Corte de ajuda internacional agrava crise de refugiados sudaneses no Sudão do Sul

Refugiados sudaneses se reúnem sob uma árvore no assentamento de Gorom, no Sudão do Sul. (Foto: © Florence Miettaux / RFI)

A guerra no Sudão, que eclodiu em abril de 2023, provocou uma das mais graves crises humanitárias da África contemporânea. O impacto mais recente recai sobre os refugiados sudaneses que buscaram abrigo no Sudão do Sul, onde a escassez de recursos e o colapso da ajuda internacional transformaram os campos de acolhimento em espaços de sobrevivência extrema.

Cerca de 439 mil sudaneses atravessaram a fronteira rumo ao Sudão do Sul, parte de um total estimado em 4,5 milhões de deslocados espalhados por países vizinhos em toda a região. Um dos principais destinos é o campo de Gorom, próximo à capital Juba, que abriga mais de 20 mil pessoas em condições cada vez mais precárias.

A redução drástica da ajuda norte-americana, iniciada em 2025, paralisou serviços essenciais e deixou milhares sem acesso a alimentação, saúde e educação. Maker Deng, representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) em Gorom, descreveu o cenário como uma sucessão de emergências diárias. As equipes humanitárias são obrigadas a selecionar com rigor quem receberá o auxílio mensal de apenas 10 dólares por pessoa, já que os fundos disponíveis não cobrem mais as necessidades básicas de todos os habitantes do campo.

O corte de financiamento atingiu duramente setores vitais. A escola de Gorom, planejada para 400 alunos, hoje tenta atender 4 mil crianças sem professores suficientes e sem material didático. Na área da saúde, refugiados morrem no centro médico local por falta de meios para transferências hospitalares, e profissionais qualificados abandonaram o posto devido aos salários reduzidos.

Deng relatou ainda que o acompanhamento pré-natal foi suspenso e que os partos deixaram de ser realizados por falta de parteiras. O fim dos programas de microcrédito e capacitação profissional encerrou qualquer possibilidade de autonomia econômica para os refugiados, aprofundando a dependência de uma assistência que já não chega em volume suficiente.

Sem alternativas, muitos refugiados se arriscam em minas de ouro artesanais ao sul de Juba, regiões marcadas pela insegurança e pela ausência de proteção institucional. Essa busca desesperada por sustento expõe famílias inteiras a novos riscos de violência e exploração, agravando a vulnerabilidade de uma população que já fugiu de um conflito devastador.

A redução do apoio financeiro ameaça não apenas a sobrevivência imediata dessas populações, mas também a estabilidade de toda a região do Nilo Superior. O Sudão do Sul, que enfrenta seus próprios desafios econômicos e políticos, torna-se o epicentro de uma crise humanitária silenciosa e crescente. As agências da ONU alertam para o risco de um colapso ainda mais profundo caso os grandes doadores internacionais não retomem os repasses suspensos.

Leia mais sobre o assunto na © Florence Miettaux / RFI.


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