paes estava derrotado, o presidente Lula estava preso, o Crivella era prefeito do Rio e o Witzel tinha sido eleito governador do Rio. Então, só sobrou eu, em todo o estado”.
A extrema direita fluminense tentou transformar o processo em afastamento definitivo. “A extrema direita capitaneada por Flávio Bolsonaro e pelo Carlos Jordi em Niterói tentou o meu impeachment e a convocação de uma nova eleição logo depois da eleição do Bolsonaro em 2018”.
Neves também foi afastado da presidência do Consórcio do Leste Metropolitano, o Conleste. Segundo ele, isso não deve ter sido uma casualidade.
“A principal bandeira do Conleste era a conclusão da refinaria de Itaboraí. Então, não foi à toa que, além de me tirar da prefeitura, me tiraram do Conleste. E aí a bandeira da conclusão da refinaria ficou quatro anos, de 2018 a 2022, arriada. E não concluíram a refinaria de Itaboraí. E hoje o diesel está aí por esse preço”.
Niterói é hoje a única cidade das 22 que formam a região metropolitana do Rio sem território dominado por milícia, segundo o prefeito. O dado abre a discussão sobre segurança pública, em que Neves apresenta o Pacto Niterói Contra a Violência como modelo replicável para o estado.
A comparação com a cidade vizinha é brutal. No primeiro trimestre de 2026, Niterói registrou três roubos de carga, um por mês.
São Gonçalo, a cinco minutos dali, registrou 185 roubos de carga no mesmo período, uma média de dois por dia.
“Nós não deixamos as milícias entrarem em Niterói, e isso é muito importante”, afirma.
O enfrentamento, ressalta, combinou repressão e urbanismo social. A Guarda Municipal cresceu de 150 para quase mil agentes, um Centro Integrado de Segurança Pública foi inaugurado em 2015 e a prefeitura paga convênio para policiais militares trabalharem na cidade em horário de folga.
Em paralelo, comunidades históricas como o Viradouro e o Caramujo receberam escolas técnicas, parques esportivos, saneamento e centros culturais. “Nós fizemos mais de 300 milhões de reais de investimento”, diz, sobre o Viradouro.
A cidade tem hoje 10 mil jovens no maior programa de iniciação musical do país, em escolas municipais. E bolsas para o ensino técnico por meio de convênio com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, o Senai.
O resultado, segundo Neves, é estatístico. Em 2013, jovens de 13 a 20 anos representavam 25% das mortes por violência na cidade.
Em dez anos, o índice caiu para 7%. A média mensal de homicídios saiu de 35 para dois ou três.
“Nós passamos, ano passado, vários meses sem nenhum homicídio na cidade”, diz.
Para Neves, o tema não pode ser monopolizado pela extrema direita. “A segurança pública é a mãe de todas as políticas. Se você não tiver segurança pública, você não tem aquilo que é caríssimo ao campo progressista, que é a apropriação do cidadão do espaço público”.
Ele acusa a elite política fluminense de conivência. “Infelizmente, parte da elite política do Rio está completamente comprometida com o crime organizado. E há uma clara contaminação das instituições do Estado pelo crime organizado”.
Se Niterói é laboratório, a Baixada Fluminense é o problema mais duro. A entrevista entra no tema a partir de uma pergunta simples: como uma região historicamente de esquerda, berço do voto em Brizola e Lula, virou bastião bolsonarista?
A resposta começa no longo prazo. “A destruição do Rio não foi por acaso, tinha um projeto de destruição do Rio”.
Neves recupera a perda da capital federal nos anos 60, a fusão autoritária entre Guanabara e estado do Rio decretada pelo general Geisel em 1974, a desindustrialização da região metropolitana nos anos 80 e a deformação da Lava Jato, que, segundo o prefeito, atacou a engenharia brasileira concentrada no Rio.
A esse roteiro econômico se soma uma transformação sociorreligiosa profunda. “No início da década de 90, na década de 80, na Baixada Fluminense, por exemplo, você tinha vários bispos, como Dom Mauro Morelli, em Caxias, que tinham vínculo com os movimentos populares, tinham uma visão progressista, e 70% da população era católica e 20% evangélica”.
A proporção se inverteu. “20 anos depois, você tem, na Baixada, 70% da população evangélica. Em São Gonçalo, 60% da população evangélica”.
Católico praticante, Neves diz ter passado pela Pastoral da Juventude no início dos anos 90 e faz uma autocrítica ao campo progressista. “Me parece que estigmatizar esses segmentos não é o melhor caminho. Ao contrário, é preciso estabelecer diálogo com esses segmentos, até porque a grande maioria é constituída de pessoas sérias”.
A referência que ele aponta é a Frente Ampla uruguaia. “O campo progressista precisa estar nas favelas, nas universidades, no dia a dia das pessoas, conversando sobre os problemas das pessoas, construindo redes de solidariedade”.
Com o governador Cláudio Castro cassado e a linha sucessória desmoralizada por prisões e investigações, o estado entrou no ano eleitoral sem comando estável.
“A situação do Rio é uma situação hoje dramática porque o governador foi cassado, a linha de sucessão está desmoralizada e o Rio está sem um comando estável mais uma vez”, resume Neves.
Diante desse cenário, ele já definiu seu apoio para 2026. “Eu estou apoiando o ex-prefeito Eduardo Paes. Evidentemente que não é o momento de pedir voto, mas a gente está construindo um programa”.
A entrevista fecha na agenda do país. Para Neves, o Brasil tem uma oportunidade histórica, mas precisa enfrentar simultaneamente problemas do século 20 e desafios do século 21.
Do lado do passivo acumulado, cita três frentes urgentes. “Nós temos 100 milhões de pessoas sem acesso a saneamento ainda no Brasil. Metade da população”.
A questão habitacional exige mais ambição do que a meta atual. “Nós temos um déficit habitacional de quase 8 milhões de moradias. (…) Se a gente não fizer mais moradias do que 3 milhões em 4 anos, nós não vamos resolver o problema do déficit habitacional do Brasil nos próximos 20, 30 anos”.
A política de resíduos sólidos segue precária. “Nós temos 3 mil cidades depositando o seu lixo em lixões”.
Sobre mobilidade, defende uma inflexão estrutural. “Cidade moderna e desenvolvida não é aquela onde o pobre, a classe média e todo mundo usa carro. É a cidade onde o rico, a classe média e o pobre usam transporte público de qualidade”.
Neves pede também uma mudança de arquitetura institucional. “Tem que criar o Ministério da Segurança Pública”, afirma, defendendo um desmembramento do atual Ministério da Justiça.
Crítico das políticas armamentistas do governo Bolsonaro, descreve o efeito concreto do afrouxamento das regras de acesso a armas de fogo. “Durante quatro anos, no governo Bolsonaro, eles fizeram os caques, facilitaram o uso de arma de fogo por qualquer um. E o que aconteceu? A violência não diminuiu no Brasil. Ao contrário, as milícias e o tráfico passaram a ter acesso a armas de fogo, muitas das vezes, dos caques”.
Para fechar, um recado ao Cafezinho. Questionado sobre o momento do debate nas redes, o prefeito foi direto.
“A gente acredita muito que o caminho do debate e das redes tem que ser o caminho também do campo progressista. Não é possível que a extrema direita continue tomando conta majoritariamente do debate nas redes sociais”.