Hiperglobalização está em crise, afirma economista Eduardo Giannetti

Nesta quarta-feira (2 de abril de 2026), em entrevista à TV Brasil que será exibida no programa Repórter Brasil, o escritor e economista Eduardo Giannetti avaliou que a hiperglobalização está em crise. A desestabilização de rotas comerciais, como o Estreito de Ormuz, e a guerra tarifária promovida pelos Estados Unidos são sinais de que essa ordem econômica chega ao fim.

“As consultorias internacionais mostram que, para 180 produtos críticos das cadeias globais de produção, há dois ou três fornecedores no mundo. Se você olhar, Taiwan responde por 90% da produção dos chips mais avançados. Então, a partir dessa constatação, há uma busca por diversificação e segurança”, resumiu o economista.

“Não é mais a lógica fria de hiperglobalização, que era custo de produção mais baixo, escala, eficiência e concentração num único fornecedor. Mudou.”

Giannetti relacionou o fim da hiperglobalização a fatos históricos, como a crise financeira de 2008 e a pandemia de Covid-19, destacando também a financeirização do período. “Quando nós entramos na hiperglobalização, havia mais ou menos 1 dólar de ativo financeiro para 1 dólar de PIB. Hoje nós estamos com 9 a 12 dólares de ativo financeiro para 1 dólar de PIB”, comparou.

O economista acrescentou que apenas a valorização das ações na bolsa americana, de 2022 a 2026, gira em torno de 2 trilhões de dólares, sendo que metade desse valor está concentrada em 10 empresas ligadas à tecnologia da informação e inteligência artificial.

Para Giannetti, um dos dados mais relevantes desse período é a entrada no mercado de trabalho e consumo de centenas de milhões de trabalhadores asiáticos, antes excluídos da economia mundial. Com a hiperglobalização, populações rurais de países como China, Índia, Vietnã e Indonésia se urbanizaram e encontraram empregos em pouco tempo.

“Isso, para a classe trabalhadora ocidental, foi devastador, porque o poder de negociação, de afirmação de direitos e interesses, ficou seriamente tolhido pelo fato de que, se começou a dar problema em Detroit, fecha Detroit e abre Xangai.”

Com a China respondendo por um terço da produção industrial global, Giannetti também destacou a melhoria nas condições de vida de sua população. “São centenas de milhões de seres humanos que saíram da miséria e entraram no mundo moderno. Agora, isso gerou uma tremenda instabilidade social e política.”

A ascensão da extrema direita, segundo o economista, seria em grande parte resultado do ressentimento da classe trabalhadora e média ocidental diante da perda de segurança e poder de barganha. “Não é só isso, mas isso é um fator de primeira ordem. O que é muito curioso é que essa ascensão da direita raivosa, populista, nacionalista, não é um fenômeno isolado. É como nos anos 1930 do século 20. Ela acontece em muitos países ao mesmo tempo”, analisou.

Com o fim da hiperglobalização, Giannetti acredita que o Brasil tem uma oportunidade histórica de se reposicionar economicamente. “Agora, o mundo vai buscar segurança, diversificação, e nós temos uma dotação de recursos naturais, amenidades ambientais, energia, matérias-primas e minerais que o mundo vai precisar dramaticamente. A gente tem que saber usar esse ativo a nosso favor.”

O economista ressaltou a biodiversidade como um dos principais trunfos do país, que possui grande potencial para atender à demanda crescente por alimentos, minerais críticos e terras raras. “O que a gente tem que saber é aproveitar essas vantagens comparativas, industrializando-as para não virar exportador de bens primários in natura, que é um caminho muito limitado. O fato de haver potências disputando entre si o acesso ao que nós temos nos ajuda demais, porque podemos negociar termos melhores”, pontuou.

Além do fim da hiperglobalização, Giannetti destacou que a humanidade atravessa uma crise civilizatória, sendo as mudanças climáticas a maior ameaça à espécie humana no século 21, acompanhada de negacionismo. “É muito confortável fingir que o problema não existe. Só que os governos podem ignorar a questão climática o quanto quiserem, mas a questão climática não vai ignorá-los e não vai nos ignorar. A realidade da mudança climática hoje é incontornável pela frequência de eventos climáticos extremos.”

Para o economista, a questão climática deve ser resolvida de duas formas: pela via preventiva, minimizando custos que, de qualquer modo, serão altos, ou pela “via dolorosa, que é o agravamento da situação a tal ponto que se torne imperativo algum tipo de ação. E aí o custo será muito mais alto do que precisaria ter sido”.

Fonte: Agência Brasil

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