Após anos de distanciamento diplomático, México e Espanha iniciam uma nova fase de aproximação impulsionada por um gesto simbólico de peso: o rei Felipe VI reconheceu publicamente que muitos abusos foram cometidos durante a conquista espanhola do continente americano.
O movimento abriu caminho para a primeira visita oficial da presidente mexicana Claudia Sheinbaum à Espanha desde o início de seu mandato, atendendo ao convite do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez para participar de um encontro de líderes progressistas em Barcelona.
O encontro reúne também os presidentes Gustavo Petro, da Colômbia, e Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil. O objetivo é articular uma resposta coordenada do campo progressista latino-americano e europeu diante do avanço de governos ultraconservadores na região.
Segundo a RFI, a visita ocorre cerca de um mês após a declaração do monarca espanhol, recebida em Cidade do México como um marco nas relações bilaterais.
A tensão entre os dois países se arrastava desde 2018, quando o então presidente Andrés Manuel López Obrador exigiu um pedido formal de desculpas da monarquia espanhola pelos crimes cometidos contra os povos indígenas durante a colonização. A reação espanhola foi dura: setores políticos e intelectuais de Madri defenderam a narrativa de que a Espanha teria levado a “civilização” ao continente.
A divergência semântica entre “conquista” e “descoberta” tornou-se símbolo do abismo de percepções entre os dois países.
Nos anos seguintes, Madri começou a dar sinais de revisão de postura. A devolução de peças arqueológicas ao México e as declarações do chanceler espanhol José Manuel Albares, reconhecendo a “dor e injustiça” sofridas pelos povos originários, pavimentaram o terreno para o gesto recente do rei Felipe VI.
Embora não tenha apresentado desculpas formais, o monarca admitiu a existência de “muitos abusos” — declaração recebida como um avanço concreto pelo governo mexicano.
Sheinbaum, que assumiu a presidência do México em outubro de 2024, tem adotado uma diplomacia mais ativa que a de seu antecessor. A pesquisadora Hélène Combes, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), destacou que a presidente conseguiu manter um diálogo firme e ao mesmo tempo cordial com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Esse equilíbrio envolveu concessões em temas sensíveis — como a extradição de narcotraficantes — e ganhos concretos, como o reforço no controle da entrada de armas americanas em território mexicano.
Em coletiva de imprensa na Cidade do México, Sheinbaum afirmou que o reconhecimento do rei representa um avanço importante na construção de uma memória compartilhada entre os dois países. A presidente ressaltou que o diálogo atual permite analisar esse passado de forma mais crítica e madura, mesmo diante de visões ainda distintas sobre o significado histórico da chegada dos espanhóis ao território mexicano.
Sheinbaum confirmou que não se reunirá pessoalmente com o rei Felipe VI durante a viagem, mas sinalizou que o México deixou de exigir publicamente um pedido formal de desculpas. Essa postura representa, por si só, uma mudança significativa de tom em relação à era López Obrador.
A presidente também estendeu ao monarca um convite para assistir a partidas da Copa do Mundo de 2026, que ocorrerá entre junho e julho no México, nos Estados Unidos e no Canadá — gesto interpretado pelo corpo diplomático como sinal concreto de normalização das relações.
A reaproximação entre México e Espanha transcende o campo estritamente simbólico. Ela aponta para uma nova etapa de cooperação política e cultural ancorada no reconhecimento das violências históricas e na disposição, de ambos os lados, de construir uma agenda bilateral sem que o peso do passado colonial bloqueie o presente.
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